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Malhadinhas

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Autor: Bernardo Marques

Malhadinhas (Aquilino Gomes Ribeiro, O Malhadinhas)

Protagonista da novela epónima da autoria de Aquilino Ribeiro, publicada pela primeira vez em 1922, em Estrada de Santiago. Em 1958, o Malhadinhas surgiu em volume autónomo, juntamente com Mina de Diamantes; já então, era um dos relatos mais conhecidos do autor, tal como o era a personagem que lhe dá título.

Ao longo de dez capítulos, António Malhadas, mais conhecido por Malhadinhas, conta a sua “crónica”, ponteada de coragem, matreirice e pertinácia, a "escrivães da vila e manatas" (Ribeiro, 1996: 11). Por meio da analepse, o antigo almocreve lembra peripécias e façanhas que, à primeira vista, o situariam na galeria de personagens pícaras da ficção portuguesa, lado a lado com conhecidos poltrões camilianos e com alguns homólogos castelhanos. Assim o indiciam o perfil físico e psicológico que antecede o monólogo, bem como a linguagem rústica, permeada de gíria, que os seus lábios vivificam.

Todavia, se o modo de existência desta personagem se desenvolve nos moldes da novela picaresca, aquele que é “um pobre de Cristo, um zé-ninguém, um côdeas que puxa uma besta de carga pelo rabeiro” (25) possui também a capacidade de autoanálise e os traços morais que o colocam acima do herói pícaro comum (cf. Torres, 1985: 55).

Apesar de ser virulento e cismático e de possuir um “génio esquentado” (Ribeiro, 1996: 71) que lhe vale dissabores e o mete constantemente em apuros, em linha com a tradição genológica ibérica em que se insere, Malhadinhas revela um espírito justiceiro, com inclinação sincera para a reposição da ordem das coisas: “Que a minha linguagem era ruim e envenenada? Aí está o seu malfazer, endireitar o mundo que andasse torto” (102). Por detrás da “fama de bulhão e de matador” (69) não se vislumbra apenas a personagem que faz rir o leitor ou o empolga com a lábia e com as artimanhas que inventa para superar dificuldades. Malhadinhas, natural de uma “grossa e laboriosa aldeia (...) gótica, fera e eucrasicamente intacta” (8) assimila as características do seu local de nascimento para provar alegoricamente a heroicidade do homem simples, que resiste ao esmagamento social perpetrado por homens como o Tenente da Cruz. Demarcando-se dos heróis pícaros, que conservam até ao fim o temperamento ardiloso e um certo cinismo, o almocreve aquiliniano, faz uma verdadeira retratação no ocaso da vida, preferindo cuidar do "bem d’alma" (149). Ora, esta atitude colide com a conceção tradicional do pícaro sem "honra social e moral" (Correia, 2001: 129), que empreende um “discurso falsamente moralista” (131), sem nunca se despir dos expedientes que o fazem singrar na vida. E mesmo que este argumento não tivesse força suficiente para lhe reconhecer uma dimensão anti-pícara, bastava lembrar que o relato autobiográfico é enquadrado por uma voz de editor ficcional que, além de ilibar Malhadinhas e de garantir a exemplaridade da sua narrativa (cf. Reis, 1985: 44-46), justifica as suas ações (cf. Ribeiro: 1996, 161), não fosse ele representante da “gesta bárbara e forte dum Portugal que morreu” (Ribeiro: 1996, 11).

A figura do Malhadinhas e as suas aventuras deram lugar a uma edição ilustrada por Bernardo Marques, publicada pela Bertrand, em 1946.

 

Referências

Correia, Joaquim (2001). “Pícaro/picaresca”. Biblos. Enciclopédia Luso-Brasileira, Lisboa-vol. 4, cols. 128-134.

Reis, Carlos (1985). "Da narratividade n'«O Malhadinhas» de Aquilino Ribeiro", Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 85, maio de 1985, pp. 43-49.

Ribeiro, Aquilino (1996). O Malhadinhas, Venda Nova: Bertrand Editora.

Torres, Alexandre Pinheiro Torres (1985). “O Malhadinhas visto através do seu adagiário”, Colóquio/Letras, n.º 85, maio de 1985, pp. 50-55.

Marisa das Neves Henriques