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D > DINIS, Júlio

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Autor: Gomes Coelho

Júlio Dinis - (1839-1871)

Pseudónimo literário de Joaquim Guilherme Gomes Coelho. Estudou na Academia Politécnica do Porto e na Escola Médico-Cirúrgica daquela cidade. Nunca exerceu medicina mas foi durante algum tempo docente na instituição em que se formou, tendo disso desistido devido à doença que o vitimou, a tuberculose. Procurou curar-se em Ovar – localidade em cujo ambiente rural se inspirou para compor os romances As Pupilas do Senhor Reitor (1867) e A Morgadinha dos Canaviais (1868) – e no Funchal, tendo aí escrito Os Fidalgos da Casa Mourisca (1871), romance cuja revisão já não pôde concluir.

 
          Estreou-se na literatura com peças teatrais, reunidas em três volumes póstumos, Teatro Inédito (1946-1947), que escreveu para o grupo dramático «O Cenáculo», onde foi ator e onde conheceu Soares de Passos; é na revista de poesia A Grinalda que começa a assinar os seus poemas enquanto Júlio Dinis. Estes poemas seriam publicados postumamente, em 1874, no volume Poesias.


          Usou, em textos periodísticos, o pseudónimo Diana de Aveleda. Com este nome assinou os contos “Os novelos da tia Filomena” e “O espólio do senhor Cipriano” surgidos no Jornal do Porto respetivamente em 1862 e 1863 e que integraram, com “Justiça de sua Majestade”, “O canto da sereia”, “Uma flor entre o gelo” e “As apreensões de uma mãe”, a coletânea Serões da Província (1870).
          Foi também enquanto “Diana de Aveleda” que dirigiu cartas a articulistas da imprensa portuense e à personagem ficcional “Cecília”, explanando nestas últimas, do ponto de vista de uma mulher, as suas reflexões sobre a índole feminina. De facto, nos seus quatro romances, as mulheres têm um papel preponderante no desenrolar da ação e nas conclusões felizes.


          O seu primeiro romance publicado, As Pupilas do Senhor Reitor surgiu em folhetins no Jornal do Porto, em 1866, e no ano seguinte em volume autónomo. O grande êxito deste romance – sobretudo pela popularidade das personagens, Margarida, João Semana e Clara, cuja bondade permite um desfecho favorável – explica que tenha sido adaptado e representado no Teatro da Trindade em 1868. No ano anterior publicara Uma família de ingleses, para o folhetim do Jornal do Porto, retratando a vida comercial na capital do norte. Publicado em volume autónomo com o título Uma família inglesa, a sua temática gira em torno das mudanças de atitude impostas pela nova ordem social e pelo progresso, quando o preconceito classista é obrigado a ceder a novos valores. Temática idêntica encontra-se em A Morgadinha dos Canaviais – desta vez com Madalena, a morgadinha, encarnando o anjo que alivia e resolve os problemas das restantes personagens – e n’ Os Fidalgos da Casa Mourisca, com Berta da Póvoa a contornar e a vencer os preconceitos do velho fidalgo D. Luís. Qualidades semelhantes, em Cecília, n’Uma família inglesa, são os catalisadores que permitem a sua aceitação por Mr. Whitestone e o desfecho feliz da narrativa.


         A obra de Júlio Dinis, sobretudo a romanesca, situa-se na transição entre o romantismo e o realismo, recebendo influências do romantismo, pelas tramas amorosas e pelos finais que favorecem as personagens de moralidade exemplar, do realismo, por meio dos conhecimentos científicos adquiridos durante a formação académica do autor, revelados nas descrições dos ambientes onde as personagens-tipo se movimentam. Isabel Pires de Lima considera-o um precursor do romance realista, uma vez que, segundo a autora, com Júlio Dinis “confrontamo-nos já com um romance de cunho social, de inequívocos objetivos doutrinários e ideológicos” (Lima, 2001: 124). As suas ideias estéticas foram explanadas em textos reunidos postumamente (1910) em Inéditos e Esparsos, que mostram a importância que o autor dava à construção e natureza das suas personagens: “quando no caráter, no coração de uma personagem literária há alguma coisa que é nossa, quando nos reconhecemos em parte personificados numa criação, redobra o interesse com que o acompanhamos nas peripécias do drama.” (“Ideias que me ocorrem”).

 

Referência:

Dinis, Júlio (1992). Obras Completas de Júlio Dinis. Inéditos e Esparsos. Lisboa: Círculo de Leitores [1910].