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BEATRIZ

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Autor: n/ identificado (capa da ed. publicada pela Empresa Literária Universal

BEATRIZ (Manuel Pinheiro Chagas, A Mantilha de Beatriz)

 

Protagonista de uma “comédia” contada a Calderón de la Barca por um narrador participante, Beatriz de Mascarenhas faz-se acompanhar, desde o título da obra, da peça de vestuário que dará azo a vários equívocos. Aliás, nesse diálogo entre Francisco e o grande dramaturgo espanhol adivinha-se já um autoelogio de Pinheiro Chagas ao seu opus (“O que eu admiro sobretudo nas suas comédias de capa e espada, sr. D. Pedro Calderón, dizia Francisco de Mendonça, é o engenho com que tece as peripécias mais complicadas, como enleia os fios do enredo que não se imagina como poderá desenlaçá-la”; Chagas, II, s.d.: 20)


          Educada sob o duro freio paterno, em pleno século XVII, um pouco suavizado pela cumplicidade de Inês, a criada, Beatriz surge diante aos olhos do leitor como uma menina frágil e casta, em constante sobressalto (V, 37: “Beatriz, uma loira gentil, cujas faces alabastrinas se rosavam à mais leve comoção”.). É, sem dúvida, um ser benquisto dos romances românticos e ultrarromânticos que aguça o travo sentimental e melodramático deste género de literatura, desde logo pela sua ingenuidade e pureza, bem como pelo temor em relação à figura patriarcal. Assemelha-se, nesse ponto, a Teresa de Amor de Perdição ou a Hermengarda de Eurico, o Presbítero, além de demonstrar o talento dramatúrgico de Manuel Pinheiro Chagas na delineação dos gestos e das tiradas das personagens.


          Debuxada a partir do “romance pastoril” e com traços dos retratos de “Gôngora” (IV, 30) – assim zomba Luís de Meneses da descrição estereotipada feita pelo amigo – a angelical personagem (IV, 29: “a mulher mais formosa, mais adorável” ) ostenta olhos azuis e umas tranças louras.


          A donzelinha vive um amor secreto com Francisco de Mendonça que, um dia, depois de ver a sua mantilha cair ao Tejo, se lança à água para a recuperar, guardando-a como recordação. Em troca, o enamorado envia-lhe “uma esplêndida mantilha preta semeada de palhetas de oiro” (V, 38), simbólica rede de um enredo complicado. Requestada, contudo, há muito por D. Estêvão de Portugal, vê-se na iminência de assistir a um duelo travado por um dos pretendentes e pelo próprio pai, D. Álvaro.


          Sem densidade psicológica digna de nota, assustadiça (VI) e a puxar à sentimentalidade piegas da leitora chorosa daquela época, a criação de Pinheiro Chagas foi inspirada na comédia calderoniana Antes que todo es mi Dama (1662), apesar de a técnica forjada ser a contrária, ou seja, Sebastião del Prado insta Francisco a contar a sua história para ser tornada em ficção (“Vamos, faça essa obra de caridade. Bem vê que D. Pedro Calderon está morto por transformar a história do seu casamento numa admirável comédia” Chagas, s.d.: II, 21.).


          A Laura de Calderón será transformada em Beatriz pelo autor português; enquanto a primeira recebe um toucado como prenda (vv. 726-728: “tan rica, estraña y bella / que es fuerza repare en ella mi padre”), a segunda recebe uma mantilha (V, 38: “— Não pode usá-la porquê? // — Porque meu pai não pode saber a proveniência desta mantilha e ela é tão rica, que não poderá deixar de lhe dar na vista...”.) A parecença física entre ambas é grande, mas não provém, como Luís de Meneses aventa, de influências gongóricas nem bucólicas. É bebida diretamente na heroína castelhana: “La blanca tez, a quien la nieve pura / ya matizó de nácar al aurora, / de ningún artificio se asegura” (vv. 307-309).

Em 1946, o cinema reabilitou A Mantilha de Beatriz / La mantilla de Beatriz, numa produção luso-espanhola (só parcialmente fiel ao romance) dirigida por Eduardo García Maroto e protagonizada pelas jovens Margarita Andrey (Beatriz) e Helga Liné (Clara). A estreia, no Cinema Trindade, a 16 de agosto desse ano, veio a revelar-se um enorme êxito, a somar-se a tantos outros obtidos por Pinheiro Chagas.

Em 1962, mais propriamente no dia 24 de julho, o romance é levado à cena por Carlos Wallenstein, no Teatro Popular de Lisboa, contando com encenação de Pedro Bom.

 

Referências:

Calderón de la Barca, Pedro (1662), Antes que todo es mi Dama, disponível em http://www.cervantesvirtual.com/obra/comedia-famosa-antes-que-todo-es-mi-dama-0/

[consultado a 01/01/2017]

 

Chagas, Manuel Pinheiro (s.d.), A Mantilha de Beatriz, Lisboa: Empresa Literária Universal.

Marisa das Neves Henriques