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G > GARRETT, Almeida

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João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett - (1799-1854)

Nascido no Porto, e pertencente a uma família açoriana com conforto financeiro, o autor terá ido buscar o último apelido a uma das suas avós, rendendo-se ao encanto do «estrangeirismo aristocrático» (Coelho, 1973: 363) nele contido, segundo J. do Prado Coelho. As invasões francesas levam a família a refugiar-se na ilha Terceira, o que ditou, na altura, a sua educação de pendor classicizante e moral, sob o escrutínio de dois tios, o Dr. João Carlos Leitão e D. Frei Alexandre da Sagrada Família.


          Em 1816, ruma a Coimbra para fazer o curso de Direito e fica imbuído pelo ideário liberal que por lá circulava. O seu primeiro texto impresso parece ter sido um hino patriótico. No ano seguinte, deu à estampa o poema Retrato de Vénus.
          Crê-se que terá escrito boa parte da Lírica de João Mínimo neste período estudantil. Por volta de 1821, conhece uma jovem – Luísa Midosi – com quem virá a casar-se, a breve trecho. Desfeitas as ilusões da revolução de 1820 e a mudança temporária por ela instaurada, a atmosfera política vivida em Portugal torna-se difícil, o que o incita a exilar-se, tal como Alexandre Herculano fizera. Parte, então, para Inglaterra e é graças ao facto de, num curto período, contactar com dois países prenhes de novidades culturais e literárias (torna-se colaborador da Casa Lafitte em França e muda-se para Le Havre) que começa a dar voz ao seu talento literário, de inspiração nacional e já liberto de resquícios árcades. Os poemas Camões (1825) e Dona Branca (1826) são assim o marco introdutório simbólico do Romantismo em Portugal, tornando-se Garrett o seu inquestionável arauto.


          Regressa ao país em 1826, vivendo do jornalismo durante dois anos, interregno depois do qual volta a exilar-se nos países onde antes se refugiara, uma vez que D. Miguel chamara a si de novo o poder. A opção por tomar parte no exército liberal, o desembarque no Mindelo em 1832 e o apoio dado a Mouzinho da Silveira fazem de Garrett uma espécie de herói ao gosto romântico, em que pena e espada se desembainham quando é preciso. Aliás, em nenhum momento da sua vida a ação cívica estará separada da intervenção literária e cultural. O cerco do Porto inspira-o a escrever uma parte de O Arco de Sant’Ana, protagonizado por Vasco, revisto e terminado mais tarde, já entre meados da década de 40 e inícios da de 50.


          Entretanto, Garrett aproveita as missões que lhe atribuem em Bruxelas, para estudar a língua e a literatura alemãs e para desfrutar da vida social que o cargo lhe proporcionava. O regresso a Portugal dita o fim do seu casamento com Luísa Midosi, mas pouco tempo fica só. Conhece Adelaide Deville de quem virá a ter uma filha, embora a viuvez chegue logo em 1841.


          Reconhecido a Almeida Garrett pelo impacto dos seus artigos no desencadear da Revolução de Setembro, Passos Manuel chama-o a intervir ativamente na vida política, empossando-o como deputado e atribuindo-lhe a missão de gizar um plano de fundação de um teatro nacional. Acrescia a isso a criação de uma Inspeção-Geral dos Teatros e de um Conservatório Nacional. Mas a tarefa mais árdua era talvez a que citamos em último lugar: a de promover o gosto estético do público e de congeminar um repertório teatral digno desse nome. Contudo, Almeida Garrett não deixa por mãos alheias este pedido. São da sua autoria Um Auto de Gil Vicente, D. Filipa de Vilhena, O Alfageme de Santarém e Frei Luís de Sousa.


          Para além do já citado Arco de Sant’Ana, o insigne romântico publica Viagens na Minha Terra (1845-1846), verdadeira obra-prima, publicada na Revista Universal Lisbonense. Ambos os romances são fachos de modernidade que Ofélia Paiva Monteiro caracteriza lapidarmente: “Considerada no contexto da narrativa portuguesa mais ou menos contemporânea, a novelística de Garrett isola-se singularmente. Quando predominava o romance histórico que se pretendia impregnado da cor do tempo e dando azo a movimentadas intrigas, longas descrições pitorescas e cenas patéticas (lembremos Herculano e Rebelo da Silva), Garrett utilizava liberrimamente o modelo no Arco de Sant’Ana para uma charge a circunstâncias modernas da vida portuguesa que reprovava; e, nas Viagens – a mais rica das duas obras –, adotava já um assunto nitidamente contemporâneo, traduzindo-se na forma como postulava os problemas, a sua capacidade para argutamente julgar a sociedade nova que ele próprio ajudara a construir." (Monteiro, 1976: 29)
          Se às obras concluídas e publicadas em vida se reconhecem qualidades estéticas ímpares, surpreendentes são também algumas das personagens que ficaram esboçadas ou até bem desenhadas no espólio do autor. É o caso de João Coradinho, como aqui se verá.

 

Referências:


          COELHO, Jacinto do Prado, “Garrett, João Baptista da Silva Leitão de Almeida”, in J. do Pado Coelho (dir.), Dicionário de Literatura. Literatura Portuguesa. Literatura Brasileira. Literatura Galega. Estilística Literária. 3ª ed. Porto: Figueirinhas, 1997, 1.º vol., pp. 363-367.


          MONTEIRO, Ofélia Paiva, “Algumas reflexões sobre a novelística de Garrett”, Colóquio/Letras, n.º 30, março de 1976, 12-29.