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C > CASTELO BRANCO, Camilo

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Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco - (1825-1890)

Nascido em Lisboa, Camilo Castelo Branco confunde a sua vida atribulada com a própria trama de muitos dos seus enredos ficcionais. A orfandade leva-o a ir viver para Trás-os-Montes, em 1836, ao cuidado de tios que zelam pela sua educação, fazendo-o ingressar no seminário de Vila Real. Não admira, por isso, que venha a ser, mais tarde, prefaciador, tradutor e divulgador de obras de natureza religiosa e apologética.
A sua vida emocional é, desde o início, complicada: casado em primeiras núpcias com uma jovem menina, que viria a morrer na expectativa de voltar a receber o marido nas faldas de Friúme, fica a braços com uma filha de uma segunda relação efémera com D. Patrícia Emília. Não obstante, é a história amorosa partilhada com Ana Plácido, a prisão de ambos na cadeia da Relação e a escrita de Memórias do Cárcere e de Amor de Perdição que dão à sua biografia a feição romântica que o tornou conhecido.


          Tentando, sem sucesso nem diligência suficiente, cursar Medicina e, mais tarde, Direito, Camilo viverá sempre da sua pena prolífica e lesta, da ficção, do jornalismo e da crítica literária. Depois de fazer a sua estreia poética em 1845, no ano seguinte escreveu a peça Agostinho de Ceuta. De finais dos anos 40 é também o melodramático folheto Maria! Não Me Mates Que Sou Tua Mãe!.


          Todavia, é com o romance Anátema que Camilo alcança o seu primeiro sucesso editorial. Apesar de ser um autor situado no período romântico, o seu amigo e biógrafo, Pe. Sena Freitas dirá mais tarde: “O meu caro amigo Camilo Castelo Branco, querendo provar aos zolistas de Portugal que era capaz de produzir romances envasados nos moldes da nova escola, publicou o seu primeiro livro naturalista Eusébio Macário e, a pouco trecho A Corja, A Brasileira de Prazins, etc.” (Freitas, 2005: 75).


          Cenas Contemporâneas (1854-55), O Livro Negro do Padre Dinis (1855) e Onde está a Felicidade? (1856) são os títulos que se seguem na sua produção e que integram uma lista impressionante e dificilmente comparável, face a outros escritores portugueses. Os anos 60 serão igualmente produtivos: veem a luz do dia as duas obras escritas na prisão, bem como tantas outras, de entre as quais destacamos Memórias de Guilherme do Amaral (1863), A Filha do Doutor Negro, Vinte Horas de Liteira (ambas de 1864) e A Queda de um Anjo (1866).


          A verve, a autoironia, a paródia, a crítica social, a naturalidade e fluência do diálogo, pontuados de sentimentalismo e alguma piedade cristã garantem o êxito de um autor que a Parceria A. M. Pereira publicava fielmente e com prazos bem definidos. Numa relação de inexcedível cumplicidade com o leitor, Camilo escreve assim, no início de O que fazem Mulheres: “ Não se resiste a isto. Há de chorar toda a gente ou eu vou contar aos peixes, como o padre Vieira, este miserando conto.” E continua, ao estilo de Radcliffe: “Se respeita a sua sensibilidade, fique por aqui; não leia o resto, que está aí adiante uma, ou duas são elas as cenas das que se não levam ao cabo, sem destilar em lágrimas todos os líquidos da economia animal. Este romance foi escrito num subterrâneo, ao bruxulear sinistro duma lâmpada.” (Castelo Branco: 1858).


          Em S. Miguel de Seide, a sua vida pessoal não deixa de ser atribulada, sobretudo com o nascimento dos dois filhos, mas continua a escrever incessantemente. Embora sem “nenhuma vantagem em mudar de estilo”, como acentua Maria Aparecida Ribeiro, “com as Novelas do Minho (1875-76), o escritor começa a apurar um realismo que nele existia como tendência para ver as coisas de uma forma crua” (Ribeiro, 2000: 143). Podemos verificar isso mesmo em Maria Moisés e em Josefa de Santo Aleixo. Semelhante evolução se sente em Marta de Prazins, protagonista de A Brasileira de Prazins, mas também em Eusébio Macário, protagonista da obra de nome homónimo (1879). Assim, vemos Camilo entrar na estética naturalista, escasseando-lhe a saúde para a apurar, mas dando a mão à palmatória em relação à nova escola.

Camilo Castelo Branco tem sido um dos autores mais apetecidos por argumentistas de cinema e produtores de televisão. Títulos como Amor de Perdição, O Retrato de Ricardina, Os Mistérios de Lisboa ou O Livro Negro do Pe. Dinis serviram de mote ou de ponto de partida para séries e filmes que recuperam a mestria do autor. 

 

Referências

Castelo Branco, Camilo (1858). O que fazem Mulheres. Lisboa: Parceria A. Maria Pereira.

FREITAS, Sena (2005). Perfil de Camilo Castelo Branco. Porto: Caixotim.

RIBEIRO, Maria Aparecida (2000). História Critica da Literatura Portuguesa. Volume VI. Realismo e Naturalismo, Coord. de Carlos Reis, Lisboa: Verbo.