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PENALVA, Isabel Moscoso

PENALVA, Isabel Moscoso (Abel Acácio de Almeida Botelho, Fatal Dilema)

Protagonista de Fatal Dilema, um romance escrito ao longo do ano de 1899, tendo sido publicado em 1907. O romance começa com a morte de Eusébio Penalva, jurista e diplomata aposentado, no seu palacete de Campolide, rodeado da esposa, da filha e de um pequeno número de amigos, que continuarão a frequentar até ao final do romance a residência da família Penalva. Como é habitual nos romances de inspiração estilística naturalista, os antecedentes de Isabel Moscoso, a facilmente resignada e ainda jovem viúva, aparecem em analepse, neste caso no capítulo II. A mãe desta, uma “chilena formosíssima, temperamento de fogo e coração de pedra” (Botelho, 1983: 37), fora abandonada, grávida, pelo homem por cuja paixão deixara a casa paterna e fugira para a Europa. O putativo pai de Isabel, Cristóvão Amaral Moscoso, boémio incorrigível mas ingénuo, deixara-se seduzir e enganar pela história contada pela bela aventureira, Pilar, que se lhe apresentara dizendo-se vítima de um naufrágio e lhe recusava os avanços carnais pretextando o voto de perpétua virgindade que na aflição do naufrágio havia feito, se sobrevivesse. Pilar morreria seis dias depois de dar à luz a protagonista do romance. Mesmo profundamente dececionado com a descoberta dessa inesperada e infame gravidez, o Amaral casara com ela in articulus mortis e assumira a paternidade da filha. Isabel era ainda uma adolescente, com 15 anos, quando se casa com Eusébio Penalva, que andava nessa altura pelos 50, ao qual será repetidamente infiel. Herdara o sangue ruim da progenitora, que, no entanto, não transmite à sua filha, a virginalmente romântica Susana.

          Apesar de suspeita de um comportamento licencioso, Isabel, ou melhor dizendo, D. Isabel, como quase todos lhe chamam incluindo o próprio narrador, é a mulher do momento em Lisboa. Os frequentadores do São Carlos parecem mais pendentes da presença ou ausência da mãe de Susana no Teatro do que da qualidade do espetáculo. Afastando-se de uma imparcialidade tão desejada como inatingível pela estética naturalista, o narrador classifica-a de “deslumbrante pecadora” (162).

          Há uma óbvia relação de parentesco de Isabel com o paradigma bovarista da mulher adúltera, mas enquanto em Madame Bovary e nos mais importantes romances que tematizaram o adultério na fase histórica do naturalismo, a intriga assentava no processo que conduzia à degradação moral da protagonista, em Fatal Dilema as primeiras aventuras eróticas extraconjugais são meramente sumarizadas, fixando-se o clímax no triângulo constituído por Isabel, Susana e Heitor, o amoral D. Juan do romance que a protagonista e o marido tinham conhecido em França, onde se dedicava à especulação financeira e aos jogos de azar. Como sucede com todas as heroínas bovaristas, também no caso de Isabel Moscoso a literatura romântica fora um elemento determinante para a sua degradação moral: “Aos 15 anos, já ela havia assimilado todo o insidioso veneno que instilam, pelas fascinadoras armadilhas do seu estilo, os livros de George Sand, Paul Féval, Arsène Houssaye, Feuillet, Sandeau e outros celerados sentimentais da mesma laia” (36).

          A distinção fundamental entre Isabel e as restantes personagens do romance não reside no espaço nem no relevo que lhe é concedido na economia da narrativa, mas no facto de ser a única que escapa a um tratamento narratológico estereotipado e tipificado. As páginas verdadeiramente determinantes do romance são aquelas em que o leitor acede à corrente de consciência de Isabel, que enfrenta um “fatal dilema”. A avidez sexual e o amor-próprio não lhe permitiam aceitar ser abandonada pelo amante, que apostava agora num casamento com Susana, que lhe resolveria os problemas económicos com que se debatia, mas a torpeza ética de Isabel não destruíra nela o amor maternal. Quando compreende que a filha está prestes a sucumbir ao assédio de Heitor, Isabel procura por meios pouco lícitos, que prejudicam inclusivamente a honra da filha, afastá-los um do outro; mas a fulminante doença de Susana — desencadeada pela descoberta da relação amorosa entre a mãe e Heitor — provoca na protagonista sentimentos de perturbação, angústia e remorso que pareciam ausentes da sua natureza egocêntrica. É, porém, demasiado tarde para inverter positivamente a situação. Na cena derradeira do romance, enquanto Susana se despede da vida envolta nos braços da sua mãe, Isabel descobre nos olhos da filha o reflexo do “fulminador anátema” (441) do velho Eusébio, que igualmente desistira da vida ao descobrir a traição da mulher.

 

Referências:

BOTELHO, Abel (1983). Fatal Dilema, texto estabelecido por Justino Mendes de Almeida. Porto: Lello & Irmão.

António Apolinário Lourenço