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Capitão Gallagher

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Autor: Capa da edição Moraes (1978)

Capitão Gallagher (José Cardoso Pires, O hóspede de Job)

Eustace H. Gallagher, ou Capitão Gallagher, é uma personagem do romance O Hóspede de Job (1963), de José Cardoso Pires. Militar norte-americano em visita à Vila de Cercal Novo, no Alentejo, representa a ameaça estrangeira em um país marcado pela miséria. É ele o hóspede a que se refere o título em “uma contradição irónica nos termos por que se define: Job, figura extrema da pobreza, recebendo e sustentando um hóspede rico (o capitão Gallagher)” (Torres apud Pires, 1964: 177).

O capitão vem a Portugal para apresentar um novo material de guerra aos militares portugueses, cuja demonstração de uso terá um resultado trágico: um projétil atinge o cavador João Portela que, devido à gravidade do ferimento, tem uma perna amputada. Contudo, apesar de ser o responsável por este infortúnio, o estrangeiro não tem sua vida abalada pelo mal que causou, cabendo aos locais (militares ou civis) ajudarem o jovem aleijado: “Especialista de armamento e de guerras, traz consigo a arrogância e a luta. E, ao abandonar a terra de Job, levará como presente a dor dos camponeses” (Cruz, 1972: 35).

A personagem é construída explicitamente em oposição a João Portela – “Gallagher escrevia seu relatório sem os ouvir. (…) A páginas tantas, bebeu uma golada de whisky e veio à janela tomar alento. Lá em baixo, num muro de cicatrizes, Job contemplava, com os olhos mudos, o cair da tarde (…)” (Pires, 1972: 164) –, mas não só. Sendo Portela entendido como uma personagem típica, a dinâmica de contrastes estende-se à categoria que Portela representa e que é evocada também por outras personagens, por exemplo: “Gallagher lembra-se da garota de cabelos de estopa que, num café de Cercal Novo, lhe entregara por oitenta e cinco cêntimos uma espoleta [de granada], um temível pedaço de morte capaz de destruir um Paton ou um ninho de adversários. / «Bravo soldadito, nice kid…»” (174-175).

As dualidades, porém, não se restringem às discrepâncias socioeconômicas, abrangendo também a falta de humanidade que a figura do capitão suscita, oposta à empatia dos portugueses. Tal característica é reforçada pelo seu subordinado direto, o sargento conhecido por Alabama Jackie: “«Tem os vícios da guerra», disse o tenente. «Tanto se lhe dá que uma granada de ricochete limpe meia dúzia de casas como não. (…) Em guerra compreende-se, mas aqui é preciso proteger as populações. Nós é que sabemos o terreno que pisamos.»” (105). Outrossim, para enfatizar tal aspecto, Gallagher é descrito como uma criatura bestializada, cuja identificação como ser humano chega a causar estranheza: “Em primeiro lugar, uns dentes miúdos – de toupeira, possivelmente; depois duas mãozinhas sapudas (…). Um ser completo que vomitava sons estranhos, coisas incompreensíveis. «You see, meo colonel?» Era realmente um homem, um estrangeiro fardado e de barba ruiva.” (103-104).

Assim como João Portela, é possível entender o próprio Gallagher como uma personagem típica “nessa representação extrema dos extremos que concretiza ao mesmo tempo o cume e os limites da totalidade do homem e do período” (Lukács apud Reis, 2018: 512). O capitão é um símbolo do imperialismo norte-americano, tópico particularmente relevante no contexto histórico e social em que a obra foi escrita, isto é, entre os anos de 1953 e 1954; que fomenta a destruição enquanto lucra com isso – “«Não ouviu ontem o Guélar? (…) Que em toda a guerra não encontrou material que se comparasse a este.» / «Pudera… Foram eles que o fabricaram.»” (Pires: 1972: 73).

O Capitão Gallagher, portanto, alegoriza a exploração, ciente da sua posição de privilégio e de poder, para quem Portugal é um possível entretenimento: “«Este pequeno país», escrevera ele à mulher, em Kalamazoo, Michigan, «é uma verdadeira praia a todo o comprimento (…). Já imaginaste o que seriam umas férias aqui com os pequenos? A vida é barata e tranquila, e os portugueses, embora tristes, são acolhedores.»” (171). A personagem expõe, assim, as assimetrias nas relações de poder, temática constante da escrita cardoseana.

 

Referências

CRUZ, Liberto (1972). José Cardoso Pires. Lisboa: Arcádia.

PIRES, José Cardoso (1964). O Anjo Ancorado. Lisboa: Moraes Editores.

____ (1972). O Hóspede de Job. Lisboa: Moraes Editores.

REIS, Carlos (2018). Dicionário de Estudos Narrativos. Coimbra: Almedina.

Gabriella Campos Mendes