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Mariana Toledo

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Mariana Toledo (CARVALHO, Maria Judite de, Tanta Gente Mariana)

Personagem epônima do conto que, por sua vez, é epônimo da coletânea com que Maria Judite de Carvalho se estreia nas letras portuguesas, em 1959, Mariana é uma mulher comum, sem traços distintivos, que, sabendo ter os dias contados, faz uma retrospectiva de sua vida fracassada e trata de narrá-la em primeira pessoa. Sem família, sem recursos materiais, abatida por contingências que aceitou resignada, ela sintetiza metonimicamente a imagem que faz de si no adereço que usa para ir ao médico: “O chapéu de há seis anos, que, só hoje reparei nisso, tem dois buracos da traça e uma pena ridícula do lado direito. Um chapéu que me fica mal e a que eu fico mal. Como podia ser de outro modo?” (CARVALHO, s.d.: 7-8). Lendo-se aqui a palavra “pena” no sentido de “piedade”, compreende-se que a narradora-personagem considere ridícula a autocomiseração e procure contê-la em uma linguagem sóbria, econômica (mas com inúmeras repetições intensificadoras), alusiva e sutilmente irônica, o que só faz realçar a angústia, a mágoa e o sofrimento que a perpassam.

Confinada no quarto de pensão que, por força da banalização, “deixou pouco a pouco de ser horrível” (16), essa “velha de trinta e seis anos” (37) re-sente os fatos e emoções de sua existência trágica: a perda precoce da mãe; a consciência da solidão, compartilhada com o pai e dele recebida como herança; a inaceitação dos sogros, por ser ela “uma simples datilógrafa sem dinheiro e sem relações, que nem mesmo fosse bonita, nem bem feita, nem brilhante” (13); o abandono pelo marido, António, que se apaixona por uma escultora significativamente denominada Estrela, considerada, ela sim, como “atraente, bonita, uma mulher completa” (58); o desamparo em que se vê quando Luís Gonzaga, a quem se agarrou “com força, quase com desespero” (37) após o divórcio, cede à imposição familiar do sacerdócio, deixando-a grávida; a demissão do emprego de datilógrafa quando essa gravidez solteira se evidencia; a morte do tão desejado filho Fernandinho “e de todos os irmãos que poderia vir a ter” (48) quando, distraída ao projetar a figura da rival em uma passante, é atropelada; o desespero ao saber que essa mesma rival e o ex-marido têm um filho a quem chamam exatamente Fernando — nome do pai de Mariana, que ela sonhara atribuir ao filho desejado; a convivência com o fantasma da morte, tão onipresente quanto esses todos que lhe habitam a lembrança; a confirmação de que ela chega em breve.

Num discurso intimista, poético, fragmentado, a narradora autodiegética intercala e por vezes sobrepõe as sensações vívidas de um passado tornado atemporal com as de um presente onde “tanta gente” mais se mostra incapaz de empatia e autenticidade: o especialista camufla a verdade do diagnóstico com palavras evasivas; a dona da pensão, D. Glória, reza para Mariana não partir ao exterior onde teria um bom emprego, mas providencia sua partida a um hospital quando a doença se agrava; a criada, Augusta, solta “suspiros imensos, redondos” (12) e diz querer morrer, mas “é uma mulher gorda e saudável, muito risonha, com um gosto pronunciado, que não esconde, pelos polícias”; Lúcia, a “amiga de sempre” (e para sempre, julgava [...])” (26) rejeita-a por temer que sua gravidez envergonhe o futuro marido abastado; Garibaldi, o brasileiro que conhece em Paris, fala com nostalgia da mulher e dos filhos “olhando insistentemente [...] para o imenso decote de Simone” (21); o sogro oferece ajuda financeira e melhor moradia quando morre a esposa, apenas por medo da solidão; António é incapaz de dizer-lhe a verdade sobre a prevaricação com Estrela; e esta, por sua vez, é considerada “uma boa rapariga. Uma ótima rapariga” (56) por defender sempre Mariana, embora ao mesmo tempo comente “que o momento para fazer a asneira tinha sido mal escolhido” (57).

Ninguém passa incólume pela percepção dessa “mulher sem qualidades” que, em sua voz suave, repleta de compreensão e condescendência irônica, mais sugerindo que declarando, denuncia a incomunicabilidade, o preconceito, a ambição materialista, a exclusão social, o cultivo das aparências, a hipocrisia, a má-fé e o egoísmo (“É bom não esquecer o egoísmo”) (36), assim como a estereotipia que impede a emancipação feminina. Por recear que o confronto com os outros a isole ainda mais deles e a coloque em uma posição reativa (“Uma palavra teria bastado, um grito, uma lágrima, mas eu não pude tirar de mim nenhuma dessas coisas”) (18), Mariana — provavelmente a mais solitária das personagens femininas já configuradas literariamente — é capaz de um distanciamento crítico que, embora mordaz, é bastante indulgente para que “tanta gente” lhe “faça pena”. Produto de um período em que Portugal mesmo se encontrava restringido por conta do regime ditatorial, este conto demonstra que a docilidade, a aceitação passiva dos destinos e a desesperança levam à morte em vida. Mariana é uma morta viva. Mas essa morta-viva, falando do aquém-túmulo a respeito de suas angústias e sofrimentos, permite que, por meio dela, Maria Judite de Carvalho denuncie a alienação feminina e transgrida, pelo uso da palavra em sua função poética, as barreiras impostas aos sonhos e desejos humanos.

 

Referência:

CARVALHO, Maria Judite de. Tanta Gente, Mariana. 2ª. ed., Lisboa : Arcádia, s.d.

Eliane Fittipaldi Pereira