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Helena de Tróia

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Autor: Mónica Calle como Helena de Tróia

Helena de Tróia (Lídia Jorge, A Costa dos Murmúrios)

Helena é a personagem coadjuvante d’A costa dos murmúrios (1988), romance de Lídia Jorge que apresenta, da perspectiva memorialística feminina, uma visão sobre o período final da guerra colonial em Moçambique. Essa obra pertence ao grupo de romances portugueses publicados depois de 25 de abril de 1974 que, discordantes das apologias ao Império e da ideologia oficial disseminadas durante o Estado Novo, realizam “um ajuste de contas com a Guerra Colonial“ (Teixeira, 2001: 41), afirmando-se como antimilitaristas e anti-heroicos.

A figuração de Helena, esposa do Capitão Forza Leal, metodologicamente construída de forma simétrica à composição da protagonista Eva Lopo, noiva do Alferes Luís Alex, multiplica e aprofunda as perspectivas de observação dos impasses sofridos pela comunidade durante a guerra, bem como promove o questionamento dos espaços culturais e históricos reservados à mulher na sociedade patriarcal. Embora Helena seja revelada predominantemente pela perspectiva exterior do olhar de Eva Lopo, que a considera a “abstração, em simultâneo, da Beleza, da Inocência e do Medo" (90), a relação sistêmica existente entre ambas termina por iluminar aspectos de Helena que promovem a reflexão e análise da autoimagem feminina.

No capítulo que abre a obra, do ponto de vista masculino do narrador de "Os gafanhotos", Helena é descrita unicamente pela rara beleza e pelo comportamento submisso: “A mulher do capitão Forza Leal atraía a vista e o suor como um farol atrai, quando visto o facho a partir do mar” e, “com a face esbofeteada, era naturalmente mais linda” (29). Na narrativa de Eva Lopo, gradualmente, aquela que é apresentada como objeto de desejo, “Helena por baptismo, Forza Leal por casamento, mas todos a tratam por Helena de Tróia” (29), transforma-se na figura enigmática, cuja natureza é constantemente o mote para as longas reflexões de Eva Lopo. Por essa via, à medida que avança a narrativa, Helena ganha outras dimensões, tornando-se uma figura decisiva no desenvolvimento da trama e na construção do discurso de representatividade feminina proposto pela obra.

A decisão de Helena pelo encarceramento durante o período em que o marido se encontra na guerra concentra na figura dessa personagem a resposta à tendência do patriarcado em confinar as mulheres, de modo a controlá-las e silenciá-las, fato sublinhado reiteradamente na narrativa (“o fio de sangue que ressumava da orelha daquela rapariga batida pelo marido e que ia caindo à praia, tudo isso era vermelho. Sobretudo os vergões que muitas delas tinham pelas caras” (33)). Ao final da narrativa, vê-se que Helena decide enclausurar-se na própria casa não mais em função das ordens do marido, mas como sacrifício que, perante a promessa feita a Deus, seria recompensado com a morte de Forza Leal e a sua definitiva e tão almejada libertação.  

A importância da personagem Helena, além de constituir o contraste necessário à conduta da protagonista, revelando-se como o reverso da personalidade de Eva Lopo, é assegurada, sobretudo, como proposição de releitura da simbologia atribuída à mítica, bela e culpada, Helena de Tróia. A evolução de Helena d’A costa dos murmúrios, que passa de objeto de desejo, “como se estivesse ali sobretudo para desempenhar esse papel e sentisse felicidade nesses gestos” (72), à traição com o despachante e ao isolamento como sacrifício para livrar-se do marido, propõe, com o questionamento dos motivos e circunstâncias dos fatos tradicionalmente atribuídos à figura feminina, a atualização subversiva do mito de Helena de Tróia.

Em 2004, o romance A costa dos murmúrios foi adaptado ao cinema por Margarida Cardoso, com Mónica Calle no papel de Helena de Tróia.

 

Referências

JORGE, Lídia (2004). A costa dos murmúrios. Lisboa: Publicações Dom Quixote.

TEIXEIRA, Rui de Azevedo (2001). A Guerra e a Literatura. Lisboa: Vega.

 

Ilse Vivian