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CECÍLIA

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CECÍLIA (Júlio Dinis, Uma Família Inglesa)

          No primeiro romance que Júlio Dinis escreveu (entre 1858 e 1862), portador do título Uma Família Inglesa – Cenas da Vida do Porto na edição em volume de 1868 (em 1867, surgira em folhetins no Jornal do Porto), Cecília é a linda rapariguinha de 18 anos que o protagonista – Carlos Whitestone – desposa no “happy end” que coroa as dificuldades do seu amor. Todo o romance gira em torno deste casamento, desenvolvendo uma ação muito simples num tempo curto mas que lentamente decorre, dado ser o fio diegético constantemente sustido por comentários e descrições do narrador, que se dá por autor, e por “cenas” (ou seja, quadros colhidos no real) que interligam atmosferas e personagens utilizando largamente o showing, com obtenção de grande rendimento pitoresco e semântico.

          Da desigualdade entre os jovens provêm os obstáculos ao enlace. Carlos e Jenny são os filhos do abastado Mr. Richard Whitestone, um negociante britânico do Porto, viúvo, empreendedor e respeitado; muito amigos, têm excelente coração, mas temperamentos diversos: se a loura e senhoril Jenny possui uma doce mas firme sensatez, Carlos, dois anos mais novo, mostra-se estouvado, pouco disposto ao trabalho e a hábitos regrados. Cecília, também órfã de mãe, é a filha única de Manuel Quintino, o devotadíssimo guarda-livros do escritório Whitestone; pertence, pois, à pequena burguesia, mas possui uma educação esmerada, que o pai lhe proporcionou graças aos generosos ordenados recebidos do patrão. A casa de Quintino, confiada ao espírito económico e à inteligente administração de Cecília, exprimia já “certo conforto, que principiava a querer transpor os limites que o separavam do luxo” – diz o narrador (cap. XIII) –, que nos oferece desta jovem, afeita “ao trato doméstico”, uma caraterização direta entusiasta (cap. XI), muito reveladora do criador real da personagem. Di-la “um modelo da beleza portuguesa, e portuense talvez” – essa que vê conglobada na expressão vulgar “uma pobre rapariga”, associada a qualidades mal definíveis, mas que não quadram às belezas convencionais: compara-a a uma andorinha, fala dos cabelos que “vacilavam entre o negro e o castanho-escuro”, dos olhos pretos deveras, mas “expressivos de simpatia e de familiar bondade”, do “timbre de voz vibrante e sonoro”, sublinhando que “na conformação habitual dos lábios, no sorrir, no mover da cabeça, em todos os movimentos e gestos, (…) havia, em Cecília, (…) tanta naturalidade e franqueza, que a vista deixava-se ficar, com prazer suave e sem timidez, a contemplá-la”. E confessa, em intervenção metadiegética, que se o acusarem de “dar à filha de Manuel Quintino uma feição demasiadamente burguesa”, folgará de merecer a crítica, por simpatizar “mais com os tipos burgueses do que com os tipos aristocráticos, – e em mulheres sobretudo”, explicando: “Rodeia-se de mais poesia aos meus olhos a rapariga burguesa, e sem aspirações a deixar de sê-lo, quando a trabalhar à luz do candeeiro, do que a elegante dos salões, gastando a imaginação em problemas de toucador (…)”. Nada tendo do “tipo aristocrático”, Cecília era nisso, acrescenta, “genuinamente do Porto”, cidade que tinha previsto, “em épocas em que a nobreza era tudo”, que “podia e devia prescindir dela”.

