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NORONHA, Sebastião Pires de Castro

NORONHA, Sebastião Pires de Castro (Abel Acácio de Almeida Botelho, O Barão de Lavos)

 

É o protagonista de O Barão de Lavos, de Abel Botelho, escrito entre março de 1898 e maio de 1899 e publicado 1891. Trata-se do primeiro romance português e de língua portuguesa protagonizado por um homossexual. Na obra de Eça, tão inspiradora da de Abel Botelho, aparecem episodicamente personagens masculinas efeminadas, como o Libaninho do Crime do Padre Amaro, mas nenhuma delas tem, obviamente, um relevo comparável ao de Sebastião de Castro e Noronha, cujo perfil psicológico e genético se disseca, por vezes grotescamente, relacionando-se a sua degradação social e moral com a decadência da velha nobreza de casta.

          Na abertura do romance, o Barão de Lavos, descendente de ramos bastardos de duas das mais antigas e importantes famílias da nobreza nacional, encontra-se num dos extremos da rua do Salitre, junto ao Passeio Público, em Lisboa, num espaço em que se misturavam os públicos de duas salas de espetáculo existentes na época (1867): o Teatro das Variedades e o Circo Price. O seu objetivo, porém, não é a ida ao teatro: procura por ali adolescentes do sexo masculino, para ulteriores encontros eróticos homossexuais.

          A analepse do capítulo II recupera o período de formação de Sebastião de Castro e Noronha, proporcionando elementos biográficos e psicológicos que permitem compreender — na perspetiva oitocentista de Abel Botelho — os fundamentos do seu desregramento sexual: a orfandade materna, a educação escolar num internato masculino jesuítico, uma hipertrofiada sensibilidade artística, complementada por visitas turísticas a igrejas e museus povoados de estátuas que exaltam o corpo masculino, particularmente em Roma e Paris. Efetivamente, embora entendendo sempre a pederastia como uma patologia social, o autor não deixa de lhe reconhecer um fundamento histórico e civilizacional, que explica a sua profusão na Europa meridional, recordando que ela fora na Grécia “uma paixão comum e de nenhuma forma desprezível” (Botelho, 1882: 26). Na Península Ibérica, o culto dos efebos expressara-se fundamentalmente nas grandes expedições marítimas e no recolhimento conventual. Só no capítulo XII, caminhando já para o final do romance, será posta em relevo, em discurso direto da personagem (que confessa os seus vícios a Henrique Paradela), a justificação genética da sua patologia, fazendo lembrar as primeiras páginas de À Rebours, de Huysmans, em que Des Esseintes expõe os antecedentes familiares que explicam a sua degenerescência psicogenética: “Eu havia de ser isto, por força! Trago a tatuagem da infâmia. Estava escrito… A genealogia moral dos meus é edificante… Meu trisavô, inquisidor, era um verdugo e um místico; meu bisavô, um sodomita incorrigível, morreu aos dezanove anos, esgotado, tísico; um irmão dele, que foi cardeal, organizou com tiples castrados da sé e meninos do coro um harém para seu uso exclusivo; (…); e meu pai… meu pai foi mignon de D. João VI…” (p. 335).

          Através da focalização interna da personagem, fica patente que ela tem consciência da anormalidade e patologia da sua atração por jovens do sexo masculino e tenta por vezes resistir a essa atração. Personagem e narrador confluem na perceção da natureza progressiva da enfermidade sexual do Barão de Lavos, que começa por assumir nas suas relações sexuais a atitude ativa masculina, mas que passa depois à atitude feminina, deixando-se penetrar pelos seus jovens amantes.

          O casamento com Elvira (a formosa filha de um antigo comerciante de panos enriquecido por uma falência fraudulenta) fora uma ato calculado de Sebastião, para evitar que fossem socialmente descobertas as suas tendências homossexuais; Elvira, por seu lado, ascendera por este matrimónio de conveniência à condição de fidalga.

          A tirania do desejo acabará por induzir o Barão, que crê amar verdadeiramente Eugénio (o jovem enjeitado pelos pais — um militar e uma freira — que Sebastião instalara num andar da Rua da Rosa), a abandonar as convenientes precauções e fazer do seu amante visita, primeiro habitual e depois constante, do seu palacete do Largo de S. Cristóvão. Dado que a homossexualidade do rapaz não é, como no caso do Barão, uma opção sexual mas um modo de vida, não surpreende que aquele acabe por se envolver sexualmente com a baronesa Elvira, carente do amor masculino e envenenada (pasme-se!) pela leitura de Madame Bovary, o romance em que Flaubert denuncia a nefasta influência das leituras romântica sobre o caráter moral da mulher. Aproveitando a debilidade afetiva do casal, Eugénio explora economicamente os seus amantes colocando a família à beira da ruína.

          Separado da mulher depois de descobrir a traição que ocorre na sua própria casa, o final do Barão será trágico. Arruinado e afetado por uma doença degenerativa irreversível (a tabes, de origem sifilítica), procura, na fase final da sua vida, a companhia de homens robustos e já não de adolescentes, oferecendo-se a marginais que lhe roubam o dinheiro que recebe como esmola de alguns dos seus antigos amigos. Conhecido por toda a Lisboa como “Pinguinhas”, acabará por morrer na rua à porta de um teatro improvisado na esquina da Rua dos Condes com a Avenida da Liberdade, no local onde antes estivera o famoso Teatro da Rua dos Condes.

 

Referências:

Botelho, Abel (1882). O Barão de Lavos. Porto: Lello & Irmão.

António Apolinário Lourenço