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João da Graça

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Autor: Ilustração de Julião Machado, na edição de 1893

João da Graça (Fialho de Almeida, Três Cadáveres)

Chefe de família, senhor de uma incredulidade serena, acariciando “os fios caracolados da sua bela barba castanha” (Almeida, 2007: 7), João da Graça surge no início do conto Três Cadáveres, travando conversa com um “poeta desempregado”, “enfronhado (como ele o fora) em leituras medíocres” (7). É no jornal O Atlântico de 23 de abril de 1833 que o conto, então intitulado “A doente 27”, vê a luz do dia. Se na primeira versão do texto se alude, logo no título, à infeliz personagem minada pela tuberculose, na segunda versão (bastante mais desenvolvida que a anterior), publicada no terceiro volume d’O País das Uvas (1893), é a morte sem rosto e a utilização de um mesmo caixão alugado para acolher três mortos que ditam a escolha do título definitivo da narrativa de recorte naturalista e com laivos de decadentismo finissecular.  

É através de um exercício analéptico feito na terceira pessoa que se obtém a explicação para o atual desafeto da personagem, revelador da sua evolução ontológica e do seu interesse, entre a galeria de figuras criadas por Fialho de Almeida. Atribuindo às leituras romanescas e à devoção a Soares de Passos, em especial, o temperamento romântico e o sentimentalismo exacerbado da juventude, o médico reconhece (ou alguém por ele) a influência que a literatura ultrarromântica, incarnada pela primeira doente que lhe coube em sorte, teve no seu íntimo. Na verdade, Marta não se afigura apenas a projeção da sua sensibilidade mórbida, nutrida de páginas literárias pejadas de estereótipos – “uma dessas tísicas ideais, brancas, dolentes” (9-10) – e de comprazimentos tristes, mas também uma peça fundamental no seu trajeto de aprendizagem. Numa fase 'espiritual’, enquanto aluno do 4.º ano de medicina, impressionável e condoído com o infortúnio e a pobreza que assolam a jovem costureira “proveniente dos maus bairros da cidade” (12) e a “plebeia raça” (10) a que pertence, João da Graça vive uma paixão assolapada, “uma espécie de laço de família, de comunidade poética, d’idílio fúnebre” (26) e parece recriar, na preparação do funeral da jovem, a dor expressa no poema “Noivado do Sepulcro” que o emocionara a ponto de querer protagonizá-lo. Se durante algumas páginas o comportamento do futuro médico intriga até o guarda da morgue, é a evocação de elementos de inspiração naturalista, caros a Fialho de Almeida, que justifica a predisposição da personagem para ser o “último fetichista provinciano de Soares de Passos” (36).

João da Graça corresponde ao perfil do “romanesco moço” (47), macambúzio e apático, que se rende aos encantos de uma “moribunda diáfana” “que satisfizera o platonismo ingénuo da sua alma de campónio, em cuja limpidez se estamparia (...) a idílica e religiosa tristeza do burgo alentejano onde tinha nascido!” (65), afirmando-se como uma espécie de alter-ego ou prolongamento do seu criador. O desvelo que a personagem manifesta, em gestos de delicadeza e pudicícia para com a desventurada tuberculosa, chocam, por vezes, com o timbre grotesco da situação que o envolve, sobretudo quando contempla a defunta e a ajeita com requintes feminis antes de a enterrarem. O narrador apresenta-nos, não sem simpatia e compaixão, ainda que com crueza e pormenores disfóricos, um corpo lacerado pelo desgosto e consumido pela doença pulmonar, que o jovem trata como se fosse uma “poesia extática de prece" (11).

Mas, a personagem evolui, passando de “rapazola pálido e cheio d’ideias romanescas” (9) – lançando preces a Deus – a escrupuloso delegado de saúde, bem instalado na vida, a quem a morte dos outros surge anónima, pronta para se entregar à minuta das certidões de óbito, que preenche mecanicamente. A linguagem e certo tom zombeteiro, usados para caraterizar o clínico, expressam o distanciamento crítico face à tendência estético-literária representada por Soares de Passos e o desprezo pelo estilo piegas que ela concitou. Ingénuo, de uma “palidez anémica” (72) e de um enorme recato, o futuro clínico que crescera sem carinhos maternais e sem a presença de uma figura tutelar masculina, rodeado de beatas e de ideias bafientas, que embotam a firmeza de caráter e encorajam a introversão e a misantropia parece condenado ao fracasso e à incapacidade de encontrar respostas científicas e religiosas satisfatórias para as suas dúvidas. Porém, o conforto económico e a ascensão social tornam João da Graça num “repúblico ambicioso, charlatão da fortuna” (82-83), anafado e calculista, que despreza a realidade que antes o comovera e troça dos arroubos místicos de outros tempos. Assim, tirando partido económico da ciência e desdenhando da religião, a personagem liberta-se do destino que a educação e o meio lhe haviam definido e do sonho romântico infundido pela literatura decadentista, rindo-se dos seus efeitos perversos. Daí que João da Graça se assemelhe fortemente a Fialho e se possam colher na autobiografia do autor traços existentes no ser de papel. A esse propósito, é curioso notar ainda que na edição ilustrada do conto, mais precisamente na cena em que o médico visita Marta, se vislumbram notórias parecenças físicas entre criador e criatura.

 

Referência:

ALMEIDA, Fialho de (2007). Três cadáveres. Posfácio e fixação do texto por Maria Helena Santana. Rio de Janeiro: 7 Letras.

Marisa das Neves Henriques