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GERTRUDES

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Autor: Cruz Caldas

GERTRUDES (João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett, O Arco de Sant'Ana)

 

            Personagem de O Arco de Sant’Ana, de Almeida Garrett (publicado em 1845/1851), Gertrudes é uma figura romântica sui generis. Ao contrário dos habituais estereótipos femininos, marcados pela fragilidade e contenção, representa-se num recorte pitoresco de lutadora viril e desempenha uma função importante na intriga, instigando uma revolta popular. Com apenas 16 anos, é dotada de caráter forte e manifesta opiniões avançadas em matéria de política e direitos cívicos, de inspiração liberal, embora a ação decorra em contexto histórico medieval.

            A história passa-se no século XIV, na cidade do Porto, então dominada por um bispo muito poderoso que explora e oprime a população. A “Gertrudinhas do Arco”, filha de um caldeireiro, é a figura-sombra da revolução: empenhada em defender uma amiga dos maus instintos do bispo, conspira ativamente ao lado dos populares insurretos e encoraja o namorado, o estudante Vasco (V), a capitanear o movimento de libertação da cidade. Depois de várias peripécias aventurosas que culminam na prisão, acaba aclamada pela multidão.

            O processo de composição da personagem é de tipo performativo, técnica dramatúrgica que o autor-narrador associa ao daguerreótipo. Gertrudes apresenta-se essencialmente “por seus ditos e gestos”, sendo portanto uma personagem plana, com pouco ou nulo desenvolvimento psicológico. A entrada em “cena”, logo no limiar da ação romanesca, faz-se de forma dialogal, numa conversa clandestina entre vizinhas que deixa perceber o seu temperamento rebelde – “que nem uma exaltada malhada ou setembrista dos nossos dias”, nas palavras do narrador (p. 78); Vasco compara-a a uma Judite (“o diacho é a moça” – p. 82), e dispõe-se de bom grado a obedecer às suas decisões. Só no capítulo XXIII, intitulado com o seu nome, se esboça um retrato de Gertrudes por caracterização direta: nasceu burguesa mas podia ser fidalga, “era alva e fina, negra de olhos e negra de cabelos”, (p. 223); é apaixonada mas decidida e raramente se entrega à melancolia. A sua ação destemida é no final reconhecida pelo rei (D. Pedro I) que apadrinha o casamento dos dois jovens heróis.

 

Referência:

GARRETT, Almeida, O Arco de Sant’Ana. Crónica Portuense. Edição crítica de M. Helena Santana. Lisboa, IN-CM, 2004.

Maria Helena Santana