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S > SÁ-CARNEIRO, Mário de

Mário de Sá-Carneiro - (1890 - 1916)

mariosacarneiro

 

Mário de Sá-Carneiro nasceu em Lisboa a 19 de maio de 1890 e morreu em Paris a 26 de abril de 1916. Provinha de uma família abastada e ligada a uma tradição militar, pelo lado paterno, enquanto o enquadramento social pelo lado materno não suplantava a pequena burguesia urbana. O desnível social dos dois ramos familiares, apesar de ainda aparentados através da avó paterna, Cacilda Victorina, ajuda a compreender que, após a morte da mãe, em 1892, o pequeno Mário não mantivesse qualquer relação com esse lado da família.

Apesar de uma escolarização relativamente tardia, o autor de Princípio (1912) revelou, desde muito cedo, interessantes aptidões literárias. A partir de 1904, encontramos Sá-Carneiro no Liceu do Carmo, onde redige um jornal humorístico, O Chinó, com considerações inoportunas sobre alguns professores. Entre setembro de 1908 e fevereiro de 1909, Mário de Sá-Carneiro publica, na revista semanal Azulejos, oito contos breves; em 1909, o seu grupo de amigos transita do Liceu de S. Domingos para o Liceu Camões, onde, em 1911, se suicida, com apenas dezanove anos de idade, Tomás Cabreira Júnior, que no ano anterior concluíra com o colega Mário de Sá-Carneiro a peça Amizade. Em 1912 ocorre o encontro de Mário de Sá-Carneiro com Fernando Pessoa.

Em outubro de 1912, Sá-Carneiro viaja para Paris. Entre essa data e a do seu suicídio, a sua vida decorreu alternadamente entre as capitais de França e Portugal (com uma breve passagem por Barcelona, entre finais de agosto e inícios de março de 1914). As cartas que, da capital francesa, envia a Fernando Pessoa, até agosto de 1914, são documentos preciosos para o estudo da génese do Modernismo português (faltam infelizmente as que Pessoa escreveu), enquanto as posteriores a julho de 1915 permitem sobretudo acompanhar a evolução do seu estado psíquico, fatalmente associada à míngua pecuniária, até ao fatal desenlace.

Construída num período temporal muito breve e obedecendo a princípios estéticos relativamente coerentes, a obra de Sá-Carneiro tem sido lida e interpretada em função de três vetores fundamentais: o suicídio mitificado, o desdobramento conflitivo e a incompletude obsessiva. A orfandade materna e a relativa ausência da figura paterna proporcionam outras hipóteses de leitura psicologista da obra de Mário de Sá-Carneiro. Principal compagnon de route de Fernando Pessoa ao longo do processo de constituição do Modernismo português (com quem dirigiu o número 2 de Orpheu), Sá-Carneiro seria também, após a sua morte, a principal referência do grupo órfico, até à erupção avassaladora do fenómeno pessoano, na segunda década do século passado. Em todo o caso, do encontro dos dois amigos resultou, sobretudo, uma nova linguagem estética, percetível tanto no domínio da poesia como no da narrativa. Pode, assim, dizer-se que ambos construíram conjuntamente a poética do Modernismo português, ainda que seja evidente que coube ao autor de Tabacaria a liderança desse processo.

Além dos títulos já mencionados, a obra de Mário de Sá-Carneiro (obra reduzida, por razões óbvias) inclui ainda A Confissão de Lúcio (novela, de 1914), Princípio e Céu em Fogo (recolhas de novelas, respetivamente de 1912 e 1915), e duas coletâneas poéticas, Dispersão (1914) e Indícios de Oiro (publicação póstuma, em 1937).

(Texto reduzido e adaptado de C. Reis e A. Apolinário Lourenço, História Crítica da Literatura Portuguesa. Volume VIII: O Modernismo. Lisboa: Verbo, 2015).

 

Personagem no Dicionário:

Lúcio Vaz (A confissão de Lúcio)