• Precisa de ajuda para encontrar algum conteúdo?

Daniel João

Daniel_Joao_Rumor_Branco.jpg
Autor: Assírio & Alvim

Daniel João (Almeida Faria, Rumor Branco)

Daniel João é o protagonista de Rumor Branco, primeiro romance de Almeida Faria. Publicada pela primeira vez em 1962, a narrativa se desenvolve em sete fragmentos unidos pela figura central do protagonista. A obra recebeu o Prêmio Revelação da Sociedade Portuguesa de Escritores e contou com um prefácio de Vergílio Ferreira que garantiu o reconhecimento crítico à singularidade do livro. As afirmações de Vergílio Ferreira seriam contrapostas por Alexandre Pinheiro Torres em uma sequência de debates publicados no Jornal de Letras e Artes, de janeiro e fevereiro de 1963, e mais tarde insertos em várias edições do romance. Em 1970, Almeida Faria publica uma segunda edição com alguns ajustes e modificações.

Daniel João é uma personagem profundamente marcada pelo desencanto; aleijado, quinto filho de uma família pobre, torna-se prisioneiro político durante o regime do Estado Novo. No dia em que seria libertado, num gesto extremo de negação e ruptura, queima o diário que escreveu no tempo de permanência na prisão e se suicida. Sua morte é uma síntese da tensão existencial e política que atravessa a narrativa de Almeida Faria.

O romance é composto por sete fragmentos que são organizados de forma simbólica. Ao longo desses fragmentos revela-se uma divisão interna de Daniel João: primeiro ele é Daniel, o velho desencantado e resignado; depois, é João, o novo, insurgente, em busca de um sentido para a existência. Nos três primeiros fragmentos, predomina a voz de Daniel, marcado pela amargura e pela descrença. Nos três últimos, João ganha força, revelando uma tentativa de reconstrução ou resistência. O quarto fragmento, central, funciona como um ponto de viragem, onde se manifesta com mais clareza o conflito entre as duas dimensões do eu, em descobertas de experiência amorosa e eróticas, também cultural e social. Em diversos momentos da narrativa aparece a dualidade do pensamento de Daniel João sobre sua própria identidade/existência: “O meu nome é Daniel João. pouco mais sei. procuro saber.” (Faria, 2012: 53); ou: “O meu nome é Daniel João e ignoro quem eu seja. gostava de saber.” (64).

Rumor Branco é entendido como um romance introspectivo que explora questões existenciais e as fraturas da identidade. Esses elementos podem ser percebidos também na construção do nome do protagonista. Existe em Daniel João uma importante carga simbólica. Ao reunir nomes de importante conotação bíblica, Almeida Faria estabelece desde o início a tensão entre profecia e sacrifício, aspectos que se refletem profundamente na trajetória interior da personagem.

Daniel é o profeta do exílio, o visionário que, mesmo cativo na Babilônia, mantém sua fé inabalável. É o homem que interpreta sonhos, sobrevive à cova dos leões, e cuja fidelidade a Deus o coloca em oposição aos poderes humanos considerados tirânicos. Em Rumor Branco, Daniel, a primeira parte do protagonista, representa o lado velho, rígido, esgotado pelo desencanto. É um indivíduo que perdeu a fé, pois viu muitas tristezas e não suporta mais o fardo de esperar pela redenção.

João, segunda parte do protagonista, remete para São João, apóstolo que escreveu o Livro do Apocalipse e o que anuncia a vinda de Cristo, pregando a conversão. João simboliza a renovação e o anúncio de novos tempos; ainda a visão do fim, mas com esperança de algo novo. João representa o lado novo, revolucionário, que ainda sonha ou resiste, mesmo entendendo que o fim será trágico. Assim, se revela no nome composto Daniel João, o conflito entre o passado e o futuro, resignação e esperança, lucidez e fé. Quando Daniel é maior há a prevalência do desencanto; quando João é maior, percebe-se nuances de resistência e de impulso vital.

Cleonice Berardinelli aponta que afirmar que há dois Daniel João não pode ser entendido como um julgamento; “que o amante de Graça na noite lisboeta seja o mesmo que anda no pinhal alentejano, com Maria da Pureza, ou que desce a uma cave de Paris em companhia de Kerstin: os três são significados diversos do significante Daniel > João, cada um com sua «estória» particular” (Berardinelli, 1973: 36). E ainda: “Assim também o menino aleijado, quinto filho duma família quase miserável, não nos parece que se possa identificar com o prisioneiro político que queima seu diário e se mata no dia em que vai ser posto em liberdade; cada um também tem sua pequena «estória».” (Berardinelli, 1973, p. 36).

A proposito da escrita de Rumor Branco, Almeida Faria comenta: “Nos primeiros três capítulos (primeira parte), o protagonista Daniel João – nome ligado à tradição bíblica: Daniel o profeta, João o Baptista – é um estudante universitário; na segunda parte assistimos ao nascimento de um rapaz com o mesmo nome, mas aparentemente sem nada a ver com o anterior: nasce num bairro da lata em Lisboa, filho de proletários. O último capítulo é um diário escrito na prisão sem que se diga qual o Daniel João que escreve.” (Pinto, 2017).
A queima do diário e o suicídio, no dia da libertação, revelam um colapso dessa conjugação de personalidades. Diz o narrador no último fragmento sobre a natureza dos escritos do protagonista, que se não tivessem sido queimados poderia se perceber que não se tratava bem de um diário, mas sim “quase contraditórios fragmentos dum destino de homem hipoteticamente de hoje ou do futuro” (101). A tensão entre Daniel e João acaba por implodir, sem que nenhuma das duas forças possa triunfar. É a realidade histórica e existencial que se impõe. Abre-se o sentido de “rumor branco”, como o possível ruído final de uma vida sem reconciliação.

 

Referências

BERARDINELLI, Cleonice (1973). "«Rumor Branco», um romance de auto-representação", in Colóquio/Letras, 13, maio, pp. 32-39. Disponível em https://coloquio.gulbenkian.pt/cat/sirius.exe/issueContentDisplay?n=13&p=32&o=p (acesso a 5.1.2026).

FARIA, Almeida (2022). Rumor Branco. Lisboa: Assírio e Alvim.

PINTO, Diogo Vaz (2017). “Almeida Faria. ‘Já tenho uma ideia do que quero fazer no pouco tempo que me resta’” [entrevista], in Sol, 12 de março. Disponível em https://sol.sapo.pt/2017/03/12/almeida-faria-ja-tenho-uma-ideia-do-que-quero-fazer-no-pouco-tempo-que-me-resta/  (acesso a 5.1.2026).

[publicado a 5.1.2026] 

Gabriela Silva