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WHITESTONE, Carlos

WHITESTONE, Carlos (J√ļlio Dinis, Uma Fam√≠lia Inglesa: Cenas da Vida do Porto)

          Carlos é a personagem central do primeiro romance escrito por Júlio Dinis (entre 1858 e 1862), publicado no Jornal do Porto, em folhetins, em 1867, com o título de Uma Família de Ingleses, alterado, na edição em livro (1868), para Uma Família Inglesa: Cenas da Vida do Porto.

          Este título, de recorte realista, indica que a matéria romanesca se inscreve no clima ético-social de uma família – a do probo, rico e empreendedor negociante, Mr. Richard Whitestone –, enquadrada na “vida” do Porto (com grande presença inglesa), representada em cenas, ou seja, em quadros colhidos no real. Constituem-na, além do patriarca (cultor da “face positiva da vida” e austero observador dos princípios britânicos de decoro e respeito às regras), os seus filhos, Jenny e Carlos, muito amigos (Jenny, um pouco mais velha, é junto do irmão uma presença maternal), ambos de coração excelente, mas de índoles e comportamentos distintos: à sensatez branda mas tenaz da gentil “lady”, “anjo” organizador e harmonizador da casa, contrapõe-se o temperamento estouvado de Carlos, pouco dado ao trabalho e a hábitos regrados (daí a tensão frequente entre ele e o pai, que todavia se amam). Diz o narrador do romance (que se dá como seu autor), ao evocar o protagonista no prólogo em que apresenta os Whitestone antes de iniciar a ação, que Carlos (nascido em Portugal) se ressentia de uma espécie de nacionalidade dupla, pois se inglês pelo sangue, era meridional pelo clima onde se criara: da Península recebera “a viveza de imaginação, a impetuosidade de sentimentos”; vinham-lhe da Grã-Bretanha “a pertinácia, o estoicismo”; “corajoso até à imprudência, liberal até à prodigalidade […], os seus maiores defeitos não passavam de nobres qualidades, levadas ao excesso”.

          A história narrada, “singelíssima”, gira em torno do casamento de Carlos, desenvolvendo-se de forma inovadora num tempo diegético curto mas lento, com o fio da ação constantemente sustido por comentários e descrições do narrador e pelas referidas cenas a interligarem atmosferas e personagens. O showing torna-se um recurso/chave do romance: assim, a construção ficcional do protagonista, muito obtida por caraterização indireta, mostra-no-lo atuando em contextos múltiplos, interagindo com outras personagens, traindo por sinais exteriores (atitudes, gestos, inflexões de voz) os cambiantes do sentimento, imergindo em discurso mental. Elucida o narrador, numa das suas intromissões metadiegéticas, que só demorou o leitor na cena do “jantar de rapazes” no Águia de Ouro pela “necessidade que tinha de mostrar em ação o caráter do […] herói e exemplificar o seu sistema de vida e sua companhia habitual”. Uma Família Inglesa, apoiando-se neste modo, então incomum, de erigir carateres, investe na exploração psicológica (até do subconsciente e do onírico).

          Nessa cena, colocada no Carnaval de 1855, Carlos mostra o seu lado estroina, mas também a sua delicadeza interior, quando da algazarra com amigos segue, bisonho, para um baile de máscaras no teatro de S. João: recebera um bilhete da irmã a lembrar-lhe que faltara ao jantar de família para comemoração dos seus vinte anos. Na urdidura sincopada do romance, decorrem três capítulos (em que assistimos na residência Whitestone, na manhã seguinte, a episódios que exemplificam o viver britânico, saudável e filantropo) até sabermos, pelo diálogo que os irmãos travam na patusca desordem do quarto de Carlos, o acontecido na noite carnavalesca – origem de quanto vai passar-se: encontrara uma jovem, usando dominó, que o impressionara pela gentileza; querendo descobrir onde morava, tentara reconduzi-la a casa, mas fora proibido de se aproximar demasiadamente; para compensar-se, roubara-lhe um beijo. Esta ignorância da identidade da mascarada instaura na ação um longo suspense: mais uma leviandade do irmão, pensa Jenny; mas a portadora do dominó persiste na fantasia de Carlos, em luta com reservas suscitadas pelo lugar pouco idóneo onde a encontrara: embora boémio, ele reverencia a ordem moral e social aprendida na família.

               Até resolver-se parte do mistério, conhecemos mais facetas do herói, da situação romanesca inculcada e da época e espaço coevos. Eis Carlos, elegante e jovial, com o seu buliçoso terra-nova, na animada Praça comercial do Porto, cuja “fisiologia” o narrador descreve; se um barão e um brasileiro lhe chamam “maganão” e “cabeça-de-vento”, ele mostra sagacidade crítica em diálogos reveladores de aspetos, bons e maus, do contexto político-social da Regeneração (nepotismo, melhorias materiais, operações mercantilistas); também o vemos no escritório Whitestone, não a trabalhar, mas a perturbar com traquinices o esforçado guarda-livros, Manuel Quintino, que o considera contudo “bom rapaz”. Simultaneamente, as constrangidas confidências que a filha deste, Cecília, faz a Jenny, sua amiga e conselheira, identificam-na como o dominó que encantara Carlos, mantido fora do segredo porque ambas receiam os seus “caprichos” donjuanescos.

