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Banqueiro Anarquista

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Autor: Capa da edição Relógio D`Água

Banqueiro Anarquista (Fernando Pessoa, O Banqueiro Anarquista)

O banqueiro anarquista é, à exceção do narrador, a única personagem do conto homónimo. Por clara opção de natureza narratológica, não se lhe conhece o nome próprio nem o aspeto físico, deixando-se à imaginação do leitor a escolha do perfil corpóreo que lhe pareça mais apropriado: “Defronte de mim o meu amigo, o banqueiro, grande comerciante e açambarcador notável, fumava como quem não pensa” (Pessoa, 1999: 13). O Banqueiro Anarquista foi publicado em 1922, no primeiro número da revista Contemporânea, dirigida pelo artista plástico José Pacheco, autor da capa do n.º 1 da revista Orfeu. Vários testemunhos do autor atestam o apreço que esta breve obra de ficção sempre mereceu a Fernando Pessoa, entre os quais o apertado filtro a que submeteu a sua obra editada até 1928, na “Tábua Bibliográfica” que redigiu para as páginas da Presença (n.º 17). Aí, O Banqueiro Anarquista era distinguido como um dos textos que publicara e que continuava a considerar de “interesse público” (Pessoa, 2000: 406).

A ação desenrola-se sob a forma de um diálogo bastante distinto do clássico modelo socrático, conduzindo a uma conclusão absurda, apesar da aparente racionalidade dos argumentos aventados. Em termos mais coloquiais, trata-se de uma conversa que tem lugar no final de um jantar e que termina quando os colocutores se levantam da mesa, sendo completamente dominada pelo banqueiro, em detrimento de um narrador que quase não narra, porque a argumentação do protagonista é transmitida sob a forma de discurso direto. Desta forma, mais do que um narrador efetivo, o interlocutor do banqueiro anarquista é fundamentalmente um enunciador textual, que descreve sumariamente certos gestos e comportamentos da personagem central, mas que raramente se atreve a apontar incoerências ao discurso do banqueiro, apesar das evidentes “tautologias e sofismas” (Baltrusch, 2011: 252) que nele vão aflorando.

Tudo começa com uma frase deste enunciador, que candidamente se dirige ao banqueiro, informando-o de que sabia que ele fora noutros tempos anarquista, recebendo uma resposta inesperada: “— Fui, não: fui e sou. Não mudei a esse respeito. Sou anarquista” (Pessoa, 1999: 13). Conta, então, brevemente a história da sua vida, desde os seus tempos de operário e de militância anarquista ativa, até ao momento em que, convencido da impossibilidade de derrubar, num horizonte temporal previsível — porque isso implicaria uma revolução mundial simultânea —, as “ficções sociais” como a família, o dinheiro, a religião e o estado, que faziam prevalecer no mundo a injustiça e a maldade, decidira libertar-se delas individualmente, “subjugando-as, reduzindo-as à inatividade” (54). No final deste enviesado conto de raciocínio, o enunciador concorda que o banqueiro é realmente anarquista e este aproveita para dar realce final à sua divergência com o anarquismo político e sindical corrente: “A diferença é só esta: eles são anarquistas só teóricos, eu sou teórico e prático; eles são anarquistas místicos, e eu científico; eles são anarquistas que se agacham, eu sou um anarquista que combate e liberta… Em uma palavra: eles são pseudoanarquistas, e eu sou anarquista” (64).

Em carta a José Pacheco, Fernando Pessoa classificou este seu texto de “sátira dialética”, (Pessoa, 1999: 411), o que indicia que o colocava na linha artística do indisciplinador que se revelara nas “Crónicas da vida que passa”, publicadas em 1915 n’O Jornal, e nas quais tecia o elogio da incoerência e da insinceridade. Num dos artigos da série, publicado em 8 de abril de 1915, Pessoa chega a afirmar que é necessário construir “uma anarquia portuguesa” (Pessoa, 2000: 110-111). No caso concreto de O Banqueiro Anarquista, o autor revela-se sempre mais preocupado com a congruência sintática do seu discurso do que com a coerência semântica do mesmo.

