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PAULO

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PAULO (Vergílio António Ferreira, Para Sempre)

 

Paulo, o bibliotecário aposentado do romance Para sempre (primeira publicação, 1983), de Vergílio Ferreira, é, antes de tudo, um narrador ensimesmado, pensador da sua própria condição existencial: “Quem sou? Que é que perdura em mim do que fui sendo?” (Ferreira, 2008: 112). Entre os papéis de narrador e de protagonista, atua em dois níveis temporais principais: o tempo da narração, a tarde de agosto de retorno à casa de infância; o tempo lembrado, composto por experiências vividas mais ou menos remotamente. Ainda que sua rememoração não mantenha rigorosamente a ordem dos acontecimentos, ela permite compor uma linha biográfica, da infância à velhice; indica mudanças psicológicas e comportamentais. Um recurso bastante expressivo dessa identidade narrativa é a multipartição do velho Paulo nos outros que foi (menino travesso, jovem apaixonado, etc.), presentificados em cena, analisados e ouvidos como se de segundas ou terceiras pessoas se tratasse. Além disso, um constante tom de auto-indagação e auto-aconselhamento dramatiza, ainda mais, o diálogo interno da personagem em busca de uma definição de si.


          A intenção de Paulo não é exatamente contar sua vida, mas entender o sentido dela e, mais genericamente, refletir sobre a condição humana. O cenário, as demais personagens, os acontecimentos funcionam, então, como oportunidades para suas meditações. Como ato inicial, o regresso à casa da infância impulsiona o despertar do ser. Os cheiros e objetos empoeirados (como um chapéu de palha feminino, uma caixa de violino, uma máquina de costura), ali reencontrados por Paulo, ativam sua memória e fazem-no reviver os momentos mais significativos do passado na procura de uma noção de unidade: “Dou à volta à casa toda, dou à volta à vida toda e é como se um desejo de a totalizar, de a ter na mão” (43). Ao mesmo tempo, a abertura das janelas da casa propicia-lhe comunicação com a aldeia, a natureza e o cósmico, assim favorecendo a reflexão metafísica, a indagação sobre seu lugar no mundo.


          A busca do pleno conhecimento do eu passa pela busca do pleno conhecimento do outro. Esse preceito da filosofia existencialista alimenta a figuração de Paulo, não só pela forma como ele analisa suas outras fac(s)es, mas também pelo saldo experiencial das relações interpessoais e dos eventos compartilhados. Entre as situações que mais calaram emocionalmente em sua memória, estão a loucura e a morte precoce da mãe; a educação conservadora e católica das tias; o amor-paixão pela mulher Sandra, sua doença e morte; o conflito de valores e afetos com a filha Xana; o êxtase encontrado na música. A atenção de Paulo é monopolizada, contudo, pela relação amorosa com Sandra, a quem devota um amor-erotismo arrebatado: “Prazer total, de tudo quanto está no corpo desde o mais baixo das vísceras até à agonia de uma iluminação divina” (207). Bastante expansivo emotivamente, o protagonista enfrenta a gravidade dela, “dominada controlada frígida de correcção” (199), diferença que o desafia a desvendá-la: “Queria ter-te toda e parecia que alguma coisa me fugia e não entrava no domínio da minha posse, da minha absorção” (205). Frustrado nesse intento, Paulo transforma a amada na ideia de absoluto inatingível, “terrível beleza intocável”, “graça aérea imaterial” (206). Essa tendência para a mitificação reforça-se com a viuvez, e a narração funciona também como um modo de resgatar o instante primordial da perfeição amorosa, de reinventar a beleza depois da fealdade e decrepitude experimentadas na doença e na morte da mulher. “Atacado de religião desde a infância” pelas tias, Paulo muito cedo desenvolve “obsessões heréticas” e pratica uma devoção mais mecânica do que autêntica. Ainda assim, a lei católica oferecia-lhe “uma maneira de ser como as regras da civilidade” (168), uma forma de dar sentido à vida. A convivência com a irreligiosidade de Sandra e a perda precoce dela, no entanto, parecem ser decisivas para que assuma um “ateísmo evoluído e maioritário” (83). Sem o amparo de Deus, o protagonista precisa enfrentar a inverossimilhança da morte; assim, toda a narração funciona como uma “aprendizagem do fim” (278), a procura por uma palavra essencial que explicasse a completude do ser e contribuísse para a aceitação de sua condição transitória.


          Desse modo, o ato de recolher-se à silenciosa casa aldeã relaciona-se também à vontade de depurar-se de todo conhecimento abstrato acumulado, de toda “barulheira infernal do mundo” (235) com que conviveu inclusive por sua situação de bibliotecário. Esse processo de depuração materializa-se num discurso paródico e sarcástico destinado a concepções religiosas, filosóficas, políticas, morais, etc., concebidas como verdades absolutas. Liberto de determinações universalistas, Paulo busca na própria existência iluminações singulares que lhe permitam entender-se enquanto “ser para a morte”. Nesse sentido, ganham valor a palavra inaudível que, quando menino, a mãe lhe segreda no leito de morte, uma espécie de falta originária que impulsiona sua busca; a escuta enlevada da “voz da terra” (123), que o conduz ao reconhecimento do “espírito do universo” (295) e à aceitação de uma ordem primordial e transcendente; a música, cultivada na infância e juventude, ressurgida no significativo reencontro com o violino no último capítulo do romance, “que reinventa e resume toda a complicada maneira de dizer” (178), permite sua comunicação com o misterioso e o inefável.


          Portanto, a significação de Paulo depende diretamente da sua perspectiva, da maneira como explora suas próprias sensações, desejos, angústias e se pensa diante do outro. Bem distante de uma imagem plana, típica ou caricata, Para sempre apresenta a própria personagem a debater-se com sua fragmentação e incompletude, em luta para desconstruir possíveis máscaras que o resumam de fora; em busca da melhor palavra para se compreender e explicar. Entre a aporia e a epifania, Paulo transforma o ordinário da vida em matéria de singular e sutil reflexão – o que diz também da nossa intimidade insondável, põe-nos a pensar sobre o nosso estar no mundo e, por isso, tanto nos atrai.


          Nem é preciso lembrar que Paulo concentra facetas de outras personagens de Vergílio Ferreira e dialoga com a filosofia existencialista do autor, confessada recorrentemente em diários e ensaios. Sua importância na obra de Vergílio Ferreira foi confirmada, aliás, pela sobrevida que o autor lhe deu em Cartas a Sandra (1996), ressuscitando-o para ali morrer, não sem antes fazer da palavra uma forma de experimentar a transcendência amorosa e alcançar a eternização da amada.

 

Referência:

Ferreira, Vergílio (2008). Para sempre. Lisboa: Quetzal [1983].

Raquel Trentin