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Leopoldina

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Autor: Fábio Mordomo

Leopoldina (Eça de Queirós, O Primo Basílio)

Personagem secundária do romance de Eça de Queirós, O Primo Basílio, publicado em 1878. Amiga de infância da protagonista, Luísa, a sua imagem pública sofre as consequências de um percurso de vida que a situa à margem das convenções moral e socialmente reconhecidas. Entregando-se a sucessivas aventuras extraconjugais que não esconde, Leopoldina não soube ou não quis atender às exigências de uma aparente respeitabilidade, ao contrário das outras que “manobravam com habilidade, onde ela, a tola, tivera só a sinceridade!” (Queirós, s.d.: 353). Se o reconhecimento desta situação, que ocorre na última cena em que a personagem participa, se faz acompanhar de um tom magoado e ressentido, o alvo desse ressentimento é a hipocrisia social sob que se acobertam os amores clandestinos de Lisboa. A mágoa, de resto, não faz parte da estrutura psicológica da personagem: encarando a vida com desenvoltura, Leopoldina adapta-se às circunstâncias e delas procura retirar o melhor possível. Assim reage às reservas que o marido de Luísa opõe à convivência entre as duas, aproveitando as ocasiões em que pode usufruir livremente da velha amizade que a ambas dá prazer.

Mais do que bonita, Leopoldina é uma mulher desejável, como fica claro no retrato físico que dela faz o narrador e no qual ganha relevo a beleza do corpo que a personagem não dissimula, mas antes revela pela audácia dos “vestidos muito colados, com uma justeza que acusava, modelava o corpo como uma pelica” (24). Algumas imperfeições maculam, porém, a beleza da face. Com exceção dos olhos: belos, “de uma negrura intensa” (24), neles habita o “fluido” de sedução e desejo que o retrato desenhado naturalmente requer.

Pela descrição de que é objeto e pela breve história de vida que a introduz, a personagem apresenta-se, desde o início, com as marcas da transgressão e da ousadia, traços que a sua presença em ação tratará de aprofundar. Nesses momentos, o narrador segue-lhe a vivacidade e a descontração dos movimentos, regista-lhe a extravagância de gostos e hábitos, mas sobretudo dá-lhe a palavra, para que se exponha diretamente aos olhos do leitor. De facto, é conversando com Luísa, conversa “de mulheres sós, miudinha e divagada, semelhante ao ramalhar de folhagens” (166), que a personagem ganha espessura e conquista os contornos que a individualizam na galeria das personagens femininas queirosianas. Ficamos então a conhecer a mútua indiferença que define o seu casamento, o seu alheamento das tarefas domésticas, o despudor das suas confidências, o seu ideal de felicidade que a condição de mulher não lhe permite viver, a intensidade das sensações homoeróticas vividas no colégio e guardadas na memória, a veemência com que rejeita a maternidade em nome da liberdade e da beleza, o modo como reduz a autoridade da moral católica à hipocrisia dos seus ministros e, ainda, as razões que a fazem correr atrás da paixão, essa palavra mágica cujo significado a personagem vai decompondo até lhe retirar a magia.

No contexto dos valores morais da época, Leopoldina é em tudo o oposto da mulher ideal: a fada do lar, submissa e fiel. E é nesta condição que se espera o seu desempenho na história construída segundo o propósito reformista que, no quadro ideológico do romance realista, fez do adultério feminino um tema de tão larga fortuna. Adúltera, ela é um mau exemplo para Luísa; ousada, desperta-lhe a tentação do interdito. E não oferece dúvidas o comprazimento de Luísa ao ouvir os lances mais picantes das aventuras sentimentais que, sem pudor, Leopoldina lhe relata. Curiosamente, contudo, o narrador não faz da sua personagem uma vilã. É certo que lhe aponta os defeitos, abrindo-lhe a casa com o aparente propósito de nos fazer confirmar o instalado desalinho; refere-lhe os excessos, como o álcool e o cigarro; vai ao ponto de lhe diminuir a beleza com uns “sinaizinhos desvanecidos de antigas bexigas” (24) e um nariz grosseiro. Mas através de tudo isto e da sua vida inteiramente à margem do social e moralmente permitido, a imagem da mulher que prevalece traz consigo as marcas da franqueza, do desassombro, da lucidez e da independência de ação e pensamento. Sem falsos pudores e sem culpa, Leopoldina situa-se do outro lado do espelho que reflete a tradicional figura feminina, oscilante entre dever e pecado. Não é, pois, uma réplica de Luísa, mas com ela concorre para fazer d’O Primo Basílio, mais do que uma história de adultério, uma história de mulheres – do seu direito ao desejo, das suas aspirações e do espaço limitado que as confina.

Em 1922, Leopoldina transcende os limites das páginas literárias: Georges Pallu realiza o filme com o mesmo nome do romance – O Primo Basílio – e escolhe Deolinda Saial para o papel. Ainda em Portugal, António Lopes Ribeiro procede a uma nova transposição do romance para o cinema, em 1959, cabendo à atriz Maria Domingas o papel. Em 1988, o romance foi alvo de uma minissérie brasileira da TV Globo e Beth Goulart encarnou Leopoldina. Daniel Filho, que a dirigiu, voltou ao romance de Eça de Queirós em 2007 e sobre ele realizou mais um filme. Logo no ano da sua publicação, em 1878, O Primo Basílio passou para os palcos do teatro no Brasil, o mesmo vindo a suceder em Portugal, mas só em 1916. Fora do espaço da língua portuguesa, devem registar-se algumas adaptações, como a alemã, de 1969, Der Vetter Basilio, e a argentina, com o título El Deseo. Primo Basílio foi adaptado ao bailado, com coreografia de Fernando Duarte (Danças em Diálogos).

 

Referência

QUEIRÓS, Eça de (s.d.). O Primo Bazilio. Episódio doméstico. Lisboa: Livros do Brasil.

Maria do Rosário Cunha