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RICARDINA

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Autor: capa do romance nas Edições Vercial

RICARDINA (Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco, O Retrato de Ricardina)

 

Tendo sido publicado em 1868, O Retrato de Ricardina, de Camilo Castelo Branco, tem como temática uma típica história de amor que atravessa tempos e espaços, não sem envolver, numa intriga conturbada, situações que tratam de temas transversos como os desencontros, o ódio, a vingança, os jogos de interesse, as disputas entre famílias. Mencionem-se, ainda, duas questões que atravessam a escrita do romance: a disputa política entre conservadores e liberais representados, na trama, pelas famílias de Ricardina e de Bernardo, respectivamente, e a conhecida querela entre românticos e realistas, ambas questões em pleno desenrolar na época em que o livro é publicado.
Registre-se, preliminarmente, que há uma economia nos pormenores envolvidos na caracterização física de Ricardina, como se nota no início do relato: “[...] era alva, olhos cismadores e estáticos, compleição linfática, estatura mediana, ar melancólico e pudico, um certo quebranto que a poetas daria mais inspirações que a outra.” (Castelo Branco, 1936: 11). Ressaltam-se, no processo de figuração, aspectos que envolvem a personalidade e o estado de espírito da personagem, depois revelados em suas ações para confirmar ou mesmo contradizer alguns desses atributos.


           Ricardina é dona de uma primorosa beleza, qualidade que se repete em várias passagens do texto camiliano, além de atestada por outras personagens e pelo próprio narrador. Interessante é que essa imagem de beleza e formosura é focalizada sempre em relação a um mesmo tempo – a adolescência –, de modo a parecer que a personagem vence as intempéries da passagem dos anos, como ressalta o narrador: “[...] Aos trinta e três anos, D. Ricardina Pimentel, formosura inquebrantável a golpes de paixões tantas e tão variadas, esteve a pique de morrer de enfermidade do coração...” (Castelo Branco, 1936: 181, grifos meus). Ou, ainda, como observa a sobrinha Matilde ao ver a tia “tão nova e bonita”, a ponto de não lhe dar mais que 30 anos. Nesse aspecto, o texto deixa ver os arroubos românticos: se a heroína fosse vítima da morte seria por razões do coração, morte de amor e não de enfermidade física. É essa imagem de Ricardina, a imagem perfeita da mulher amada – bela e formosa – que Bernardo parece querer fixar quando pinta seu retrato, tal como a conheceu: “[...] o pintor, à luz da noite, e nas madrugadas convidativas da inspiração, espelhava o coração na tela, reproduzindo quási sempre as poucas variantes do mesmo motivo... Esta criança, sempre a mesma e inalterável na fidelidade das feições angélicas, era Ricardina.” (Castelo Branco, 1936: 34). Esse retrato pintado, Bernardo levava-o ao peito (note-se o duplo sentido) guardado em medalha de ouro da qual nunca se separou. Aqui já se pode pensar em uma espécie de transcodificação ou refiguração de Ricardina – ocorrida dentro da própria novela – já que o retrato, processado em outra linguagem, pode ser tomado como um tipo de interpretação iconográfica da personagem ficcional. (Cf. Reis, 2016).


           Outras escassas caracterizações de Ricardina ao longo do relato apontam para uma personalidade reta e um caráter angelical, entrevistos na “mais doce alma”, na sua “extrema bondade”. Além disso, ela é focalizada por Norberto como o “anjo salvador da sua fidelidade” (Castelo Branco, 1936: 22) ou mesmo denominada santa pelo narrador, para quem a santificação está reservada àqueles que experimentaram grandes agonias e dilacerações emocionais a ponto de desejarem a morte sem, portanto, serem vencidos por ela, como é o caso de Ricardina.


