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MADALENA

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MADALENA (Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais)

Protagonista do terceiro romance publicado por Júlio Dinis, a designação categorial com que respeitosamente é tratada pelo povo numa remota aldeia minhota dá título à obra, publicada em folhetim entre 14 de abril e 29 de julho de 1868, do n.º 84 ao n.º 170 do Jornal do Porto, e que conhece logo nesse ano três edições em volume, uma portuguesa e duas cariocas. Tal designação é reiterada no capítulo I pelo almocreve que conduz o lisboeta Henrique de Souselas até à quinta de Alvapenha sempre que passam pelas suas propriedades. A insistência atiça a curiosidade do leitor e gerará um cómico de situação revelador da complexidade da figuração romanesca: entre o desespero do lisboeta perante tanta “morgadinha” (Dinis, s/d: 244) e o fascínio gerado pela visão de “uma senhora jovem e elegante” (266) lendo cartas a mulheres analfabetas há uma antitética focalização interna da mesma personagem; e Henrique, compelido a visitar Madalena, encanta-se por reconhecer nesta a mulher da vereda, mas desabafa a exasperação de só ouvir falar na morgadinha. Divertida, a protagonista pergunta-lhe “como a imagina” (Dinis, s/d: 275): “– Como a imagino? Imagino-a uma morgada, e está dito tudo; uma senhora nutrida, a rever saúde por todos os poros, encarnada como uma romã, sobre quem os vestidos à moda assentam como pendurados de um cabide, as mãos cheias de anéis, meias luvas de retrós, um chapéu com uma cercadura de rendas, ousado no cocoruto da cabeça... V. Ex.ª ri-se? Acertei? // – Parece-me que sim; mas julgue-o por si já que tem à vista o original. // – Como?! // – A morgadinha dos Canaviais, sou eu.” (275)

O narrador, alternando “a morgadinha” e “Madalena”, favorece a empatia com o leitor, e os parentes tratam-na pelos diminutivos “Lena” ou “Lenita”, sinal de simplicidade, mesmo que D. Madalena Adelaide de Mesquita seja morgada e filha do influente Conselheiro Manuel Bernardo. De facto, a protagonista, conquanto bonita, destaca-se sobretudo pela inteligência e integridade. Não corresponde ao estereótipo imaginado por Henrique, representando a exceção que confirma a regra no Portugal oitocentista: é uma jovem mulher autónoma e culta, sem estar deslocada na aldeia onde reside. Distribui bondade em vez de soberba. Desdenha do preconceito classista ao amar Augusto, o mestre-escola, homem que prima pela inteligência, trabalho e honradez. Não encarna, porém, a mulher-anjo romântica (tipo representado n’A Morgadinha por Cristina, sua prima), pois é combativa: nunca claudica perante os galanteios de Henrique, considerados fúteis e inadequados à naturalidade aldeã, e casar-se com Augusto, indica ao pai, é “uma resolução de mulher” (580). A sua determinação é decisiva neste final feliz. Romântica no amor e na bondade, apresenta também traços realistas – reflexo da formação médica do Autor –, ao revelar os antecedentes num autorretrato feito a Henrique. Madalena constitui, aliás, “a única personagem que se apresenta a si própria” (Ferreira, 1987: 40). Demonstra inteligência e coragem a gerir conflitos, remetendo alguns para o contexto histórico, como a tentativa de impedir a expropriação dos terrenos de Tio Vicente para neles se construir uma estrada, ou o apaziguamento do agitadíssimo funeral de Ermelinda em cemitério local, levando o cacique a espantar-se como conciliava a morgadinha “os afectos e branduras da mulher (...) com a firmeza e energia quase varonis.” (505). Madalena “andrógina”... (Abreu, 2010: 512). Instâncias credíveis, a começar pelo narrador, confirmam-lhe, assim, uma heroicidade não padronizada no exclusivo papel de esposa e mãe extremosa, mas reclamando uma voz ativa nos destinos pessoais e sociais. O desenho do seu complexo e verosímil espaço psicológico, a partir da omnisciência narrativa e de focalizações internas, ditando o lento desenrolar diegético, enquadra-se na corrente da literatura inglesa ilustrável em Jane Austen, acessível ao autor.

Por outro lado, Madalena reflete circunstâncias da escrita d’A Morgadinha, em 1863, em Ovar, onde o Autor convalescia da tuberculose que já vitimara mãe e irmãos. Também órfã de mãe na puerícia, Madalena reúne atributos de uma progenitora tutelar, idealizada por Júlio Dinis. E as virtudes da ruralidade, por ela elogiadas, emanam do Fontismo, do “naturalismo idílico” (Ferreira, 1987: 20) e da visão do campo como derradeira esperança de cura para certas doenças, a exemplo da hipocondria de Henrique, a quem a protagonista leva os bálsamos adequados. Mas se a antítese inicial Madalena/Henrique corresponde ao binómio campo-bem/cidade-mal, a formação cultural da protagonista não é exclusivamente aldeã, pois esta completara os estudos em Lisboa, da qual rejeita, porém, etiquetas e galanteios, considerados hipócritas. Ora, o subtítulo Crónica da Aldeia, comum às Pupilas do Senhor Reitor, à Morgadinha e aos Fidalgos da Cada Mourisca, forma uma trilogia que alarga a hermenêutica de Madalena. Aliás, As Pupilas e A Morgadinha constituiriam no início um único romance, só depois cindido (cf. Simões, 1987: 428). Logo, há intertextualidades a aprofundar entre Madalena e a Margarida d’As Pupilas.
Madalena aparece no cinema em 1949 pela realização do italiano Caetano Bonucci, sendo interpretada por Eunice Muñoz, a encabeçar o elenco de atores. O mesmo papel na única adaptação televisiva, feita pela RTP em 1990, é desempenhado por São José Lapa, numa minissérie repetida no canal RTP Memória em 2014.

Finalmente, apesar dos variados estudos sobre Madalena e da diversidade de chancelas que editaram A Morgadinha, o “relativo esquecimento ou menosprezo no século XX” desta obra face ao êxito oitocentista dever-se-á à contemporânea descrença na premissa dinisiana da “felicidade histórica” (Buescu, 1995: 66), isto é, do progresso civilizacional.

 

 Referências

ABREU, Carmen (2010). Júlio Dinis. Representações romanescas do corpo psicológico e social: influência e interferência da literatura inglesa.

Tese de doutoramento.Porto: FLUP.

BUESCU, Helena Carvalhão (1995). “Ler Júlio Dinis”, in Helena Carvalhão Buescu, A Lua, a Literatura e o Mundo. Lisboa: Cosmos. 59-67.

DINIS, Júlio (s/d). Obras de Júlio Dinis. Vol I. Prólogo de Kol d’Alvarenga. Porto: Lello & Irmão.

FERREIRA, Maria Ema Tarracha (1987). “Introdução”, in Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais. Crónica da Aldeia. 2ª edição. Lisboa: Ulisseia. 7-43.

SIMÕES, João Gaspar (1987). Perspectiva Histórica da Ficção Portuguesa (das Origens ao Século XX). Lisboa: Dom Quixote.

Cristina da Costa Vieira