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ALENCAR, Tomás de

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Autor: Wladimir A. de Souza

ALENCAR, Tomás de (José Maria Eça de Queirós, Os Maias)

         

A personagem Tomás de Alencar pode ser considerada um dos tipos sociais mais relevantes de toda a ficção queirosiana. Para isso contribuem decisivamente os procedimentos da sua inserção na história d’Os Maias, os tempos diegéticos em que isso acontece e as relações que mantém com outras personagens.

Do ponto de vista da dinâmica da sua figuração, importa notar que Alencar é a única personagem d’Os Maias que está presente nos três principais tempos da história: na juventude de Pedro da Maia (fim da década de 40 e início da de 50), nos cerca de dois anos (1875 a 1877) em que Carlos da Maia vive em Lisboa e no breve regresso do protagonista à capital portuguesa (em 1887). São redundantes, mas sofrem uma certa evolução, os traços de caracterização física exibidos pela personagem. Assim, naquele primeiro tempo, ele é “um rapaz alto, macilento, de bigodes negros, vestido de negro, que fumava encostado à outra ombreira, numa pose de tédio” (Queirós, s.d.: 22). No jantar do hotel Central, quando Carlos vê Alencar pela primeira vez, aparece “um indivíduo muito alto, todo abotoado numa sobrecasaca preta, com uma face escaveirada, olhos encovados, e sob o nariz aquilino, longos, espessos, românticos bigodes grisalhos (…): e em toda a sua pessoa havia alguma coisa de antiquado, de artificial e de lúgubre” (159). Por fim, no reencontro de 1887, Alencar surge “com a sua grenha inspirada e toda branca, e aquelas rugas fundas na face morena, cavadas como sulcos de carros pela tumultuosa passagem das emoções...”; e logo depois, passa “os dedos com complacência pelos longos bigodes românticos, que a idade embranquecera e o cigarro amarelara” (692). Os traços fisionómicos e a sua representação valem aqui como dispositivo retórico com forte incidência caricatural e, como tal, crítica.

Nos esboços de retrato permitidos pelas aparições de 1877 e de 1887, a imagem de Tomás de Alencar decorre de um efeito de focalização com interferência no processo de figuração: é Carlos da Maia quem observa em Alencar as marcas de uma feição sombriamente romântica, que o tempo vai degradando mas não faz desaparecer. Significativamente, nas derradeiras páginas do romance, João da Ega reconhece e até valoriza essa persistência e a autenticidade que a acompanha: “E por fim”, diz Ega, “no estado a que descambara a literatura, a versalhada do Alencar tomava relevo pela correção, pela simplicidade, por um resto de sincera emoção. Em resumo, um bardo infinitamente estimável” (706).


          A participação direta de Tomás de Alencar na intriga do incesto é quase nula. Ainda assim, ele encontra-se associado a episódios e a decisões aparentemente irrelevantes, mas dignos de atenção. Depois do acidente de caça em que o príncipe napolitano é ferido a tiro, Pedro, como que desejando inconscientemente um outro rumo para a história, desabafa com Maria Monforte: “Podia antes ter ferido o Alencar, um rapaz íntimo, de confiança! Até a gente se ria.” (89); não é essa, contudo, a função destinada a Alencar nesse passado remoto, mas antes uma outra, tendo a ver com a formulação de presságios inscritos no nome do protagonista: foi o poeta quem propôs a Maria Monforte o nome Carlos Eduardo, sugerido por “um romance sobre o último Stuart, aquele belo tipo do príncipe Carlos Eduardo” (161); é ele mesmo quem o lembra, na noite em que conhece Carlos, ignorante de um destino induzido pela literatura.

Mais explícito é o papel desempenhado por Tomás de Alencar, enquanto figura com presença quase constante na vida social lisboeta. Nesse aspeto, ele ocupa um lugar simbólico que é o da literatura enquanto instituição legitimadora de discursos, de atos e de práticas sociais. O jantar do hotel Central não se faz sem uma acesa discussão sobre o naturalismo e a “Ideia Nova”, discussão cujo ponto de partida é a aparente perda de prestígio do romantismo; em Sintra, não é Maria Eduarda quem Carlos encontra, mas sim e inevitavelmente Alencar, que traz consigo os estereótipos românticos que aquele espaço implica; e no sarau do Teatro da Trindade é já um Alencar cativado pelas causas humanitárias quem declama um poema inflamado, mas ainda afetado pela retórica que sobrevive naquela poesia: “As rimas fundiam-se num murmúrio de ladainha, como evoladas para uma Imagem que pregas de cetim cobrissem, estrelas de ouro coroassem. E mal se sabia já se Essa que se invocava e se esperava, era a Deusa da Liberdade – ou Nossa Senhora das Dores” (611).

 A condição de tipo que ficou assinalada em Tomás de Alencar determina o seu potencial semântico-extensional. Relacionado com isso está o facto de a marcação física, temperamental e discursiva da personagem ter dado lugar à identificação com o poeta Bulhão Pato, uma identificação que o próprio Eça tentou rebater (cf. Lourenço (ed.), 2000; Reis, 2015: 73-96). O que aqui está em causa é, em última instância, a direta relação de Alencar com um certo romantismo oitocentista, com a sua sentimentalidade e com os seus tiques comportamentais e estilísticos. Para todos os efeitos, Tomás de Alencar corporiza o poeta romântico, definindo-se assim como personagem com forte componente temática e representatividade cultural, num contexto crítico em que se procede à denúncia do romantismo como vivência cultural e social muito intensa na sociedade portuguesa. Por força das características que o distinguem, Tomás de Alencar é uma personagem muito atrativa para representações iconográficas (por Alberto de Sousa, Wladimir Alves de Souza ou Rui Campos Matos), televisivas e cinematográficas: vejam-se os expressivos castings de Osmar Prado, na versão d’Os Maias produzida pela Globo em 2001, e de Pedro Lacerda, na adaptação de João Botelho, de 2014.

 

Referências:

Lourenço, António Apolinário (ed.) (2000). O grande Maia. A receção imediata de Os Maias de Eça de Queirós. Braga: Angelus Novus.

Queirós, Eça de. (s.d.).Os Maias, Lisboa: Livros do Brasil.

Reis, Carlos (2015). Pessoas de livro. Estudos sobre a personagem. Coimbra: Imprensa da Univ. de Coimbra.

Carlos Reis