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BALTASAR SETE-SÓIS

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Autor: José Santa-Bárbara

BALTASAR SETE-SÓIS (José de Sousa Saramago, Memorial do Convento)

Baltasar Mateus, ou Sete-Sóis, como também lhe chamam, é uma personagem de Memorial do Convento (1982), de José Saramago, conhecido como o maneta, já que regressa da Guerra da Sucessão Espanhola sem o braço esquerdo, que substitui por um gancho e/ou por um espigão. Pagos com a esmola que em Évora pede, os apetrechos revelam-se de máxima serventia para o trabalho que, já em Lisboa, arranja em um açougue. É na capital que conhece o padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão e a futura companheira, Blimunda Sete-Luas, no auto-de-fé em que a mãe desta, Sebastiana Maria de Jesus, é condenada por feitiçaria e degredada para Angola.

Desafiado pelo padre para, na quinta do duque de Aveiro, em S. Sebastião da Pedreira, o ajudar a construir a sua passarola, sonho em que também participa Blimunda, Baltasar, tido como “o braço direito do Voador” (Saramago, 1982: 87), revela-se de fundamental importância não apenas para a consecução do projeto, porque “há coisas que um gancho faz melhor do que a mão completa, um gancho não sente dores se tiver de segurar um arame ou um ferro, nem se corta, nem se queima” (Saramago, 1982: 68). Além disso, a personagem, que com Blimunda gradualmente destrona o rei e a rainha do primeiro plano da narrativa, cumpre a função de representar o coletivo daqueles que, não tendo feito nenhum filho à rainha, são os “que se lixam” (Saramago, 1982: 257), pagando a promessa de D. João V de, em Mafra, construir um convento.

Ainda que outras vidas sejam dignas da atenção do narrador – a de Francisco Marques ou Manuel Milho, entre outros –, é essencialmente a partir do percurso desta personagem, e de Sete-Luas (assim alcunhada porque, ao contrário de Baltasar, apenas capaz de ver às claras, ela vê às escuras), que conhecemos as privações, a fome e os tormentos vividos pelo povo. Ambos constituem, pois, o “Par indissolúvel”, cujos passos o narrador se preocupa em seguir, e pelos quais regula positivamente a sua simpatia; ambos compõem “o núcleo de onde partirão expansões, como o espaço familiar ou o mundo dos trabalhadores do convento” (Marinho, 2009: 77). Ou, acrescentamos, como o espaço da Lisboa do reinado de D. João V.

Com Baltasar e com a visionária Blimunda conhecemos, então, os meandros labirínticos da cidade e dos seus arredores até que, havendo necessidade de interromper os trabalhos de construção da passarola, por ocasião da viagem de Bartolomeu Lourenço à Holanda, onde busca o segredo alquímico do éter, o casal ruma a Mafra, onde se construía a gigantesca fábrica religiosa. Aí regressam e permanecem após o primeiro voo da passarola, que aterra na serra do Barregudo; dali sai o homem para desaparecer numa das inspeções ao engenho voador; dali sai a mulher para o procurar; dali sai o narrador para, acompanhando uma personagem, encontrar a outra a arder em fogueira ateada pela Inquisição no Rossio da capital. A outra personagem é Baltasar, já não o mesmo das páginas iniciais do romance, visto que, ética, religiosa e ideologicamente, e também sentimentalmente, a sua consciência adquiriu novos e mais vastos horizontes em relação à pequenez e mesquinhez do mundo em que é posto a viver. Talvez por isso, quando todos se admiram “com o tamanho desmedido da pedra” trazida de Pêro Pinheiro, Baltasar murmure, “olhando a basílica, Tão pequena” (Saramago, 1982: 264).

À semelhança do que sucede com outras, a personagem é composta, portanto, através do recurso a dispositivos “de conformação acional ou comportamental” que, no âmbito do breve excerto citado, “indiciam ou explicitam, de forma dinâmica, a feição psicológica, ideológica ou moral de uma personagem” (Reis, 2015: 133). A evolução de Baltasar ao longo do seu trânsito narrativo justifica, pois, o capital simbólico de que se reveste o episódio final, em que Blimunda recolhe “a nuvem fechada”, maneira diversa de dizer a vontade, que do interior do corpo se desprende; maneira diversa, ainda, de dizer a possibilidade de, no futuro, se poder vir a construir um mundo de crenças e valores diferentes daqueles que norteiam a sociedade setecentista.

Acresce, ainda, o uso de dispositivos “retórico-discursivos”, identificáveis com processos de caracterização direta ou indireta (Reis, 2015: 128) (escassos no romance, os primeiros). Mas, sobremaneira importantes para a figuração gradual e profunda da personagem são os dispositivos “de ficcionalização (ou paraficcionais)”, em que “a sua condição de entidade ficcional” (Reis, 2015: 126), apesar das suas inevitáveis potencialidades miméticas, é intensificada quer pelo teor feérico da linha narrativa respeitante à construção da passarola, quer pela inscrição de uma dimensão intertextual interartística. Facultada através Scarlatti, que compara Vénus com Blimunda e Baltasar com Vulcano (direcionando a nossa imagem mental para, por exemplo, a tela “Parnassus” do pintor Andrea Mantegno), esta permite inferir a beleza da primeira e a eventual feiura do segundo (Saramago, 1982: 168), cuja sobrevida transtextual e transmediática (Reis, 2015: 15-16) pode ser aferida em várias telas do pintor José Santa-Bárbara (2013).

 

Referências:

MARINHO, Maria de Fátima (2009). A lição de Blimunda. Porto: Areal.

REIS, Carlos (2015). Pessoas de livro. Estudos sobre a personagem. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra.

SANTA BÁRBARA, José (2013). Vontades. Uma leitura de Memorial do Convento. Lisboa: Caminho.

SARAMAGO, José (1982). Memorial do Convento. Lisboa: Caminho.

Ana Paula Arnaut