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Fernando Pessoa - (1888-1935)

Nascido em Lisboa e oriundo de uma “burguesia acomodada mas sem meios de fortuna” (Lourenço, 2009: 16), Fernando António Nogueira Pessoa parte, aos sete anos, no decurso do segundo casamento de sua mãe, para a África do Sul. A frequência de escolas em que o inglês era a língua de ensino pode ter sido inicialmente uma dificuldade, mas permitiu-lhe, a breve trecho, ombrear com os melhores alunos das turmas em que foi inserido. Mais: numa altura em que o principal idioma de cultura era o francês, esta aprendizagem da língua de Milton viria a revelar-se de inestimável valor, quer no que diz respeito ao conhecimento das literaturas de expressão inglesa, quer no respeitante às vantagens profissionais que a proficiência do idioma lhe traria futuramente. Importa ainda lembrar que será essa a sua primeira língua literária, aquela a que nunca deixou de recorrer até aos últimos dias de vida.

Em 1905, Fernando Pessoa viaja para Lisboa, trazendo na bagagem o intuito de fazer o Curso Superior de Letras e a decisão de se fixar definitivamente em Portugal. Conhecendo-se as condições precárias de funcionamento do Curso e a arbitrariedade que ditava a escolha do corpo docente, compreende-se o desencanto e a decisão de não o concluir.

Os artigos publicados n’A Águia no ano de 1912 serão fundamentais para destrinçar aquilo que o crítico literário Fernando Pessoa considerava ser a missão da nova poesia portuguesa, podendo ler-se, nas entrelinhas, que ela não seria no futuro tão consentânea com aquilo que a geração de Pascoaes promovia. Aos bons poetas e à fase propícia que se atravessava urgia responder com sentido de oportunidade e arrojo – o da aclamação de um “Supra-Camões”.

À atividade de correspondente (um pouco monótona) que exercia, como meio de sobrevivência, em várias casas comerciais na capital, contrapunha-se a camaradagem nas tertúlias acolhidas pelos cafés da Baixa. Disso mesmo Pessoa dá-nos conta nas páginas de um diário incompleto, datado de 1913: “Segui Brasileira Chiado; falando com J[oão] C[orreia] de O[liveira], inter alia, sobre Pascoaes; ele cortando miudinho. Um pequeno passeio. Escritório Mayer; um pouco sem nada fazer exceto fumar e escrever uns versos do Galaäs. – Durante a tarde toda estive na redação do Teatro falando com Boavida e Ed[uardo] Freitas. Este provocou-me a que escrevesse o ataque ao Bartolomeu Marinheiro de Lopes-Vieira. Entre tentado e querendo fugir à maçada, sentei-me, e das 16 3/4 às 18 1/4 escrevi o artigo. Boavida apreciou-o muito. Para casa tarde. – De noite vim para a Brasileira. Estive conversando, com Corado e com Pinto, muito estudioso e lido, até às 23 aproximadamente.” (Obra Édita: 21/02/1913).

Nesse mesmo ano sai n’A Águia o trecho “Na floresta do alheamento” com a indicação de que faria parte do Livro do Desassossego. Em 1914 ganham corpo Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis.

Entre dois mundos, o da realidade insonsa e o da literatura de infinitas possibilidades, Pessoa congemina com Sá-Carneiro a criação de uma nova revista literária, que virá a chamar-se Orpheu. Os dois números saídos em março e junho de 1915 foram suficientes para provocar o tumulto e a indignação no velho Portugal de brandos costumes e de ideais estéticos caducos. Estava identificado o grupo dos primeiros modernistas, constituído por poetas e pintores, e diagnosticada a doença: a paranoia confundida com o inconformismo.

A morte precoce de Mário de Sá-Carneiro reforça a tendência pessoana para seguir um percurso individual, mas polifónico, em que abundam projetos, heterónimos a insuflar de vitalidade e leituras por fazer. Prova disso são as inúmeras notas e apontamentos deixados nos cadernos pessoais.

Dos muitos milhares de versos que Pessoa escreveu, dos poemas que publicou e dos inúmeros esboços, planos e inéditos que deixou, a maior parte deles aparecidos postumamente (cf. Lourenço, 2009: 263-268, e o Arquivo Pessoa), cumpre realçar, com relevância para este Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa, o inacabado Livro do Desassossego, que Zenith classifica nos seguintes termos: “O que temos aqui não é um livro mas a sua subversão e negação, o livro em potência, o livro em plena ruína, o livro-sonho, o livro-desespero, o anti-livro, além de qualquer literatura” (2001: 13).

Numa primeira fase, a obra é atribuída a Vicente Guedes, mas depois passa a ser da autoria de Bernardo Soares, guarda-livros, embora também tenha ocorrido a Pessoa incluir textos do Barão de Teive nesta “autobiografia sem factos”. Construção ambiciosa, descontínua e fragmentariamente trabalhada, sem uma ordenação fixada pelo autor, dela possuímos várias edições, tentativas apenas. Nesse puzzle difícil de reconstituir Bernardo Soares adquire o estatuto de personagem-autor: “Em Bernardo Soares – prosador que poetiza, sonhador que raciocina, místico que não crê, decadente que não goza – Pessoa inventou o melhor autor possível (e que era ele mesmo, apenas um pouco «mutilado») para dar unidade a um livro que, por natureza, nunca poderia tê-la” (Zenith, 2001: 28-29).

Traços romanescos percorrem esta prosa inimitável, onde, apesar de tudo, se encontram indicações espaciais precisas, figurantes (o Moreira, o barbeiro, o patrão...) e um tempo psicológico denso. Daniela Maduro sublinha que, “tal como é referido pelo próprio Bernardo Soares, ele é uma personagem por completar. Assim também o é o livro, pelo que este estado latente da personagem e do livro deixa vislumbrar uma ligação umbilical entre ambos” (Maduro, 2015: 496).

Apesar de comunicar em 1932 a Gaspar Simões que a obra estava na reta final, o último livro de Pessoa (Mensagem) foi publicado em 1934, um ano antes da morte do poeta. Só em 1982 apareceu a edição pioneira do Livro do desassossego, por Jacinto do Prado Coelho, Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral; seguiram-se-lhe outras, com destaque para a de Teresa Sobral Cunha (1990-91), a de Richard Zenith (1998) e a de Jerónimo Pizarro (2010), todas com reedições subsequentes. Enquanto caso-limite da prosa modernista portuguesa, o Livro do Desassossego continua a suscitar questões, novas hipóteses e fenómenos de tradução (Reis e Lourenço, 2015: 99-100), incluindo tratamentos com recurso a ferramentas digitais, como o recente Arquivo LdoD, coordenado por Manuel Portela (Centro de Literatura Portuguesa).

 

Referências:

Lourenço, António Apolinário (2009). Fernando Pessoa. Lisboa: Edições 70.

Maduro, Daniela Côrtes (2015). “«Ser a página de um livro» – Bernardo Soares como personagem e livro”, Revista de Estudos Literários, n.º 5, Coimbra: Centro de Literatura Portuguesa, p. 491-527.

Pessoa, Fernando (2001). Livro do Desassossego composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. Edição de Richard Zenith. 3ª ed. Lisboa: Assírio & Alvim.

Reis, Carlos e Lourenço, A. Apolinário (2015). História Crítica da Literatura Portuguesa – O Modernismo. Lisboa: Verbo, vol. VIII.

 

Personagem no Dicionário:

Banqueiro Anarquista (O banqueiro anarquista)

Bernardo Soares (Livro do Desassossego)

 

Marisa das Neves Henriques