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Álvaro Silvestre

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Autor: João Guedes como Álvaro Silvestre; adaptação de F. Lopes.

Álvaro Silvestre (Carlos Alberto Serra de Oliveira, UMA ABELHA NA CHUVA)

Personagem do romance Uma abelha na chuva (1953), Álvaro Silvestre é casado com Maria dos Prazeres Pessoa de Alva Sancho Silvestre, com ela partilhando o protagonismo neste romance neorrealista.

Álvaro Silvestre nasce no seio de uma família de comerciantes e proprietários agrícolas, na terra pobre da Gândara, entre a Ria de Aveiro e o Baixo Mondego, onde um povo de jornaleiros arduamente arranca a sua precária subsistência a um solo pouco generoso. Talvez por isso tenha sido tão permeável ao pavor da miséria que o pai lhe incutiu desde criança e que, acompanhando-o ao longo da vida, está na origem da ganância dos seus atos, nos quais se traduz a lição paterna: “o homem é o lobo do homem e, portanto, entre devorar e ser devorado, o melhor é ir aguçando os dentes à cautela” (Oliveira, 1980: 110-111). Esta ganância coabita, contudo, na pessoa de Álvaro Silvestre, com uma fraqueza de caráter que o lança em desesperados confrontos com o remorso, depois dos atos cometidos. É então vencido pelo medo da punição divina, o que faz dele, nas palavras de Maria dos Prazeres, sua mulher, “o homem cobarde que nem coragem tem para ser ganancioso. Faz tudo para saciar a cobiça, o justo e o injusto, mas depois cobre-lhe a alma a lepra do remorso e corre à igreja, ao confessionário, às penitências. Rói-o o pecado como rói o musgo a concha da lapa” (25). Ao ritmo destas cíclicas alterações de comportamento, o homem sem escrúpulos nos negócios, implacável com os fracos e até mesmo cruel, é rapidamente substituído por um ser acuado pelo medo e o remorso, frágil, doentio e paralisado pelas emoções que não controla. Como reação ao desconforto que assim o domina, procura no álcool o alheamento que a sua natureza indolente mais deseja. Esta indolência é, de resto, a marca que mais sobressai na primeira imagem de Álvaro Silvestre, facultada por um narrador que, ao proceder à figuração da personagem no início da ação, insiste na “lentidão natural”, no “passo oscilante e pesado”, nas “feições paradas, sonolentas” e nos “olhos pouco ágeis” (2, 3, 8).

Tudo o que define psicologicamente Álvaro Silvestre – indolência, fraqueza, insegurança e cobardia – contrasta de forma gritante com o perfil de Maria dos Prazeres, explicando até certo ponto a relação conflituosa e, por vezes, abertamente agressiva de um casamento negociado pelos pais de ambos: Maria leva com ela a fidalguia de sangue da sua família arruinada, Álvaro garante o desafogo económico com o dinheiro dos Silvestres. Mas esta união revela-se o lugar de uma irremediável solidão, já que Maria dos Prazeres leva igualmente consigo o orgulho de casta que lhe torna repugnante o homem fraco e boçal que não escolheu para marido. Emocionalmente dependente da mulher e da sua força, a ela se sujeita Álvaro Silvestre nos momentos mais agudos das suas crises, aumentando com isso o desprezo de que é alvo, sem nunca conseguir derrubar o muro de frieza que se interpõe entre os dois.

É justamente uma dessas crises que constitui o ponto de partida da ação que, ocupando o espaço temporal de quatro dias, põe em confronto os dois membros do casal, acentuando nesse confronto a esterilidade de um casamento condenado ao fracasso. Os ressentimentos e humilhações, a rejeição e o desprezo aparecem então como o único resultado de uma união sem amor, sem filhos e, por isso, sem futuro. Entendida no contexto ideológico do neorrealismo, a personagem Álvaro Silvestre, bem como Maria dos Prazeres, adquirem um significado que denuncia a natureza artificial da sua união: provenientes de classes sociais distintas, a dinâmica da História exclui qualquer aliança entre os dois.

Em 1971, Fernando Lopes adaptou ao cinema o romance de Carlos de Oliveira. Coube ao ator João Guedes o desempenho da personagem Álvaro Silvestre.

 

Referência:

OLIVEIRA, Carlos de (1980). Uma abelha na chuva. Lisboa: Livraria Sá da Costa.

Maria do Rosário Cunha