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Basílio de Brito

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Autor: Bernardo Marques

Basílio de Brito (Eça de Queirós, O Primo Basílio)

Basílio de Brito é uma das personagens principais do romance O Primo Basílio publicado por Eça de Queirós em 1878.

A partir da leitura do jornal, fica-se a conhecer o prestígio com que a Sua Excelência vem reconhecida na sociedade lisboeta. É, porém, através da memória de Luísa que temos acesso ao primeiro retrato da personagem: alto, delgado, um ar fidalgo, o pequenino bigode preto levantado, o olhar atrevido, e um jeito de meter as mãos nos bolsos das calças fazendo tilintar o dinheiro e as chaves. Na analepse inicial, diz-se que regressara da Inglaterra, todo “bife”, afetado pelas maneiras britânicas, de modo a espantar Sintra. Na altura, viveu com a prima Luísa um romance de adolescência, com pieguices e lágrimas exageradas.

Tal aventura amorosa foi, porém, interrompida pela falência do pai de Basílio o que o obrigou a viajar ao Brasil a negócios, onde permaneceu até reconstituir sua fortuna. A volta à cena, anunciada pelo Diário de Notícias, é primeiro notada por Juliana que caracteriza Basílio como um sujeito estrangeirado, trigueiro, alto, que tinha um bigode pequeno levantado, um ramo na sobrecasaca azul e um resplandecente verniz nos sapatos. Luísa, que o reconhece imediatamente, nota algumas mudanças: no cabelo preto anelado havia agora alguns fios brancos. Achava-o mais varonil, mais trigueiro e interessante. É que Basílio reunia, além de um físico atraente, uma presença caracterizada por atos como o de cofiar o bigode e o de fumar elegantemente o seu charuto.

Basílio passa a impressão a Luísa de ainda alimentar por ela um sentimento profundo e de se arrepender por não ter-se casado quando devia. Ingénua, Luísa acredita no primo e constrói uma idealização que a leva a imaginá-lo a chorar, num eventual fim do romance, sozinho no quarto de hotel, infeliz e pálido. A partir dos olhares, das palavras exaltadas e dos beijos idealizava um sentimento honesto, todo platónico. Nunca deixara de o amar e agora fatalmente as chamas de tal paixão reacendiam-se, ao vê-lo reunir beleza, toilette, maneiras e dinheiro, os atributos de um deus.

Pelas lentes do realismo, o narrador descreve-nos uma conversa de Basílio com seu amigo, o Visconde Reinaldo, em que deixa claro que, “enquanto estivesse em Lisboa, o romance era agradável, muito excitante; porque era muito completo! Havia o adulteriozinho, o incestozinho” (Queirós, 2010: 262). Paulatinamente nem mesmo a idealização construída por Luísa se sustentou. O primeiro indício foi o “Paraíso” que, ao invés de ser o refúgio dos sonhos, mostrou-se um quarto pequeno, forrado de papel às listras azuis e brancas, com um cheiro mole e salobro que a enojou. No passar dos dias, ele já não demonstrava a mesma delicadeza amorosa, mas deixava escapar um ar de superioridade quando lhe falava, uma secura áspera de maneiras, certos tons de indiferença, que, embora a paixão de Luísa tentasse relevar, a incomodavam, fazendo-a desconfiar que Basílio não a estimava.

O clímax de tal desprendimento verificou-se com a maldita complicação, nas palavras de Basílio, que foi o roubo das cartas por Juliana. Não só Basílio recusou a proposta de Luísa de uma fuga romântica, como culpou-a pelo episódio, resumindo-o a uma distração solucionável com alguns mil réis. Aquelas palavras, como machados que derrubam árvores, caíram sobre os planos de Luísa. Basílio era agora um leviano, egoísta, pouco afeiçoado, que, no momento em que ela mais precisou dele, a abandonou, com a desculpa dos negócios. Isso dá início a um enfrentamento solitário, por parte de Luísa, das consequências do adultério cuja culpa a levará até ao fim de suas forças.

Ao saber de sua morte por Paula, Basílio retornou ao coupé, com a cabeça baixa. Reação que foi imediatamente julgada por Paula como a de um canalha. De facto, pouco depois, em confissão ao Visconde Reinaldo, Basílio teve um sorriso resignado e depois de um silêncio, dando um forte raspão no chão com a bengala: “Que ferro! Podia ter trazido a Alphonsine!” Palavras que fecham linearmente a amoralidade que parece representar tal burguês, que deixa a cena realisticamente em busca de um novo capricho, um copo de xerez na Taverna Inglesa.

A personagem transcende as páginas queirosianas ganhando versões no teatro, na televisão, no cinema e no bailado. Já em 1878, no Brasil, é relido quer como uma comédia quotidiana por Ferreira de Araújo, quer integralmente adaptado ao teatro por Antônio de Meneses. Tanto a obra como as adaptações conheceram uma grande fortuna crítica (Nascimento, 2006 e 2008). No Brasil, O Primo Basílio teve uma adaptação teatral em 2006, dirigida por Juliana Monique. Em Portugal fora já representado no Teatro do Ginásio em 1916, transposto por Vaz Pereira. Ganha ademais uma versão em musical dirigida por Dan Rossetto, em 2009. Como adaptações televisivas, destacam-se a alemã de Wilhelm Semmelroth, de 1969, com o título Der Vetter Basilio, a minissérie da TV Globo, de Daniel Filho, em 1988 e a minissérie mexicana de Xavier Marc em 1993. Na grande tela, existem os filmes homónimos realizados por Georges Pallu, em 1922, por Carlos de Nájera, em 1935 (no México), por Carlos Schlieper, em 1944 (Argentina), com o título de El Deseo, por António Lopes Ribeiro, em 1959, e por Wilhelm Semmelroth, em 2007 (no Brasil). O Primo Basílio foi adaptado ao bailado, com coreografia de Fernando Duarte (Danças em Diálogos).

 

Referências

NASCIMENTO, José Leonardo do (2006). “O primo Basílio na cena teatral brasileira”. Pro-Posições. 17(3): 81-93.

_____ (2008). O primo Basílio na imprensa brasileira do século XIX: estética e história. São Paulo: Editora UNESP.

QUEIRÓS, Eça de (2010). O primo Basílio. Porto: Porto Editora.

Renan Marques Liparotti