O “banqueiro anarquista” é, sem dúvida, uma personagem que escapa às classificações tradicionais, já que não dispõe de consistência psicológica, mas também não tem uma clara identidade sociológica e muito menos ideológica. É desde logo evidente a contradição entre o nome que figura no título e o adjetivo que o qualifica: se o banqueiro é o profissional que melhor representa e simboliza uma sociedade subordinada ao capital financeiro, o anarquista é, política e ideologicamente, o seu principal adversário, pois o seu principal objetivo político é a destruição do estado e da economia capitalistas. Tenha-se em conta que, no momento da escrita do conto, eram efetivamente os anarquistas que dominavam o sindicalismo operário português e a oposição radical à sociedade burguesa, enquanto o Partido Comunista só foi fundado em 1921, crescendo gradualmente nos anos seguintes a partir de cisões e deserções do campo político anarcossindicalista. A utilização do determinante artigo definido em detrimento do indefinido tem igualmente um significado concreto, já que, se um banqueiro ainda poderia admitir a existência de outros elementos da mesma espécie, a opção gramatical pelo artigo definido particulariza e individualiza de modo determinante a personagem. Não é, pois, um banqueiro, mas o banqueiro (aquele banqueiro especificamente), que protagoniza o conto pessoano. É por isso que, depois de demonstrar que, pelo menos transitoriamente, a concretização do projeto anarquista geraria novas tiranias (nomeadamente no plano pessoal, porque sempre haveria alguém capaz de se sobrepor aos demais), o “açambarcador notável” pode declarar triunfalmente: “Libertei um. Libertei-me a mim" (Pessoa, 1999: 60).

Em suma, o “banqueiro anarquista” é tipologicamente uma personagem abstrata e instrumental ao serviço de uma argumentação dialética. O seu estatuto diegético não difere substancialmente do dos interlocutores dos diálogos clássicos, renascentistas ou barrocos, que, apesar de por vezes ostentarem nomes de filósofos e escritores verdadeiros e ilustres, serviam sobretudo, naquele contexto, para ilustrar uma ideia que o autor empírico queria ver exposta, não para emitir uma opinião.

Não obstante Fernando Pessoa ter começado a reescrever, na fase final da sua vida, o seu conto, também com o objetivo de o publicar na Inglaterra, como confessa na famosa carta de 13 de janeiro de 1935 a Adolfo Casais Monteiro, é compreensível e editorialmente adequada a opção de Manuela Parreira da Silva, que, na sua edição da obra de 1999, utilizou como texto-base aquele que foi publicado na Contemporânea, e nunca enjeitado, colocando em “Apêndice” os “textos alternativos e complementares” encontrados no espólio, assim como a tradução de um fragmento para inglês.

Várias são as transposições intermediáticas da obra, dentre elas se destacam o episódio da série Lisboa Sociedade Anónima, realizado por Eduardo Geada para a RTP, em 1983, e a adaptação teatral cooproduzida pela JGM e pelo Teatro Maria Matos com encenação de João Garcia Miguel (2009). O Banqueiro Anarquista teve a sua versão para os mais jovens publicada em 2008, pelas mãos de Clara Pinto Correia com ilustração de Helena Simas e, no mesmo ano, foi adaptado em banda desenhada com criação de Ana Filomena Pacheco.

 

Referências

BALTRUSCH, Burghard (2011). “Anarquia e heteronímia em Fernando Pessoa — O Banqueiro Anarquista revisitado”. Revista de Estudos Literários. 1: 251-282, disponível em https://impactum-journals.uc.pt/rel/article/view/2183-847X_1_9 (consultado em 17/9/2020).

PESSOA, Fernando (1999). Correspondência 1905-1922. Edição de Manuela Parreira da Silva. Lisboa: Assírio & Alvim.

____ (1999). O Banqueiro Anarquista. Edição de Manuela Parreira da Silva. Lisboa: Assírio & Alvim.

____ (2000). Crítica. Ensaios, Artigos e Entrevistas. Edição de Fernando Cabral Martins. Lisboa: Assírio & Alvim.

António Apolinário Lourenço