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MARIA DOS PRAZERES

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Autor: Laura Soveral, em Uma abelha na chuva, real. de Fernando Lopes

MARIA DOS PRAZERES (Carlos Alberto Serra de Oliveira, Uma abelha na chuva)

Maria dos Prazeres Pessoa de Alva Sancho Silvestre forma com o marido, Álvaro Silvestre, o casal que ocupa o centro da ação deste romance neorrealista, publicado por Carlos de Oliveira em 1953. Dela pode dizer-se que, em irónico contraste com o nome de batismo, protagoniza uma história de desamor, solidão e ressentimento.

Oriunda de uma família fidalga em acentuado declínio económico, Maria dos Prazeres é levada a casar-se com um filho de comerciantes e proprietários rurais, consumando assim uma aliança negociada pelos pais de ambos. Para o casamento leva Maria dos Prazeres a fidalguia do sangue e da educação, mas também “a amarga obediência aos pais e o desejo de os ajudar, a curiosidade e o medo, o medo e um pouco de esperança” (Oliveira, 1980: 23). Ficando por esclarecer o objeto concreto dessa esperança, a personagem que o romance nos faz conhecer não deixa dúvidas de que a “amarga obediência”, com que sobe ao altar, se prolonga na eterna amargura que colhe no convívio com o marido – culturalmente distante, psicologicamente doentio e fraco de caráter. Em tudo oposta a estes traços, Maria dos Prazeres é forte, determinada e firme até à dureza. Profundamente orgulhosa, encontra no seu orgulho natural e de casta o meio de controlar as suas emoções e dominar as situações em que intervém. No jogo de hostilidade e conflito a que se reduz a sua vida de casada, cabe-lhe a ela a vitória e ao marido a submissão.

Os procedimentos de figuração da personagem tomam como ponto de partida a descrição de um narrador que, numa eficaz seleção de certos traços físicos e comportamentais, lhe desvenda as marcas psicológicas mais relevantes. Assim, quando a personagem surge pela primeira vez aos olhos do leitor, o registo das suas atitudes desenha, com uma singular economia de meios, a imagem de uma mulher decidida, segura de si, habituada a mandar e a ser obedecida. Na interação com os outros é uma figura intimidante, para o que contribui o “franzir irónico da boca, a avidez do olhar, o tom escarninho da voz gelada” (16). Os olhos, porém, para além de ávidos, “quase ansiosos” (16), são também “grandes, vivos” (16), e a boca, para além da ironia, mostra uns “lábios túmidos” (16), referidos mais tarde, quase no final da ação, como local de “uma recôndita sensualidade” (169). Começando a ganhar forma através das observações do narrador que a descreve, descrevendo também o olhar que outras personagens sobre ela projetam – “uma mulher de mão cheia, sim senhor, mas dura de roer”(16) –, a figura de Maria dos Prazeres conta ainda, no processo da sua composição, com o acesso, que ao leitor é facultado, à sua vida interior. É neste espaço de pensamento e memória que as imagens que guarda da casa paterna lhe avivam a boçalidade da família encontrada na troca de “sangue por dinheiro” (21); é aí que avalia friamente o marido, o “gebo” (23), o “homem viscoso” (25), o “homem cobarde que nem coragem tem de ser ganancioso” (25); e é aí, por fim, que liberta a sua sensualidade, reprimida por um casamento sem amor nem desejo, em devaneios cujos protagonistas (o cunhado e o cocheiro) a fazem reconhecer perante si mesma: “Por onde a solidão a fazia resvalar. E o quarto tão frio. Talvez os ventos, os granizos do norte, as grandes chuvas. […] Mas sobretudo a velha casa de Alva, quando a miséria não chegara ainda e, atrás dela, os Silvestres. Agora é o marido labrego e doentio, as bebedeiras, o desencanto, isto” (83).

A ação do romance decorre na Gândara, território situado entre a ria de Aveiro e os campos do Baixo Mondego. É nessa região pobre, onde predomina uma rudimentar economia rural, que nos é dado entrar no mundo restrito dos Silvestres e, ao longo de quatro dias, assistir à crise que aí se instala. Motivada pela instabilidade psicológica de Álvaro Silvestre, esta crise ultrapassa a intimidade do casal, então marcada por momentos de aberto confronto, e repercute-se tragicamente na morte de dois elementos do povo. Completa-se assim o xadrez, segundo a leitura marxista do mundo de que o neorrealismo não prescindiu: as peças são as diferentes classes sociais em jogo, e a mão que as move é o poder do dinheiro. Se Maria dos Prazeres acoberta as fragilidades temperamentais de Álvaro Silvestre e lhe serve de abrigo face às consequências que delas resultam, é porque o seu próprio interesse – na garantia dos privilégios económicos que com ele partilha – a isso a conduz. Trata-se, contudo, de uma aliança frágil, temporária. Na verdade, cada um deles é parte de uma relação sinedóquica com a classe social a que, respetivamente, pertencem. E as classes sociais, no quadro ideológico do neorrealismo, lutam entre si, fazendo dessa luta o motor do movimento da História. Por isso, apenas o interesse imediato pode suportar uma aliança que se anuncia sem futuro e estéril – tal como o casamento de ambos.

Em 1971, Fernando Lopes adaptou ao cinema o romance de Carlos de Oliveira, cabendo a Laura Soveral o desempenho da personagem a que as palavras do escritor primeiro deram vida. A beleza discreta da atriz e a sua natural altivez marcaram a imagem de Maria dos Prazeres que permaneceu na memória de muitos leitores.

 

Referência bibliográfica

OLIVEIRA, Carlos de (1980). Uma abelha na chuva. 19ª ed. Lisboa: Liv. Sá da Costa [1953].

Maria do Rosário Cunha