          O início da diegese é colocado no Carnaval de 1855: Carlos participa num “jantar de rapazes” no restaurante Águia de Ouro (cap. III), esquecido do repasto familiar preparado nessa noite para celebrar os seus vinte anos (Jenny censura-lho num bilhete), seguindo dali para um baile de máscaras no Teatro de S. João, onde encontra um dominó feminino que o seduz pela gentileza natural de porte e espírito. No desejo de identificar a jovem, procura reconduzi-la a casa, mas sem êxito, porque ela lhe proíbe aproximar-se demais; para compensar-se do desaire, rouba-lhe um beijo. Sabemos destas circunstâncias por cenas (colocadas no dia seguinte, na residência Whitestone, mas espaçadas por outras cenas): Carlos relata à irmã (cap. VII) o que acontecera, lamentando o lugar pouco idóneo onde conhecera a mascarada (embora estroina, ele reverencia a ordem ético-social aprendida na família); Cecília, que tem em Jenny uma amiga e conselheira apesar do desnível social entre ambas (o que mostra a filantropia dos Whitestone), vem visitá-la e faz-lhe constrangidamente um depoimento semelhante, nomeando, porém, Carlos (cap. XII). Jenny fica assim a conhecer a identidade do dominó que enlevara o irmão, comunicando à amiga que dele recebera uma narração afim, sem omitir as censuras que lhe ouvira à imprudência da desconhecida. Ambas convêm na vantagem de manter o jovem na ignorância de quem fosse a mascarada: Jenny, que toma por “capricho” o arrebatamento de Carlos, teme a sua fantasia donjuanesca; Cecília tem receios semelhantes, tanto mais que presume quanto um rapaz como aquele, de elevado estatuto social e leviano, a pode considerar presa fácil.

          Seguem-se mais cenas (sempre no mesmo dia) com dados definidores do íntimo das personagens e dos ambientes onde evolvem. No cap. XIII, um serão em casa de Quintino revela a atmosfera pequeno-burguesa que ali reina e o interesse que Carlos já desperta na emotiva Cecília: o guarda-livros conversa com a filha sobre assuntos comuns, até chegar José Fortunato, ex-negociante de cereais, seu amigo, para entabular o “mais soporífero e descosido diálogo que se pode conceber”, tomar chá com bolos e ouvir a leitura dos jornais por Cecília (das notícias ao folhetim). Carlos vem à baila na conversa: e a mocinha, que costurava, denuncia quase só por gestos a sua atração pelo jovem, ao reagir, agradada, aos elogios do pai à sua abnegação e coragem e, zangada, às acusações de Fortunato aos maus costumes da sua vida sem rumo. Num romance que explora o psiquismo, é inovadora tradução das emoções que agitam Cecília o sonho que tem nessa noite, fundindo em complicado “enredo” e completa “desordem” os acontecimentos que a tinham preocupado: ia num barco cheio de máscaras, perigosamente levado pela corrente; o barqueiro era Fortunato, que remava e ia tomando chá; depois vinha Carlos, a cavalo, sobre o mar, para salvá-la, sem que o deixassem; mas Fortunato passava a ser uma das personagens do folhetim que lera; e o mar transformava-se também, porque tinha camarotes em volta; o perigo persistia, mas era ela agora quem fugia de Carlos… Também no moço inglês se não desvanece a imagem da mascarada: procura-a com “ansiedade” e, acordam nele, com a sua lembrança, o cansaço da vida citadina e a aspiração a outra mais autêntica, partilhada com uma mulher que pudesse amar e estimar (cap. XIV).

          Nova fase diegética se inicia com a descoberta por Carlos (cap. XVI), casual, de ser Cecília o encantador dominó. Visitando-a para solicitar perdão do seu mau proceder, ambos caem num enleio denunciador da atração que os leva a puerilidades de enamorados: ele tenta revê-la, passando múltiplas vezes junto à sua casa, ela espreita os seus movimentos… E transformam-se: Carlos afasta-se dos hábitos estroinas; Cecília, consciente da sua pequena condição e duvidosa dos sentimentos do rapaz, cai numa tristeza que aflige o pai. Um incidente precipita o encantamento mútuo: Quintino sofre um colapso ao passear pelo Porto e é obrigado a permanecer em casa, acamado. Carlos, que se prestigiara aos olhos da rapariga precipitando-se em socorro do guarda-livros quando dela recebera um aflito pedido de auxílio, tem então oportunidade para doces serões a seu lado: Cecília, recuperada a alegria, trata do pai, enquanto costura como boa “doméstica”; Carlos recebe do doente cómicas lições de gestão comercial (quer substituí-lo no escritório), mostrando-se dotado para tarefas que Quintino considerava complexas e ele resolúveis por métodos que simplificavam os tradicionais, intocáveis para o “mestre”: como outras personagens jovens de J. Dinis, Carlos mostra-se um “apóstolo do progresso” frente ao conservadorismo dos idosos.

