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SALÚSTIO NOGUEIRA

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SALÚSTIO NOGUEIRA (Francisco Teixeira de Queirós, O Salústio Nogueira)

A personagem central do romance homónimo de Teixeira de Queirós (escrito originalmente em 1883 e sujeito a uma “nova edição, completamente refundida”, em 1909) obedece ao propósito, assumido pelo autor no subtítulo da obra, de proceder a um “Estudo de política contemporânea”. Através do caso exemplar deste personagem, apresentado como “conhecedor de todas as falsidades, apto para todas as corrupções” (página 137, volume I), o autor pretende demonstrar de que forma um “filho de um obscuro camponês, havia de, com tanta sorte, adquirir importância e ingresso entre políticos e pessoas da corte, íntimos de el-rei!” (página 165, volume I). Dessa forma, Salústio Nogueira constrói um percurso político que o levará desde a modesta posição de Administrador do Concelho, em Braga, até Ministro da Marinha, passando pelo cargo de deputado.


          Nessa medida, a descrição do percurso de Salústio Nogueira é posta ao serviço da tese naturalista do romance de Teixeira de Queirós: o caso paradigmático deste personagem, assumido leitor d’O Príncipe de Maquiavel (página 202, volume I), revela que a progressão política depende da absoluta falta de escrúpulos, da radical ausência de princípios morais e do mais cabal oportunismo. O seu pragmatismo leva-o a defender que o homem de Estado digno desse nome “deverá na prática «pôr sempre o interesse acima da justiça»”, assumindo a total ausência de princípios que norteiem a sua ação, preconizando a ideia de que “as teorias fizeram o seu tempo” (páginas 183-184, volume I).


          O seu percurso político inicia-se na Universidade, em Coimbra, quando se destaca, pois “os seus engenhosos processos de roubar as votações tiveram celebridade entre os próprios lentes, seus amigos. Impingir listas, substituir urnas, fazer protestos, sofismar a lei, pedir votos prometendo mesadas da Philantropica, fomentar desordens para anular o ato eleitoral, quando este lhe poderia ser contrário… eram coisas que executava com presteza e talento” (páginas 27 e 28, volume I). Já nessa fase da sua vida, o personagem assumia “o seu grande fim, o fim [da] sua vida, que era – fazer carreira política” (página 28, volume I). Para singrar politicamente, iniciou a carreira com um cargo na província, integrando-se na vida pacata da cidade de Braga. Aí, acaba por seduzir Angelina, filha de Pedro Alves, um merceeiro da Rua dos Chãos, convencendo-a a fugir com ele para Lisboa, graças à falsa promessa de um casamento que nunca viria a realizar-se. Na sequência desta fuga e da perdição moral que a mesma representava, a família de Angelina abandonou a cidade e os seus negócios, indo recolher-se, numa espécie de exílio envergonhado, numa aldeia afastada da urbe. Chegado a Lisboa, Angelina é forçada a autoanular-se, vivendo afastada dos centros de relações sociais de Salústio Nogueira, como se de uma vulgar concubina se tratasse, apesar de haver uma filha em comum.


          A denúncia da crueza de espírito deste político, que assume que “o dinheiro tudo pode, pelo dinheiro tudo se move” (página 182, volume II), atinge o seu paroxismo com o seu anunciado casamento com Palmira Freitas, a filha de um riquíssimo comerciante lisboeta, que lhe garantiria a riqueza económica que ele não tinha, aliando-a à sua excelente posição social, advinda da sua nomeação para o cargo de ministro, em resultado dos seus negócios pouco escrupulosos com o conde de Frazuela, diplomata e seu protetor. Este sucesso, contudo, não deixa de estar associado às mortes que ficam pelo caminho – Angelina, por um lado, e o Ministro de Guerra, por outro, que se suicidam ambos, quais despojos de guerra ou danos colaterais, em resultado da falta de princípios morais de Salústio Nogueira, tanto na vida pública, como na vida privada.


          Salústio Nogueira é apresentado, assim, por Teixeira de Queirós, leitor de Balzac e conhecedor do sistema político (também ele foi deputado, no estertor da Monarquia, e Ministro dos Negócios Estrangeiros, depois da implantação da República), como representante de uma ordem social decrépita, a do constitucionalismo monárquico, que foi um dos alvos preferenciais da sátira criada na série de romances designada de “Comédia Burguesa”.


          Esta personagem será retomada no romance seguinte da série “Comédia Burguesa” – D. Agostinho (1894) – que se inicia com o falecimento de Liôncio de Mértola, sogro do agora Conselheiro Salústio, num momento em que Palmira está grávida. Este momento é a consagração da personagem, que vê concretizados os seus objetivos de deter riqueza e poder.

Carlos Machado