          Em tempo paralelo, novas cenas trazem dados sobre as personagens, as suas interrelações, as atmosferas em que evolvem. É o caso dos serões familiares a que assistimos, um, na modesta (mas de bom gosto) sala de estar de Quintino (que conversa com a filha e um amigo, José Fortunato), outro, no conforto elegante da casa Whitestone (caps. XIII e XV). Estes serões ilustram a desigualdade social entre Cecília e Carlos, mas insinuando que algo os prende já: ela trai o seu interesse pelo jovem ao reagir, quase só por gestos, aos elogios do pai à sua abnegação (“É capaz de tirar a camisa do corpo para socorrer um pobre”) e às acusações de Fortunato à sua vida sem rumo e aos seus maus costumes; no serão inglês, uma conversa entre Jenny e o irmão deixa entrever neste, sob a obsidiante imagem do dominó, alguma vontade de regeneração, já documentada no cap. XIV, de feição tão moderna: aqui, o narrador, após referir a “ansiedade” com que Carlos procurara a desconhecida, mostra-o internando-se na periferia do Porto, enlevado com a “atmosfera balsâmica” da natureza e a alegria das raparigas do campo, até cair numa “rêverie”, em cujo discurso mental assoma o cansaço da vida citadina e a aspiração a outra mais autêntica, partilhada com uma mulher que amasse, estimando-a; nesse cismar – continua o narrador colado à personagem –, pousa os olhos na varanda de uma vivenda simples, onde uma mulher punha roupa a secar em movimentos graciosos; e ele apetecia os “mundozinhos modestos” que imaginava por detrás daquele vulto… Só no cap. XVI (estamos a meio do romance e apenas dois dias decorreram) o herói descobre, porém, casualmente, quem era a mascarada. Ao seu espanto – porque nunca vira em Cecília senão uma rapariga bonita – o narrador dá-nos um acesso “surrealístico”: seguindo “atrás da imaginação” de Carlos, mostra-o, no quarto, a traçar desenhos “indiscretos” com uma mão automática, desligada da razão (cap. XVII).

          Entramos em nova fase diegética – o enamoramento dos jovens, sob o olhar perscrutador de Jenny. Após a visita de Carlos à moça para solicitar-lhe perdão do seu proceder, ambos, atraídos, se transformam. O estroina perde os hábitos citadinos e cai nas puerilidades dos enamorados, comentadas humoristicamente pelo narrador (“Temo de fazer crónica do que se passou em Carlos nos dias sucessivos […] porque, em tudo, pouco se nos deparará digno de um herói de romance”). Cecília, que sabe quão diferente condição tem, entra numa tristeza que aflige o pai. O mútuo encantamento avoluma-se com o convívio que lhes permite, na casa de Quintino, o colapso que o pôs de cama, vítima da mentira de uns folgazões, em “dia de enganos”, sobre uma indisposição da filha. Carlos, prestigiado pelo socorro prestado ao guarda-livros, passa então doces serões ao lado da jovem, que recupera a alegria: ela, tratando do pai e costurando, como boa “doméstica”, ele, recebendo do doente cómicas lições de gestão comercial para substituí-lo no escritório. E aplica-se ao trabalho, revelando talento para tarefas que Quintino considerava complexas e ele resolúveis por métodos que simplificavam os tradicionais, venerados pelo “mestre”: Carlos torna-se um dos representantes dinisianos do espírito inovador frente ao conservadorismo dos idosos.

          A área final do romance é mais “novelesca”. Entre cenas e sumários, o narrador mostra circunstâncias, pitorescas ou melodramáticas, que enredam os enamorados e geram suspenses (com recurso à focalização externa): Carlos recusa visitar a família inglesa de uma miss que o pai desejava para nora; magoa Cecília ao faltar, nesse dia, à festinha preparada para celebração da saúde recuperada por Quintino; põe em risco a reputação da jovem com visitas frequentes e uma carta de amor; visto a sair da residência Whitestone com uma mulher, é acusado de devasso por um caricato par de tipos populares (a criada de Cecília e Fortunato); também é inculpado pelo pai, que encontra à venda o relógio que lhe oferecera pelos seus vinte anos; antigos amigos, curiosos sobre quem fizera sumir o estroina Carlos de cafés e teatros, invadem-lhe a casa quando Cecília, que logo tomam pelo dominó do baile, atravessa o jardim (Jenny convidara-a para o seu jantar de anos): subtraindo-a à turba, Carlos introdu-la no seu quarto…

          Tudo se esclarece de um modo que prova a “dupla nacionalidade” do herói: impulsividade de meridional, estoicismo de britânico. Se recusara visitar os amigos ingleses e a tal miss, fora por ter prometido a Cecília ir à festa de Quintino; se a esta faltara, fora por ter acontecido algo mais importante na sua hierarquia de valores: a agonia da velha ama Kate, a reclamá-lo na hora derradeira; se, interrogado, afirmara inocência, só invocando a honra para não se explicar, fora para esconder que socorrera, vendendo o relógio, a mãe de um caixeiro do escritório que viera implorar-lhe ajuda para cobrir o desfalque cometido pelo filho.

          A grande artífice da solução dos imbróglios é Jenny, a “fada” do lar, que nunca duvidou da hombridade do irmão e se convenceu de que ele amava sinceramente. Mas quanta diplomacia lhe é precisa para obter o “happy end”, dobrando os preconceitos de classe do pai (até o tornar um aliado generoso) e preparando a opinião pública do Porto burguês, pouco capaz de admitir que o filho dum patrão rico desposasse por amor (e não para encobrir desmandos) a filha de um assalariado, mesmo se bonita e virtuosa!

          No processo de metamorfose e casamento do polifacetado Carlos, Júlio Dinis dá assim inovadora figuração narrativa ao seu otimismo moral, crente na bondade perfectível, na concórdia social viável, nos valores estruturantes da família, na capacidade regeneradora do trabalho e da simplicidade natural.

Ofélia Paiva Monteiro