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Maria das Mercês

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Autor: Alexandra Lencastre como Maria das Mercês

Maria das Mercês (José Augusto Neves Cardoso Pires, O Delfim)

Maria das Mercês Palma Bravo é uma das personagens do romance O Delfim (1968), de José Cardoso Pires, que, juntamente com seu marido Tomás Manuel da Palma Bravo e o criado Domingos, compõem o triângulo fundamental da intriga deste romance. Esposa de Tomás Manuel, que pode ser considerado o protagonista da obra pelo interesse que este provoca no narrador e nas outras personagens, é ela quem, no entanto, desencadeia a sequência de acontecimentos que virá a se tornar o tema central da obra: o desaparecimento de Tomás Manuel e a dúvida sobre seu envolvimento na morte da esposa e do criado.

A personagem, comumente referida como “Senhora da Lagoa” é descrita como fisicamente elegante, com o “Pedigree dos bem-nascidos” (Pires, 2015: 120). Estas informações, no entanto, só serão facultadas ao leitor com o avançar da leitura, pois no segundo capítulo já se apresenta a informação de que a personagem está morta: “Assim mesmo. A Dona Mercês matou o criado e o Infante matou-a a ela. Nem mais.” (27). Embora haja uma variedade de versões para seu destino, a oficial – ou nas palavras do Regedor, aquela que consta dos autos – seria a de que a esposa de Tomás Manuel teria morrido na madrugada de 12 de maio de 1967 ao tentar correr para o mar sem sucesso, ficando presa na Urdiceira e morrendo na lagoa. O Regedor descarta a hipótese de um ataque por Tomás Manuel, ainda que tenha sido encontrada com as roupas rasgadas e arranhões: “Maria das Mercês deve ter tropeçado vezes sem conta antes de se entregar nos braços da lagoa. Descalça e em camisa, fugiu às cegas, prendeu-se nos galhos, cortou-se nas silvas; no musgo escorregou, nos espinheiros feriu-se. Ia doida, desaustinada” (81). A morte acidental da personagem seria bem aceita pelo narrador, que não acredita na sua inclinação para o suicídio: “Maria das Mercês não gostava tanto da vida que fosse capaz de lhe pôr fim com as próprias mãos. Morte em beleza não havia para ela. Só a de parto... – não foi o que lhe ouvi dizer?” (82).

Esta visão do narrador sobre a personagem remete ao plano narrativo do ano de 1966, quando teria tido seu primeiro contacto com ela, em visita à casa da lagoa, e faz referência a dois elementos fundamentais para a compreensão da personagem: a morte e a maternidade. Neste caso, ambos apontam para o medo da solidão e do vazio. Sobre a morte, lê-se: “A morte, os grandes silêncios e os espectáculos da solidão apavoram-na. No Inverno raramente desce à lagoa (garantira-me o Padre Novo), e é decerto por isso, porque as águas sem luz, arrepiadas pelo vento e pela chuva, lhe lembram um mundo despovoado” (45); sobre a maternidade, apresenta-se um problema chave para Mercês, que é a possibilidade de ser estéril: “Maria das Mercês, mulher inabitável. Sobre a solidão da lagoa, a solidão dela mesma, esposa maninha que odeia o ventre abundante das águas (para onde Tomás Manuel se sentia também atraído com o sonho das campas submersas). Odiando-a a tal ponto que acabou por se lhe entregar” (83).

Sua esterilidade, no entanto, é reiteradamente questionada pelo narrador, seja pela maneira como descreve seu corpo – “Olhando-a naquela idade, e conhecendo-a depois, senhora da lagoa, deduz-se que o corpo que viria a ser inabitado se encaminhava desde muito cedo para as formas seguras e instaladas das madonas do lar” (87) – , seja pela representação iconográfica que o narrador faz dela: se a alegoria de Tomás Manuel está no bestiário, a de Maria da Mercês é a de uma árvore em flor, como lê-se no capítulo XII: “A MULHER INABITÁVEL. Na brancura de uma folha de papel (…) planta-se a frase. Ela apenas, o título, como um diadema de dezasseis letras. Só depois é que virá a homenagem (com ou sem dedicatória: Maria das Mercês, 1938-1966), inteiramente preenchida por uma romãzeira em flor que há no quintal da pensão. E será um desenho meticuloso todo feito de articulações, por meio de folhas recortadas, cada qual com o seu pensamento” (85). Assim, ao representar Mercês como uma árvore preparada para dar frutos, o narrador põe em causa o facto de não se questionar se a esterilidade não seria um problema de Tomás Manuel e não dela. “Donde vem o mal que impede os frutos? Da esposa inabitável ou da semente que não tem força para viver dentro dela?” (86).

No âmbito transficcional, Maria das Mercês é explicitamente relacionada à Ofélia da tragédia shakespeariana Hamlet. Sua morte por afogamento, sem a clareza de ter sido um caso de suicídio ou uma morte acidental provocada por um momento de desespero, coloca questionamento idêntico ao da morte de Ofélia, anunciada no quarto ato da tragédia. Porém, o autor ironiza a óbvia relação: “Ofélia, murmuro. Ofélia à flor das águas como no sempre venerado Santo William Shakespeare. Mas estes montes são pobres. Nem ao anoitecer têm grandeza para se poder estender sobre eles um imponente manto púrpura digno de dar passagem a uma Ofélia. E, francamente, só por delírio pretensioso é possível chegar a tamanha ingratidão para com Maria das Mercês, criatura humana – não dos livros” (117).

Para além da intertextualidade, a personagem também sobrevive nas relações com outros media. Em 2002, O Delfim foi adaptado para o cinema por Fernando Lopes e Maria das Mercês foi interpretada por Alexandra Lencastre. Sua excelente atuação valeu-lhe um Globo de Ouro, no ano de 2003, na categoria de Melhor Actriz de Cinema. Um documentário sobre este livro foi exibido pela RTP em 2009, produção de João Osório, como parte da série Grandes Livros.

 

Referência

PIRES, José Cardoso (2015). O Delfim. Lisboa: Relógio D’Água.

 

Gabriella Campos Mendes