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EUSÉBIO MACÁRIO

EUSÉBIO MACÁRIO (Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco, Eusébio Macário e A Corja)

eusebio macario

 

Personagem do romance homônimo (de 1879) e de A corja (1880), narrativa contígua à primeira, Eusébio Macário é um boticário, viúvo e pai de dois filhos, José Fístula e Custódia, além de ser amigo de Padre Justino. A primeira narrativa é iniciada com a descrição da cena em que o personagem encontra-se sentado à porta da botica da qual é dono. Eusébio comemorara o dia de anos com uma gula que marca uma certa inconsequência presente na personalidade do farmacêutico, em virtude do que “sentara-se espapado, com as carnes desfalecidas” (Castelo Branco, 1991: 44), fazendo, assim, a sua preguiçosíssima sesta.


Do ponto de vista de sua individuação diegética, é de notar que Macário via-se profundamente frustrado com a família que tivera, nomeadamente com o filho, porquanto José Fístula se dedicava apenas a ser “caçador e fadista nas tavernas sertanejas” (Castelo Branco, 1991: 45). A decepção paternal que a vida boêmia do filho punha em Eusébio veio a se dissolver quando Fístula, tal como a figura bíblica do filho pródigo, regressa à casa de Eusébio e resolve, ao lado do pai, dedicar-se ao trabalho de boticário, o qual, para a surpresa de Macário, desenvolveu muito bem. Depois disso, pai e filho criam um outro nível de intimidade e, assim, Eusébio se abre a uma amizade com Fístula.


Custódia também fora outra decepção para o personagem, já que a filha tinha trejeitos brejeiros, incondizentes com a delicadeza que, à época, esperava-se de uma mulher. As troças de Custódia, o seu jeito de falar, as suas piadas e o seu temperamento austero, por vezes violento, faziam nascer em Eusébio um certo desgosto, a ponto de ele falar pouco sobre a filha, uma vez que a sua figura, além de ter um jeito profundamente agaiatado, lembrava muito a mãe, já falecida.


Após a morte da esposa, Eusébio não se relacionou com mais ninguém, ainda que, de acordo com o primeiro romance, algumas “filhas de lavradores fartos, bem comportadinhas, boas caras, deitavam-lhe o rabo do olho, provocavam-no, atirando-lhe abraços de vides, suspiros e lágrimas de pingentes escarlates”. Mesmo diante de tais situações, Eusébio “vivia casto”, “sem desejo de se casar novamente” (Castelo Branco, 1991: 65) e muito propenso a reprimir as manifestações de sua sexualidade.


Contudo, a percepção que Eusébio Macário nutre em relação aos filhos muda com a chegada do comendador Bento José Pereira Montalegre, um português que, após fazer fortuna no Brasil, volta solteiro para Portugal e, assim que vai visitar a irmã, Felícia, vê Custódia e por ela se apaixona profundamente. A possibilidade de um matrimônio entre Custódia e Bento, que estava para ser nomeado Barão do Rabaçal, faz com que Eusébio Macário mude completamente o trato e o sentimento que nutre pelos filhos. A partir de então – e tendo em vista que essa empreitada matrimonial será o epicentro de todo o enredo –, a figuração do personagem passa a se filiar ainda mais aos padrões naturalistas explorados no romance de Camilo. Ou seja: quando percebe que Bento está apaixonado por Custódia, Eusébio Macário expõe toda a sua falsa moralidade: faz de tudo para agradar o recém-chegado, enfadando-o com lisonjeios e conversas de inteligência enciclopédica, cortejando-o e fazendo-se amigo do comendador em todos os momentos, o que denuncia a hipocrisia que perpassa na atitude de todos os personagens da família Macário, principalmente o próprio Eusébio. Essa mesma caracterização familiar, tendo Eusébio Macário como figura representativa não apenas de si mesmo, mas de toda uma linhagem, inspirou o título d’A corja, publicado no ano seguinte ao primeiro dessa pequena série.


