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SOARES, Joaquim

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Autor: Edição Lello

SOARES, Joaquim (Luís Cipriano Coelho de Magalhães, O Brasileiro Soares)

      

    Joaquim Soares é uma figura ímpar no tipo literário do brasileiro. Inegável protagonista de O Brasileiro Soares (1886), é, na obra, a única personagem impoluta. O “mestre” Eça de Queirós, a quem é dedicado o romance (ou novela longa) e que lhe consagra uma carta-prefácio, considera que o autor, Luís de Magalhães, mostra “no antigo tipo do Bruto a possível existência do Santo” (Queirós, 1980: 21). Asseverando que Magalhães “desbrasileirou o brasileiro”, Eça alude certamente às novelas de Camilo, como Os Brilhantes do Brasileiro - atribuindo ao tipo um “colete amarelo” (17), adereço pertencente ao camiliano Fialho, e que Joaquim jamais vestirá.

          Soares constitui deveras uma deslexicalização do torna-viagem rico, soez e boçal, tipo vivaz de fatura nacional, desde talvez Filinto Elísio. A história decorre no Brasil (mas com ambiente e personagens lusas) e no Minho, a que Joaquim regressa, enriquecido após décadas de labor intenso. Na sua aldeia natal, a Guardeira, Soares ajuda a comunidade, compra a quinta e o palacete da Cardenha, triunfa em novos investimentos e casa com a bela sobrinha Ermelinda. Em breve é traído por ela, que acaba por fugir com o amante, administrador do concelho de Bouças, que o brasileiro, na sua imensa boa-fé, acolhia no solar. Reconhecendo finalmente a sua ingenuidade e as próprias qualidades de sinceridade e retidão, incompatíveis com a vida, Joaquim suicida-se.

          Em adesão indefetível ao protagonista, o narrador omnisciente usa raramente a ironia, cuidadosamente doseada e sempre compassiva. O monólogo interior assegura frequentemente esta empatia; e a caracterização do protagonista pelas outras personagens reforça a fiabilidade do narrador.

          Remotamente aparentado a Candide, Soares é, como ele, a encarnação incontestável de um caráter. Porém, desmentindo a caracterização do ingénuo de Voltaire (“Sa physionomie annonçait son âme”), Joaquim apresenta absoluta contradição entre o físico e a alma. A probidade, a humildade, a diligência, a generosidade e a afetividade – coexistem nele com uma fisionomia grotesca. Este contraste é grandemente responsável pela tonalidade realista e pela conceção “mimética” da sua caracterização, sublinhadas por Eça: “V., esquecido da Retórica, (…) chega a esta monstruosidade: tem um herói que ama ardentemente, que morre desse amor, e que usa grossas suíças!” (19).

          Aos dezasseis anos, “ele era um minhoto atarracado, de largos ombros, bíceps de atleta, tórax saliente, e o pescoço curto e grosso, como o dos valentes bois do Barroso. (…): mas no seu olhar havia um não sei quê de bondade infantil que atenuava o aspeto desagradável dessa face quase alvar (…)” (Magalhães, 1980: 25-26). Tomando enfim consciência de si, aos cinquenta, já grisalho, mira-se ao espelho e o seu autorretrato (“Achou-se hediondo e teve para a sua fealdade uma gargalhada de desprezo, digna de Diógenes”; 145) confirma-lhe a coerência. Entre os dois retratos, joga-se a dinâmica interna da personagem. Infalivelmente feio, ingénuo traído pelo mundo, atinge a sabedoria no momento da morte voluntária: como uma autoimolação.

          É recorrente a sua aproximação à figura do boi. Descontando possível alusão maliciosa, Soares é realmente bovino: levemente ogresco, como S. Cristóvão serviçal, forte, sensível e submisso, as qualidades de abnegação, resistência e rusticidade garantem-lhe uma vocação sacrificial. Do touro tem, contudo, a ira temível, como bem testemunha Lucas Pinto e adivinha Ermelinda (121). Íntegro e monolítico, sanguíneo e forte, pode assim Soares simbolizar uma forma elementar de virilidade.

          Joaquim veicula ainda sentidos éticos, políticos e socioculturais. Contrastando com o materialismo, corrupção e ceticismo generalizados, representa um bom zé-povinho, um ideal de mobilidade social pelo trabalho honesto, ou os valores civilizadores do capitalismo burguês (veja-se o seu êxito na atividade agrícola e industrial), com preocupações assistenciais e repudiando tanto os vícios da política como o revanchismo social. Desgraçadamente, Soares não tem “gosto”: não se poupa a despesas na reforma do solar, destruindo preciosidades antigas e judiciosamente conferindo-lhe “um aspeto interior burguês e incaracterístico” (52). Emotivo, não escapa ao sentimentalismo romântico – através de insistentes descrições clínicas de alterações somáticas.

          Em discurso doutrinário, Luís de Magalhães considera que ao realismo de Zola, “exclusivamente analítico”, falta uma dimensão epistémica, generalizadora (apud Ribeiro, 1994: 279-280). Vigorosamente individualizado e absolutamente destacado das outras personagens, o seu brasileiro, herói de tónus mítico e romântico (embora feio), reatualiza um modelo antigo. Como herói, as qualidades excecionais distinguem-no; provém de família bafejada pela Boa Sorte; abandona cedo o lar para longe, sofrendo longamente trabalhos duros, triunfando sobre demónios tentadores; provedor dos humildes, persegue o Bem e a Verdade, em conflito trágico com a realidade; e, finalmente, como tantos heróis, sucumbe à traição feminina.

          No sorriso derradeiro (146), a santa ironia espiritualiza-o: embelezam-no finalmente a morte, a sabedoria e o perdão.

 

Referências

          MAGALHÃES, Luís de (1980). O Brasileiro Soares. Prefácio e atualização de texto de Clara Rocha. Lisboa: IN-CM.

          QUEIRÓS, Eça de (1980). “Carta-prefácio”, em Magalhães, Luís (1980). O Brasileiro Soares, op. cit., pp. 15-21.

          RIBEIRO, Maria Aparecida (1994). História Crítica da Literatura Portuguesa. Volume VI. Realismo e Naturalismo,

           coord. de Carlos Reis, Lisboa/ São Paulo: Verbo.

          ROCHA, Clara (1980). “Introdução” a O Brasileiro Soares, op. cit., pp. 7-14.

          VOLTAIRE. Candide (http://www.ebooksgratuits.com/blackmask/ voltaire_candide.pdf)

Ana Luísa Vilela