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Tertuliano Máximo Afonso

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Autor: Jake Gyllenhaal como Tertuliano Máximo Afonso

Tertuliano Máximo Afonso (José de Sousa Saramago, O homem duplicado)

Tertuliano Máximo Afonso é o protagonista do romance de José Saramago O homem duplicado (2002), que está inserido no conjunto das obras usualmente designadas como de temática universal. Trata-se de uma história envolta em suspense, quase policial, e que termina com a viabilidade da morte, na qual o autor retoma a questão do duplo.

A personagem é figurada como um solitário e depressivo professor de História do ensino secundário e que tem a sua rotina alterada, ao descobrir que existe uma cópia exata de si mesmo, ou vice-versa, em atuação no cinema, como ator coadjuvante. Já nas primeiras páginas da narrativa, o leitor percebe a crise interna em que a personagem vive, até mesmo em relação ao seu nome. Tertuliano apresenta “no seu bilhete de identidade um nome nada comum, de um sabor clássico que o tempo veio a tornar rançoso” (Saramago, 2018: 9). O narrador ainda acrescenta: “Todos eles, por casualidade ou coincidência, formando parte do sexo masculino, mas nenhum que tivesse a desgraça de chamar-se Tertuliano, e isso terá decerto representado para eles uma impagável vantagem no que toca às relações com os próximos” (10). Assim, “seu nome é o espelho de sua vida. Ter esse nome já é uma desgraça, portanto ele é vítima de seu nome e da vida” (Ferraz, 2012: 301).

Tertuliano Máximo Afonso tem 38 anos, apresenta feições harmoniosas e um bom aspecto, com características físicas de um ator galã; mora num apartamento simples e destina seu tempo livre a ler sobre as antigas civilizações mesopotâmicas. Recém-divorciado, mantém um relacionamento inconstante com Maria da Paz, uma funcionária bancária. Sua vida monótona se modifica quando um seu colega de trabalho faz a recomendação de um filme chamado Quem porfia mata caça. O que era para ser uma comédia para distrair, acaba por se tornar um filme de terror para a personagem. Nesse filme, Tertuliano descobre que o ator António Claro é seu sósia. Para tanto, age como um investigador e, ao longo de cinco capítulos, assiste a fitas de vídeo, faz anotações e escreve uma carta à produtora de cinema; somente depois de semanas, consegue desvendar o nome do seu duplo. A partir desse fato, Tertuliano faz de tudo para encontrá-lo, o que desencadeia a questão do duplo, como se a existência do outro ameaçasse a sua própria existência.

Nesse contexto, a personagem retrata a crise de identidade do indivíduo contemporâneo, um aspecto determinante para a compreensão da humanidade e das sociedades humanas. Lança-se, assim, “o desafio de se perceber a dimensão plena e mesmo o sentido último dessa inusitada e plena condição de igualdade física, que desde logo impõe uma questionação de identidades: como quem diz, serão mesmo dois sujeitos diferentes ou um só, fisicamente replicado no outro?” (Reis, 2002; apud Arnaut, 2008: 186). Por meio da alegoria do duplo, que, por fim, resulta num (re)conhecimento de si mesmo, é possível perceber que Tertuliano Máximo Afonso só se reconhece como indivíduo único, singular e específico quando se defronta com a cópia. Isso tudo para “colocar em manifesto as tensões entre o ‘eu’ que se protege e exclui o ‘outro’ que inevitavelmente nos constrói” (Gómez Aguilera, 2010: 50).

É por meio dessas angústias e problemas existenciais vividos pela personagem que se revela a sua insegurança no sentido de descobrir quem de fato ele é, num contínuo movimento de confusão e de contraposição, na busca de saber se existe metamorfose, divisão ou duplicação, quando o sujeito deixa de ser ele mesmo para assumir a identidade do outro. No final do romance, Tertuliano toma o lugar de António Claro já morto, faz-se passar pelo marido de Helena e assim inicia uma nova vida, a partir da vida do ator. E o leitor fica sem compreender se o sósia é uma realidade ou uma alucinação da personagem, que se projeta na repetição inicial ao surgir um outro duplicado. Pode dizer-se que o protagonista perde a sua identidade e que António Claro, por ter nascido meia hora antes dele e ser o original é quem prevalece, já que o duplicado de Tertuliano Máximo Afonso morre num acidente automobilístico; nesse momento fatal, o ator estava com as vestimentas do professor e, para todos os efeitos, quem morreu foi Tertuliano. Também é aceitável a ideia de que Tertuliano achou o que procurava, quando encontra e assume nova identidade.

Essa complexidade (que aponta para o processo constitutivo da ficção) pode ser revista na transposição intermediática, como aconteceu na adaptação cinematográfica intitulada Enemy, dirigida pelo franco-canadense Denis Villeneuve. O filme foi lançado na Apresentação Especial do Festival de Cinema de Toronto, em 8 de setembro de 2013. A estreia no Brasil e em Portugal ocorreu a 19 de junho de 2014. Dessa forma, Tertuliano Máximo Afonso transcende o texto literário, ganha um rosto e um físico e reveste uma nova figuração ao adquirir a sobrevida que lhe foi incutida pela atuação de Jake Gyllenhaal.

 

Referências

ARNAUT, Ana Paula (2008). José Saramago. Lisboa: Edições 70.

FERRAZ, Salma (2012). Dicionário de personagens da obra de José Saramago. Blumenau: Edifurb.

GÓMEZ AGUILERA, Fernando (2010). As palavras de Saramago. São Paulo: Companhia das Letras.

SARAMAGO, José (2018). O homem duplicado. Porto: Porto Editora.

Veridiana Almeida