           Indicia-se, assim, na figuração da personagem camiliana, a condição de tipo que, visto em termos de salto metaléptico, aponta para seus aspectos semântico-extensionais. Dito de outro modo, em Ricardina processa-se a elaboração de um tipo social cujos traços físicos, culturais e de comportamento possibilitam sua identificação com a mulher burguesa do século XIX, a quem cabia um papel social passivo e submisso em relação à figura masculina, além dos poucos direitos e da pouca liberdade a ela concedidos. Sabe-se, no entanto, que o processo de figuração de personagens vai além da caracterização pura e simples e é nesse aspecto que se nota a contradição que envolve a constituição da personagem de Camilo Castelo Branco. A começar pelo nome, Ricardina corporiza o tipo de mulher frágil e delicada, atributos reforçados pelo sufixo –ina, indicando o diminutivo. Considerando o aspecto comportamental da mulher do século XIX, de quem se esperava atitudes cordatas e subservientes, o nome Ricardina também é sugestivo: deriva de um nome masculino – Ricardo – o que pode ser um índice para se pensar no papel de submissão da mulher em relação ao homem.


           Entretanto, é preciso notar a ambiguidade que ronda a constituição da personagem na medida em que muitas de suas atitudes revelam, por trás da aparente fragilidade e obediência, maneiras de subversão e resistência ao jugo patriarcal e coragem no enfrentamento das mais variadas adversidades. Tal particularidade da personalidade de Ricardina parece ser sutilmente apontada pelo narrador quando menciona “[...] o sisudo porte de senhora” (Castelo Branco, 1936: 37, grifo meu) contrariando a “compleição linfática” descrita no início do livro. De forma mais direta, é também o narrador quem diz ser Ricardina um “[...] espírito sereno, tão forte e discreta em mais apertados conflitos.” (p. 79), a mostrar a força e a coragem da personagem. A ida de Ricardina para o convento, muito além do acato a uma ordem paterna, sinaliza um movimento de resistência a essa mesma ordem, uma vez que a ‘punição’ é aceita pela moça para não ter que satisfazer a vontade do pai de casá-la com o primo abastado.

Em outras situações encenadas, a personagem dá sinais de ser uma mulher corajosa, valente e determinada a alcançar seus propósitos: enfrenta os mais diversos obstáculos para permanecer ao lado de Bernardo, inclusive aceitando seu plano de fuga; apesar da dificuldade em ser mãe solteira, cria o filho com dignidade, proporcionando-lhe acesso aos estudos sem receber ajuda alheia; nega-se a ir para o convento para esconder a gravidez sem matrimônio, como fora orientada pelo cunhado, assumindo a maternidade mesmo julgada como uma vergonha familiar.

Interessante é que a ambiguidade que se nota na figuração de Ricardina também parece permear a escrita autoral já que, ao constituir assim a personagem, ironicamente Camilo Castelo Branco aponta para um aspecto emancipatório do papel social ocupado pela mulher, o que, de certa forma, não condizia com a formação cultural e moral da mulher oitocentista. Ao mesmo tempo em que cria uma figura ficcional que parece transmitir os valores aceitos pela sociedade, Camilo abre possibilidades para que a personagem revele artimanhas que lhe permitam impor-se para mostrar seus próprios valores, fugindo, assim, ao padrão de comportamento esperado para a época.

Para além do espaço romanesco, novo salto metaléptico: Ricardina passa por um processo de refiguração ao ser transposta para o universo mediático. Trata-se de Ricardina e Marta, a primeira telenovela portuguesa de época, exibida em 1989 pela RTP1, aos domingos. Ao que parece, segundo informações da época, a telenovela não obteve grande sucesso de audiência e, por isso, foi exibida como uma série em apenas trinta episódios. Aí, tal como no romance, Ricardina e Bernardo também protagonizam uma história de amor difícil e cheio de barreiras, mas, ao final, vencidas com o reencontro do casal quinze anos após sua separação. Tem-se, assim, um processo de sobrevida da personagem romanesca que ora se processa em outra linguagem e em outro suporte.

 

Referências:

CASTELO BRANCO, Camilo. O Retrato de Ricardina. 8ª edição (edição popular – LVIII), Lisboa: Livraria Editora, 1936.

REIS, Carlos. Pessoas de livro. Estudos sobre a personagem. 2ª edição. Imprensa da Universidade de Coimbra, 2016.

Valéria Machado