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ROSÁRIA

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ROSÁRIA (Francisco Teixeira de Queirós, Amor Divino)

 

Em obediência aos princípios naturalistas, Teixeira de Queirós centrou o romance Amor Divino (1877) na personagem Rosária, filha de Tomás do Monte, para proceder a um “diagnóstico e etiologia da santidade”, tal como assumido no prefácio da obra. Daí o seu sugestivo subtítulo: Estudo patológico duma santa.


          Teixeira de Queirós pretende, desta forma, proceder a uma análise objetiva do caso dos místicos que pretendem alcançar a beatitude e a santidade exclusivamente a partir de uma atitude contemplativa, alegadamente capaz de assegurar o êxtase religioso, sem procurar uma vida “fecunda na obra de caridade, que, dum modo real e positivo, se exterioriza pelo amor do próximo”. Assim, o autor procura uma postura isenta, equidistante relativamente às querelas seculares em que sempre se opuseram os panegiristas e biógrafos dos santos, por um lado, e os racionalistas e “apaixonados cultores da ciência moderna” (p. VII), por outro.


          Através de uma focalização neutral do narrador, mais evidente na segunda edição da obra (1915), assiste-se, por conseguinte, à transformação operada na personagem Rosária, que surge no início como uma rapariga “naturalmente recatada e pudibunda nas suas maneiras senhoris” (p. 5) e “tão atraente e tão gentil, [que] parecia apropriada a maiores destinos do que os de lavadeira” (página 5). Cobiçada pelos rapazes da aldeia pela sua graça, a verdade é que Rosária se transforma radicalmente quando três missionários se deslocam a S. Tomé de Refuinho e procedem a uma exacerbação fanática do espírito beato da população.


          As pregações realizadas por estes missionários provocaram uma crise de consciência em Rosária, agudizando os seus episódios de melancolia, conduzindo-a a rever a sua existência, pois ela “estava esmagada sob um grande peso, que era todo o seu passado da ignorância das práticas religiosas, que pela primeira vez ouvia bem explicadas. (…) Não perdeu uma só das missões do padre António. Foi eficaz e quase divina a impressão que daí recebera” (p. 72).


          O seu percurso de ascese mística entrou numa nova etapa, quando a personagem decide livrar-se do peso do seu pecado, procurando fugir dos demónios que lhe atormentavam as noites através de pesadelos confusos e obscuros e entregando-se aos cuidados do padre António. Assim, “durou sete dias, em cada um dos dias, cerca de duas horas, a confissão geral de Rosária” (p. 91).
Pouco tempo depois desta etapa crucial, “Rosária do Tomás do Monte era já considerada por toda a gente como a preferida do afamado missionário” (p. 100), que chegou a apresentar o seu caso, no seu último sermão local, antes de regressar a Braga, como um exemplo de virtude e dedicação religiosa. Na sequência desse discurso, “os olhos pasmados daquela gente rude já a contemplavam com um resplendor na cabeça, como o da Virgem que estava no altar” (p. 120), iniciando-se o percurso da sua beatificação popular.


          As pulsões místicas de Rosária tinham, no entanto, no amor do seu pai um enorme entrave, pois este, apesar do seu espírito simples, sentia que aqueles missionários e as beatas que os rodeavam estavam a privá-lo do são convívio com a sua filha, tendo procurado salvá-la, junto com o seu cunhado, “o Cerqueira, […] antigo mação, sempre de birra com padres e com tudo o que lhe cheirasse a patifarias” (p. 127), sobretudo a partir do momento em que Rosária passou a viver em casa de D. Maria, a velha beata proprietária do solar de Refuinho. Neste espaço, iniciaram-se os ataques convulsivos de Rosária, que, em situação de quase total jejum e abstinência, “tinha violentas contrações de todos os músculos” (p. 138). Para além disso, dado o seu encerramento no solar, onde se entregava todo o dia a súplicas e a rezas pela sua salvação, a sua aparência saudável degradou-se inexoravelmente e “o seu corpo tinha o volume dum magro cadáver” (p. 164).
Os ataques convulsivos de Rosária passaram a ser encarados como um espetáculo de devoção e entrega a Deus, sentindo o padre António esses momentos como uma glória pessoal na sua carreira eclesiástica, por ter sido ele o responsável pela orientação espiritual desta ovelha tresmalhada. Segundo o mesmo, “era este um movimento anagógico da alma da sua confessada, que lhe devia ter ela entrado na contemplação das coisas divinas. Este efeito da prece e das jaculatórias, muitas vezes repetidas, demonstrava-lhe a ânsia daquele espírito na ascese e era sinal certo de que tinha entrado no seio de Deus” (pp. 158 e 159).


          Esta personagem, integrada neste romance da série “Comédia do Campo” tem um fim previsivelmente trágico, que o autor, leitor de Balzac, médico de formação e Presidente da Academia das Ciências de Lisboa, na altura da reformulação do romance, descreve na sua mais absoluta crueza, através dos detalhes das exéquias fúnebres e do absurdo que as mesmas representavam.

Carlos Machado