• Precisa de ajuda para encontrar algum conteúdo?

EVERARDO

Alvaro_do_Carvalhal2.jpg

EVERARDO (Álvaro do Carvalhal Sousa Teles, Contos)

Everardo é uma das personagens principais do conto “O punhal de Rosaura”, de Álvaro do Carvalhal (2004). Ele atua em todos os momentos da narrativa, divide o protagonismo com Rosaura e cumpre função de narrador intradiegético, oscilando entre as posições auto e homodiegética.

Os episódios iniciais do conto, originariamente intitulado “Everardo”, foram publicados na revista O Povo, em 1866. Entretanto, devido à “precariedade das publicações periódicas da altura” (Miraglia, 2004: 280), o autor morre em 1868 sem ter visto qualquer de seus contos publicados integralmente (Oliveira, 1992: 38). Somente “graças aos cuidados de seu amigo J. Simões Dias [...] todos os seus contos serão publicados em 1868” (Oliveira, 1992: 39), com o autor já falecido.

Na edição póstuma, o conto aparece intitulado “O punhal de Rosaura”. Inicialmente, o nome da personagem Everardo encontrava-se isolado no título, podendo-se, portanto, pressupor a importância que o autor lhe reconhecia ou lhe queria conferir. Definitivamente, o nome da personagem Rosaura surge no título, correlacionado ao “punhal”, de sua posse, podendo-se interpretar, dessa forma, que o autor deslocou para o “punhal” a força significativa do título. No entanto, em qualquer dos casos, Carvalhal realçou, pelas denominações atribuídas ao relato, uma de suas figuras, fosse Everardo, seja Rosaura.

Everardo, em desastrosa relação amorosa com Rosaura, é uma personagem complexa, cuja figuração, variando ao longo da narrativa, envolve diferentes processos compositivos. Machista, vil, orgiástico, como se pode deduzir de suas falas na abertura do conto, trata Rosaura com desprezo, gabando-se de ser amado por ela e vangloriando-se do extremo ciúme que ela sentiria dele. Satisfeito em sua vaidade, acha-se objeto de extraordinária paixão. Admite-se embrutecido no gozo mesquinho e sórdido, desdenhoso e sarcástico.

Rosaura é figurada por ele como uma pobre vítima lamentosa, seja na sua condição de personagem, em diálogos com ela, seja exercendo a função de narrador. Ele tem a bárbara satisfação de lhe “espremer rudemente as chagas da ferida” (Carvalhal, 2004: 189) de um amor mal correspondido. E, como revela, trata-se do “inveterado hábito de considerar a mulher simples objeto de luxo” (189). Lacrimosa, “rola mansa”, escrava quebrada aos seus pés, voluntariamente, ela “acaricia a ingrata paixão, que [lhe] furta a liberdade” (188). Ele zomba de suas reações, acusando-a de trágica, frenética, digna de uma personagem shakespeariana, faltando-lhe na mão, apenas, o punhal de Medeia.

Ao fim dessa passagem, contudo, Rosaura transmuta-se em “fera irritada” (194). Enfrenta-o com uma força inesperada e, de um só golpe, sem que ele a possa impedir, crava um punhal no próprio peito, embebedando-se-lhe a roupa com seu sangue, que jorra no rosto dele. Tendo ouvido os gritos de Everardo e os murmúrios de Rosaura, António, o fiel escravo da suicida, socorre a cena, acudindo e arrancando o punhal da ferida. Everardo se revolta com a presença do negro, mas dissimula e toma o cadáver aos ombros, indo escondê-lo no subterrâneo da casa. Quando volta “para lavar o sangue do tapete, já ali não estava o escravo nem o punhal” (196).

Dias depois do infausto acontecimento, conforme Everardo anuncia, marcha para Veneza. Porém, antes de se ir, entende que “cumpria legar aos vermes o corpo da [...] amante” (196). Esse anúncio reitera sua presunção de supremacia sobre Rosaura, apontada, mais uma vez, como sujeito do amar, mantendo-se, ele mesmo, como objeto do amor. Estabelece-se uma simbiose de valor conotativo entre a mulher e os vermes que devorariam seu cadáver. Até esse ponto, Everardo, figura machista, inescrupulosa, que tripudia dos sentimentos femininos sem qualquer compaixão ou pudor, é composto como uma personagem impassível frente àquela mulher que ele pensa que o tenha por objeto irascível do amor.

As ações, sensações e reações de Everardo, durante o translado e enterro do corpo no subterrâneo da casa, prenunciam inesperadas transmutações por que sua figuração vai passar daí em diante, enublecendo, ainda que apenas em parte, a figura viril e insensível até então caracterizada. Indo enterrá-la, ele se sente só na casa e fica apavorado. Percebe as “cores avermelhadas nas exóticas tapeçarias chinesas” (196). Eriçam-se-lhe os cabelos na cabeça e ondeia-se-lhe o sangue em calafrios pelas artérias. O rosto putrefato de Rosaura fascina-o, percebendo-lhe belas feições. Prostrado, apoia-se contra o muro, inconsciente, alheado e esquecido de si, por um tempo que não soube calcular. Por fim, abre a cova e a enterra, cobrindo o corpo com ásperas camadas de terra (197).

