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Cónego Justino

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Autor: Capa do livro Eusébio Macário por Alberto de Souza

Cónego Justino (Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco, Eusébio Macário e A corja)

Cónego Justino é uma personagem do díptico constituído pelos romances Eusébio Macário (1879) e A Corja (1880), de Camilo Castelo Branco. No início da narrativa, é apresentado como sujeito de cerca de quarenta anos “com os fluidos nervosos degenerados” (Castelo Branco, 1988b: 471). A figuração da personagem, inserida no cenário do Portugal nortenho de Oitocentos, assenta em três aspetos indissociáveis e fautores do seu relevo diegético: no seu percurso eclesiástico, na sua trajetória política e na sua vida amorosa.

Natural de Padornelos, em Trás-os-Montes, Justino do Rosário principiou a vida religiosa como noviço dominicano. A experiência foi interrompida pela intenção de Joaquim António de Aguiar, manifestada em 1834, de extinguir as Ordens religiosas regulares masculinas, devolvendo assim o jovem frade à vida desbragada, numa existência norteada pela satisfação de instintos sensuais e pelos prazeres do vinho e da comida (472-473).

Em 1840, a fação cabralista começava a expandir-se e Justino adere à causa política que lhe atribuirá uma freguesia, Santiago da Faia, onde os deveres eclesiásticos facilmente se cumprem. Todavia, a constância de ideário político não seria uma qualidade do abade: por despeito contra as atitudes de Eusébio Macário - também partidário de Costa Cabral e que se convertera em seu adversário -, passa a defender afincadamente os Regeneradores e consegue “o reviramento do espírito público numa área de doze léguas” (Castelo Branco, 1988a: 568).

Mais tarde, vaga na Sé do Porto um canonicato. Arrivista, ansioso por alcançar respeitabilidade, o alto cargo eclesiástico cativa-o, por lhe permitir também acercar-se da “corja” dos Macários a fim de “destruí-los, desabá-los”; segundo os preceitos naturalistas, vê a “canalhice” daquela família “como um escorrimento podre, latrinário de uma raça muito malandra” (575).

Durante a juventude, em terras de Barroso, Justino conhecera uma moça de servir, Felícia, que não sabia ler nem escrever, e ainda menos a idade (devia rondar os dezasseis anos), uma rapariga “possante” (Castelo Branco, 1988b: 473) mas arisca, a quem ofertara, na romaria de S. Bartolomeu, um anel de corais. No regresso à aldeia, após a saída de Guimarães, a primeira pessoa com quem se cruzou foi com a rapariga, que o achou “chupadinho” (476), bem diferente do outrora “forte” mocetão “feito na orelha suína” (472). O temperamento sanguíneo do frade não tinha sido caldeado pelo estudo nem pelos preceitos da lei divina.

Salvaram-no da enfermidade os cuidados, os caldos e o amor de Felícia que, após a recuperação do padre, voltou a habitar uma choupana a pouca distância de Padornelos. Justino visitava-a, à noite, precavendo-se contra as investidas dos lobos, acabando mesmo por matar um destes, facto que lhe granjeou a admiração de muitos, entre eles a dos cabralistas, e a abadia de Santiago da Faia, onde veio a instalar-se com a zelosa governanta. Sadio e na pujança da idade, desfruta das “ovelhas” do “rebanho”, “desgarradas do redil da castidade, à semelhança da Canelas, mulher do Eusébio da botica” (484). Estas aventuras provocam nova recaída do seu estado de saúde; mais uma vez, é Felícia quem o trata.

Por esta altura, Justino vê-se privado da companheira, dado que o irmão de Felícia, regressado do Brasil e convertido em barão do Rabaçal, a quer junto de si, para a casar e lhe conceder um dote. Felícia desposará José Macário, o Fístula, irmão de Custódia, baronesa do Rabaçal, e filho de Eusébio. Incapaz de viver só, o cónego substitui a presença de Felícia pela de uma costureira, a Eufémia Troncha, tão dotada quanto a primeira mas menos apetecida.

As saudades de Felícia prevalecem. Uma vez alcançada a conezia na Invicta, e pela leitura do Periódico dos Pobres tem notícias dela, da vida de sociedade que leva no Porto, como irmã do barão do Rabaçal e mulher de José Macário (Castelo Branco, 1988a: 573-574); tem conhecimento de que o Fístula a trai e, neste sentido, conspira para o divórcio do casal, escrevendo uma denunciadora carta anónima. Incita Felícia a pedir o divórcio, que esta assinará pelo seu próprio punho, uma vez que entretanto aprendera a escrever.

A aparência física e as maneiras de Justino sofrem, no Porto, uma transformação positiva: “Compusera-se”, vestia de “preto, com apontada decência”, apresentava “cores sadias”, denunciando que se operara nele “uma renascença lírica” (599-600). Reinicia as visitas a casa de Felícia. Contudo, mais tarde, acaba por ver gorada a sua intenção de ridicularizar os Macários, uma vez que Eusébio casa com Eufémia, a sua antiga amante: foi, por conseguinte, uma “guerra implacável” (672).

No que concerne à sua relevância diegética, Justino representa o vício e a ganância que afetavam certas franjas do clero português, constituído por elementos de rudimentar cultura e que professavam sem fé, agindo por instinto, como verdadeiras bêtes humaines, incapazes de relativizar factos ou situações pelo uso da razão. De Justino encontramos um símile em Vulcões de lama (1886) de Camilo Castelo Branco: Padre Hilário. Ambos se aproximam, de forma evidente, de membros da mesma classe representados por Eça de Queirós sobretudo n’O crime do padre Amaro (1875).

Camilo Castelo Branco pretendeu, com as narrativas Eusébio Macário e A corja, demonstrar, através do recurso à ironia, que dominava os preceitos de composição romanesca preconizados pela nova escola, o realismo-naturalismo de Teixeira de Queirós e de Eça, subintitulando o primeiro volume de “História natural e social de uma família no tempo dos Cabrais”. Por essa razão, no estudo psicofisiológico que desenvolve acerca da classe burguesa, a personagem é apresentada como o resultado da influência do meio, da raça e do momento histórico em que se encontra inserida.

A pintura da realidade, a delineação do meio que envolve a ação em que a personagem se insere, a apresentação das características históricas coetâneas da intriga, estão bem patentes em Eusébio Macário e nA corja, características que, sustentadas por uma ironia mordaz, permitem a análise cruel de uma ‘normalidade’ que se espraia na continuidade do tempo.

 

Referências:

CASTELO BRANCO, Camilo (1988a). "A corja", in Justino Mendes de Almeida (dir.), Obras Completas, volume VIII. Porto: Lello & Irmão – Editores. 

______ (1988b). "Eusébio Macário", in Justino Mendes de Almeida (dir.). Obras Completas, volume VIII. Porto: Lello & Irmão – Editores. 

Maria Eduarda Borges dos Santos