Bento é nomeado barão e logo se casa com Custódia, que passa a ser também baronesa, e toda a família se muda para o Porto. Após alcançar tal feito e enriquecer-se às custas de um matrimônio determinado por interesses, Eusébio, dando-se conta do rico empreendimento que cumprira ao casar a filha com o barão, tenciona ir mais longe, casando também o filho, José Fístula, com Felícia, amante de Padre Justino e irmã do já nomeado Barão do Rabaçal. Após uma leve hesitação, Felícia aceita a proposta de casamento e torna-se esposa de Fístula, tudo conforme planeado por Eusébio Macário.


Curiosamente – e diante dos paradigmas realistas e naturalistas de que Camilo Castelo Branco lança mão para, depois, satirizar –, a figura de Eusébio Macário é uma das que menos têm descrição no decorrer do romance. Tendo-se em atenção o foco na história matrimonial dos filhos, Custódia e Fístula, isso pode conduzir ao equívoco de se pensar que Macário seja uma figura secundária dentro da narrativa; com efeito e como é bem sabido, a descrição no Realismo busca estabelecer a importância da personagem dentro da diegese, seja pela perspectiva dos processos de confluência narrativa, seja pelas estratégias semânticas da figuração ou, ainda, pela função social ou estética de que se incubem determinados personagens. Contudo, se assim o fosse, isto é, se Eusébio Macário ocupasse um plano secundário na narrativa, a obra não teria como título o nome do próprio personagem, cujo fato, com a importância que lhe é devida, prenuncia já os significados presentes também no subtítulo do primeiro romance: “História natural e social de uma família no tempo dos Cabrais”. Esse subtítulo, de natureza não menos especificativa que irônica, além de fazer uma alusão ao positivismo presente na literatura naturalista e experimentalista, demonstra como a figura do próprio personagem contribui para todo o desenvolvimento dessas narrativas: Eusébio é a própria representação patriarcal da linhagem dos Macário e, assim, alegoriza também a postura de quem, à época, se batia por ascensão social e por dinheiro. É justamente o personagem quem ficará responsável por tecer relações sociais, de modo a garantir a ascensão financeira e o status da família; daí ter o seu nome figurado no título de um romance que não necessariamente coloca no centro da narrativa a vida singular, individual e subjetiva dessa figura ficcional, mas, através dele, aborda o perfil ético e social de toda a família Macário, centralizando no personagem – e em sua função de patriarca – a história de uma família inteira.


Se o objetivo do naturalismo é observar o comportamento humano para depois incutir-lhe uma certa moralidade, punindo as personagens que se corrompem por dinheiro ou por qualquer outro interesse, o mesmo não ocorre em Eusébio Macário, pelo que, como referido, muitos críticos afirmam que o referido romance, bem como A corja, mais não faz que satirizar essa estética a partir de um desfecho no qual os personagens, corrompidos e corruptores, como é o caso do próprio Macário, saiam impunes em relação às imoralidades, negligências e hipocrisias que sustentaram no decorrer das ações narrativas – tal como ocorre com o próprio personagem em questão.


Assim, a personagem Eusébio Macário tem uma participação estrutural em ambas as narrativas de Camilo Castelo Branco, pois a sua existência e as suas atitudes, como um fio condutor quase invisível, e ao contrário de todos os outros personagens, convergem – e contribuem singularmente – para o desfecho de Eusébio Macário: o rico engajamento matrimonial dos filhos numa abastada família do Porto. Assim, os dois romances, além de dirigirem uma crítica aos leitores moralistas da época, denunciando o próprio simulacro e fingimento nos quais uma sociedade está assentada, surgem também como o retrato de um ethos social típico do momento histórico em que foram produzidos e de acordo com o qual um matrimônio enriquecedor coloca-se como a única garantia de um futuro digno. Tal visão de mundo, por fim, não deixa de fazer jus à “História natural e social de uma família no tempo dos Cabrais”, cujo subtítulo, marcado por uma profunda ironia, dá a ver a inquestionável importância que a figura de Eusébio Macário ocupa num romance que lança-se à compreensão e à crítica dos processos de organização da estrutura familiar no final do século XIX, de cujo paradigma social e histórico o próprio personagem é, ao mesmo tempo, produto e ícone.

 

Referências:

Castelo Branco, Camilo (2015). A corja. Lisboa: Alêtheia Editores.

Castelo Branco, Camilo (1991). Eusébio Macário. Lisboa: Editora Ulisseia.

Paulo Geovane e Silva