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Homem/Criança

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Autor: Capa da edição Sá da Costa

Homem/Criança (Carlos de Oliveira, Finisterra. Paisagem e povoamento)

Espécie de “figura dupla”, a personagem aqui chamada “homem/criança” assume a centralidade de Finisterra (1978), romance em que “a fidelidade neo-realista” de Carlos de Oliveira “começara a abrir as fissuras confirmadas pela subseqüente obra poética e também pela reescrita dos textos ficcionais” (Reis, 2004: 17). Considerada o ponto culminante da trajetória do escritor e “um dos paradigmas da nossa pós-moderna metaficção” (Silvestre, 1994: 52), essa obra põe em causa pressupostos como realismo, objetividade e representação, elegendo como centro de interesse narrativo a própria (im)possibilidade de representar o mundo. Não surpreende que uma tal atitude relativizadora incida sobre todas as categorias estruturantes da narrativa e, acentuadamente, sobre a figuração das personagens, cujos comportamentos, relações e identidades inscrevem-se sob o signo da indeterminação.

O homem/a criança constrói-se, naturalmente, sob esse signo, que atinge diferentes níveis da sua figuração, a começar pela sua identificação nominal. Designo por “homem/criança” essa personagem porque, como todas as outras (p. ex.: Mulher e Peregrinos), ela não recebe um nome próprio. E chamo-a “figura dupla” porque sua existência ficcional é condicionada aos efeitos da memória, isto é, a uma distensão entre o presente da enunciação narrativa, em que é já “o homem”, adulto que percorre uma casa familiar desabitada, e o passado da história que procura reconstruir a partir das suas lembranças de criança. Passa, portanto, pelo filtro da sua percepção (atual e passada) a maior parte das ações que compõem a intriga – se de “intriga”, de “enredo” e de “história” posso aqui tratar sem ressalvas. No entanto, esse filtro é dotado de potencial transfigurador, já que a distância temporal, a febre, o sono e uma fértil imaginação infantil incidem diretamente sobre a matéria rememorada e contada, de modo que a história de Finisterra não se nos apresenta diretamente, antes é sempre mediada pela dupla percepção dessa personagem.

Conquanto em termos de identidade e perspectiva homem e criança sejam, em última análise, indestrinçáveis, em termos de comportamento é possível em algum grau distingui-las de acordo com seu “tempo de atuação”. No presente, é o homem quem narra a maior extensão da história, quem anda “altas horas através da casa, às escuras e sem tropeções” (Oliveira, 2003: 65) e quem a mede numa tentativa obsessiva de dar a exata noção dessa paisagem interna. É o homem ainda quem “folheia o caderno escolar poisado na mesa de vinhático” (11) e analisa o desenho da paisagem que traçara em criança; quem constrói uma maquete que duplica o percurso “entre o jardim e o socalco da duna” e quem vê “a golfada gelatinosa” (139) da gisandra (planta carnívora que, em princípio, só germina em solos de ficção) a dissolver os últimos vestígios da propriedade familiar arruinada. Já no tempo rememorado, é a criança a fonte da informação narrativa que acorre à consciência e à escrita do narrador; é ela quem desenha de cór a paisagem vista da janela, que mais tarde ganhará vida sob a lupa do homem; é ela quem capta, a seu modo, os fragmentos de conversas entre a família e os visitantes, quem compõe as imagens não raro fragmentadas, enigmáticas e caricaturais das demais personagens e quem carrega, desde o berço, a sina de ser o único e último descendente da linhagem de proprietários de mais essa casa na duna.

Entretanto, tal distinção subjetivo-temporal não impede que, a certa altura, homem e menino convivam no mesmo plano espaciotemporal, como se fossem duas criaturas distintas, como neste fragmento: “Se adivinhasse o futuro... Sabes o futuro até certa altura. Não faças batota abusivamente. Identificas-me contigo e falas de batota abusivamente. Confundes duas ordens de sonhos, esqueces metamorfoses irremediáveis, unificas o tempo, não consultas ninguém” (32). A propósito, a capacidade de transpor níveis ontológicos é uma marca dessa figuração. Homem e criança não apenas se reúnem num mesmo espaço-tempo como, por um corte metaléptico, também são capazes, por exemplo, de interagir com as figuras do desenho infantil numa conversa que ostenta o sem-limites das ficções em que, em última análise, estão todos inseridos: “Passo-lha [a lupa] para a mão e debruçamo-nos sobre o caderno. (...) Falem os camponeses. Estamos de passagem. Vamos à lagoa matar a sede. Vês? (...) Aqui, encenação e real coincidem” (22).

Formalmente, a fusão entre homem e criança é assinalada pela recorrente alternância entre primeira e terceira pessoas do discurso, estratégia que promove o efeito de isomorfização entre a palavra e o processo rememorativo, assim como uma contaminação entre as perspectivas do homem e do menino, como neste fragmento: “Reabro os olhos. O amigo da família inicia a sua proposta. Serões com a lenha a rarear de inverno para inverno. E a reminiscência desta voz: duas falas simultâneas que não chegam a sobrepor-se (a unificar-se) por completo. (...) Como analisá-las? Se de facto existem; se não forem uma obsessão da criança” (82; grifos meus).

É essa personagem ainda quem comunica a maior parte da informação semântica e ideológica de Finisterra. Isso porque, ao constituir a principal fonte da voz e da perspectiva narrativa, é principalmente através dela que se processa o questionamento da concepção do real “como dado positivo e pré-discursivo” (Martelo, 1996: 37). Com efeito, são suas tentativas sempre falhadas de registar, captar, reproduzir, imitar a paisagem concreta e a paisagem da memória, seja através da escrita, seja através do desenho e da maquete, que a obra se descobre, como a diversas outras tentativas de apreensão do real, uma versão possível do mundo. Na continuidade dessa descoberta, o marxismo, como vetor ideológico de toda a produção de Carlos de Oliveira poeta e ficcionista, revela-se menos como “referência” e como “conteúdo” da ficção, do que como “a instável forma de representar esse conteúdo ou referência, evidenciando como todo olhar pressupõe uma teoria, e uma política, do olhar” (Silvestre, 1996: 31). Em última análise, é, pois, em virtude do olhar dessa personagem (“olhar” tomado aqui menos no sentido óptico do que no sentido amplo de “perspectiva”) que Finisterra se erige como linha de chegada dum percurso ficcional em diversos níveis autocrítico e revisionista.

 

 

Referências

MARTELO, Rosa Maria (1996). A construção do mundo na poesia de Carlos de Oliveira. Dissertação de Doutorado em Literatura Portuguesa. Porto: Universidade do Porto.

OLIVEIRA, Carlos de ([1978] 2003). Finisterra. Paisagem e Povoamento. Lisboa: Assírio e Alvim.

REIS, Carlos (2004). "A literatura portuguesa da revolução ao fim do século". SCRIPTA. Belo Horizonte. 8(15): 15-45. Disponível em http://periodicos.pucminas.br/index.php/scripta/article/view/12566 (consultado em 7 de maio de 2021).

SILVESTRE, Osvaldo Manuel (1994). Slow motion: Carlos de Oliveira e a pós-modernidade. Braga: Angelus Novus.

_____ (1996). “Introdução”, in Carlos de Oliveira, Trabalho Poético (Antologia). Braga: Angelus Novus. 21-103.

Gisele Seeger