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Vergílio António Ferreira - (1916-1996)

Vergílio António Ferreira (1916-1996), nasceu na Beira Alta (Melo, concelho de Gouveia). Frequentou, durante seis anos, o seminário do Fundão, ao que se seguiu o Liceu da Guarda. Estudou e licenciou-se em Filologia Clássica na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Depois do estágio, consagrou-se à vida de professor do ensino liceal, a par da atividade literária como romancista, contista, diarista e ensaísta.

A obra ficcional de Vergílio Ferreira começa por testemunhar a implantação do neorrealismo, participa nela e depois toma um rumo autónomo, especialmente significativo dos anos 50 em diante. Tendo iniciado a sua produção literária com o romance O caminho fica longe (1939), Vergílio Ferreira não escapou, como muitos outros escritores da sua geração, às dominantes ideológicas e culturais de uma época histórica atravessada por tensões muito vivas: a atitude de resistência à ditadura e de solidariedade para com os oprimidos, projetada na literatura, é bem visível em Vagão J (1946), numa época em que se dá a aprendizagem do romancista, sob a influência de escritores como John Steinbeck, Ernest Hemingway e John Dos Passos; é também esse o tempo em que progressivamente o escritor se vai aproximando daqueles que viriam a ser pensadores fundamentais para a sua formação: Karl Jaspers, Sartre e Heidegger.

Uma tal evolução entende-se como parte das transformações que levam à superação do neorrealismo, no caso em apreço consumada em finais dos anos 40. Conforme notou Eduardo Lourenço, a deriva de Vergílio Ferreira “conduzirá o autor de Vagão J até Estrela Polar (...). Porventura, pela sua mesma diferença nenhuma obra destes últimos vinte e três anos guarda tanto a marca dessa passagem através do fogo ideológico como a do autor de Mudança” (Lourenço: 1994: 162). De facto, com Mudança (1949) pode dizer-se aberta uma nova etapa na produção literária de Vergílio Ferreira. Depois dele, surgem Manhã Submersa (1954), atravessado pela intensa memória da adolescência, e Aparição (1959), este último um romance a diversos títulos decisivo, pela forma como equaciona sentidos fundamentais da ficção narrativa do autor. Pode dizer-se que Vergílio Ferreira é então, cada vez mais, um escritor que cruza o discurso da ficção com o registo do ensaio, configurando um tipo de romance a que ele mesmo chama romance-problema.

Depois disso, os anos 60 foram um período especialmente fecundo na produção ficcional e ensaística de Vergílio Ferreira: em 1960, publica Cântico Final, depois Estrela Polar (1962) e em seguida recupera Apelo da Noite (1963), redigido quase dez anos antes; de 1965 é o romance Alegria Breve. E juntamente com a ficção emergem referências literárias e filosóficas como o existencialismo e a fenomenologia, o novo romance, Kafka, Albert Camus e André Malraux, marcos de um percurso em que cada vez mais está em causa a estrutura do romance como género internamente coeso; assim, em Alegria Breve, a alegria da vida, momento fugaz entre o nascimento e a morte, representa-se num espaço difuso e desrealizado. Depois, em Rápida, a Sombra (1974), são pulverizadas as categorias convencionais do romance, diluídas na memória de um narrador estático; e até ao final da sua vida literária, Vergílio Ferreira persiste numa escrita de qualidade notável, incluindo a insistente revisão e atualização formal do romance, ao ponto de nele se ir instaurando uma forte dimensão lírica (cf. Goulart, 1990). Nos seus últimos romances (Para Sempre, 1983; Até ao Fim, 1987; Em Nome da Terra, 1990; Na Tua Face, 1993), depuram-se e refinam-se alguns dos grandes temas que estruturam a parte mais significativa da ficção e do pensamento vergilianos: a reflexão sobre a arte, o encanto e o desencanto que ela pode suscitar, a condição humana e as suas fragilidades, a vivência do tempo e da certeza da morte, a fugacidade da vida, a relação com os outros, a solidão do sujeito, etc. A tudo isto, que configura uma das produções literárias mais importantes da nossa contemporaneidade, junta-se, não raras vezes em diálogo com a obra ficcional, uma importante atividade ensaística onde abundam ponderações metaliterárias, com destaque para Espaço do Invisível (4 vols., 1965-1987, mais um vol. póstumo, 1998), bem como o culto do diário (Conta-corrente, 9 vols., em 2 séries, 1980-1994).

 

Referências:

GOULART, Rosa M. (1990). Romance lírico. O percurso de Vergílio Ferreira. Amadora: Bertrand.

LOURENÇO, Eduardo (1994). O Canto do Signo. Existência e Literatura (1957-1993). Lisboa: Presença.

 

Personagens no Dicionário:

Alberto Soares (Aparição)

Paulo (Para sempre)

 

Carlos Reis