As transformações na figuração de Everardo se vão reforçar na travessia até Veneza. Já está sentindo saudades de sua “deserta granja, [...] paraíso dalguns instantes” (197), e percebe, sensorialmente, o seu entorno, não mais com o pavor supersticioso de antes, mas com o pesar da errância, acrescido do “pressago reflexo do [...] [seu] destino” (197). Já em Veneza, vê-se combalido nas “vertigens da embriaguez, nos sensuais deliramentos, em que cego [...] rojava fatigar o corpo e estupificar o espírito, buscando no cansaço o sono rebelde e o ambicionado esquecimento, lá mesmo, no fundo perturbado da consciência” (197). Em martírio, pressente o cancro que, “vivo e pungente”, medra, anunciando o desmoronamento de seus castelos de fantasia (197).

Se, até esse momento, intervieram em sua figuração, na função de narrador ou na condição de personagem, o que externou sobre si, Rosaura, o negro António ou a ambiência à sua volta, bem como as ações que exerceu ou sofreu, nesse passo, outro procedimento semionarrativo se soma àqueles. Em decorrência do (des)ânimo que sente, transforma-se fisicamente. Seus cabelos, antes “crespos, castanhos, opulentos, converteram-se nas cãs”, e sua face amarrotou-se (197). A descrição física surge como um processo de sua figuração.

Ele não deixa, contudo, de reafirmar seu apego à esbórnia. Participa de “ruidosas folias”, regadas a bebida e animadas por sexo. Declara seu “Escárnio à sociedade madrasta” (198). Reafirma o perfil vilanesco anunciado desde o início. Todavia, sua interação, “nos tripúdios do carnaval, [...] [deixando-se] vagabundear no meio do burburinho elegante das intrigas, de amores e ciúmes”, pelas ruas de Veneza, com “um tentador dominó escarlata”, que “se confessou avassalado de semelhante ignorado impulso” (199), revela traços ainda mais imprevistos na composição de sua figura. Aquele infame boêmio, supondo-se, agora, “em face de perigoso sedutor”, sente-se encantado pelo mascarado com fatídico porte como o seu (199). Confuso e transido, interroga “De que procederia a comoção?” (199). Sem encontrar respostas para sua inquietação, inquire, intimamente, “quem era o dominó escarlata? Homem ou mulher? Velhice ou mocidade?” (199). Reconhece-se encantado por “[...]aquelas mãos divinas, [...]aqueles pés de criança”. Supõe-se “em face de peregrina divindade” (200). Emerge, repentinamente, em meio à narrativa, uma figura que se pode sugerir envolta pela homoafetiva, que não consegue explicar ou refutar. Admite que “o trajo não tinha divisa, que extremasse sexo” (200). Apesar disso, “fosse como fosse, em [...] [seu] cérebro entrou não [...] [sabe] que luminosa centelha, acenderam-se clarões de vida nova, como fogos-fátuos de cemitério” (200).

A complexa e controversa figuração de Everardo pode ser ilustrada com o emprego indiscriminado dos gêneros masculino e feminino que, seja na qualidade de personagem, seja na função de narrador, utiliza para se dirigir ou referir ao dominó escarlata. Sobrelevam-se os substantivos femininos “dama” e “senhora”, bem como os pronomes “ela” e “a”, além da contração “dela” (201-206). Não obstante, ao longo de todas essas passagens, ele continua identificando “o dominó escarlata” no masculino.

A narrativa não finda nesse ponto, avançando. O entrelaçamento de Everardo com o dominó escarlata prossegue, mantendo-se a aura homoafetiva que fora instaurada e trazendo à luz uma figura extremamente diversa em seus traços compositivos. A partir desse ponto, reavivam-se os elementos discursivo-textuais que já vinham interferindo em sua figuração. Tem-se um Everardo imiscuído de valores, senão antagônicos, controversos. Realçam-se seu perfil requintado e seu profundo conhecimento das artes, como se percebe nas observações que faz quando do acesso à casa para a qual é levado pelo dominó escarlata (204-205). Retornam, também, seus medos, encerrando a parte I do conto.

A parte II, “LORENZO DEL GIOCONDO” (209-214), presta-se, mais propriamente, à figuração de Rosaura, ainda que nela se verifiquem elementos intervenientes na figuração de Everardo. Esses procedimentos, porém, são os mesmos já apontados na parte I. Merecem atenção a morte de Everardo, golpeado por Lorenzo del Giocondo, o dominó escarlata, com o mesmo punhal utilizado por Rosaura em seu suicídio, e o aparecimento inesperado de um narrador heterodiegético, que anuncia a morte de Everardo: “Embalde o chamam. Caíra de bruços sobre a mesa da taverna com o punhal de Rosaura atravessado na garganta” (214). Sinteticamente, contribuem para a figuração de Everardo a sua atuação como personagem e narrador, que, no geral, se entremeiam e imiscuem, dificultando o deslinde dos papéis exercidos. Na condição de narrador e de personagem, há que se considerar o que ele expressa sobre os cenários, com toda a sua conformação, emitindo opiniões e conceitos relevantes, bem como o que diz de si e das demais personagens, envolvendo desde as descrições física e psicológica até a valoração de juízo próprio ou alheio. Especificamente na qualidade de personagem, são determinantes as ações que exerce ou sofre, demarcando suas capacidades, potencialidades e fragilidades.

Referências

Carvalhal, Álvaro do (2004). “O punhal de Rosaura”, in Contos. Lisboa: Assírio & Alvim. 185-214.

Miraglia, Gianluca (2004). “Álvaro do Carvalhal”, in Carvalhal, Álvaro do. Contos. Lisboa: Assírio & Alvim. 269-326.

Oliveira, Maria do Nascimento (1992). O fantástico nos contos de Álvaro do Carvalhal. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa.

Flavio García