          Na área final do romance, mais “novelesca”, circunstâncias pitorescas ou melodramáticas, ora sumariadas ora encenadas, enredam os enamorados e geram suspenses (com recurso à focalização externa) que parecem inculpar gravemente Carlos. Algumas magoam diretamente Cecília: o inglês falta, sem justificar-se, à festinha que tinham preparado para comemorar a saúde de Quintino, e é visto a sair da residência Whitestone com uma bela mulher, razão para que a vox populi o acuse de devasso. A “pobre rapariga”, desgostosa, mais acabrunhada fica com uma carta anónima recebida por Quintino, denunciando os prejuízos que trazia à reputação de uma menina a frequência com que um libertino a procurava… Por isso o guarda-livros pede ao “discípulo” que cesse por algum tempo as visitas a sua casa; e Cecília recusa-se a recebê-lo, pretextando mal-estar. Carlos, desesperado, retorna às tentativas de a ver a desoras, conseguindo, certa noite, falar-lhe de amor, sem que ela, porém, aceite ouvi-lo. Escandecido, escreve-lhe então uma carta apaixonada. Não é, contudo, Cecília a recebê-la – deslocara-se à residência Whitestone, convidada por Jenny para o seu jantar de aniversário –, mas Manuel Quintino, que, sem ler o texto e reconhecendo no sobrescrito a caligrafia de Carlos, corre “alucinado” a casa do patrão (cap. XXXIV), suspeitando, sob o efeito da maledicência recente, da lhaneza do moço: interrompe o jantar reclamando a filha e chamando “infame” ao jovem inglês que zombara dos seus cabelos brancos. Carlos fica paralisado, como se merecesse a acusação (ainda perturbado por outros transes, causados por amigos que, querendo indagar por que desaparecera de cafés e teatros, tinham vindo a sua casa e surpreendido Cecília a atravessar o jardim; Carlos salvara-a da turba, introduzindo-a no seu quarto…). A solidariedade familiar faz que o jovem escape destes lances: Jenny apresenta Cecília aos galhofeiros como futura cunhada (convencera-se, enfim, de que Carlos a amava); e Mr. Richard, “num destes expedientes heroicos, que tudo podem perder ou salvar”, mente a Quintino, afirmando que a carta – convite a Cecília para jantar – fora ditada por ele e escrita pelo filho.

          Tudo se harmoniza após algumas peripécias em que Jenny se eleva a “fada” do lar. Consegue, investigando, ilibar o irmão dos delitos que lhe atribuíam (já Carlos se dignificara aos olhos da família por ter ficado em casa a velar a agonia da velha ama Kate, mesmo faltando a compromissos como a festinha de Cecília), concluindo que na sua generosidade estava a razão pela qual vendera o relógio oferecido pelo pai, por que saíra de casa acompanhando uma bela senhora e mantivera o silêncio, quando interrogado, apenas invocando a sua honra: a mãe dum caixeiro do escritório viera implorar-lhe ajuda para cobrir um desfalque cometido pelo filho, e só vendendo o relógio ele pudera socorrê-la. Para que o “happy end” aconteça, Jenny vence ainda preconceitos sociais: os de Quintino, receoso de que o casamento desnivelado da filha parecesse uma “reparação” de desmandos; os de Mr. Whitestone, que, apesar da sua filantropia, desejaria para Carlos uma noiva com mais estatuto; os da opinião pública do Porto burguês, pouco capaz de admitir que o filho dum patrão rico desposasse só por paixão a filha dum assalariado (e por isso Jenny convence o pai a elevar Quintino, tornando-o seu sócio).

          O casamento de Carlos e Cecília coroa pois, de forma positiva, um processo de metamorfose pessoal e social: se Cecília apresenta sempre o mesmo perfil, Carlos sofre mudanças que o melhoram, veiculadas pelo amor e pelo trabalho; Mr. Richard dobra-se, por sua vez, aos direitos do coração e do mérito. Uma Família Inglesa dá assim figuração narrativa – bem inovadora – ao otimismo moral e progressismo moderado de Júlio Dinis, amante da autenticidade e simplicidade, crente nos valores da família, na viabilidade da concórdia social, na capacidade regeneradora do trabalho – em suma, na perfectibilidade dos corações e das consciências.

Ofélia Paiva Monteiro