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JOSÉ MATIAS

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JOSÉ MATIAS (José Maria Eça de Queirós, Contos)

 

Personagem do conto homónimo, publicado pela primeira vez na Revista Moderna (Paris, n.º 2, 25 de junho de 1897). O relato foi depois integrado na edição póstuma, de 1902, preparada por Luís de Magalhães encontrando-se, a partir daí, praticamente em todas as edições dos Contos de Eça de Queirós.

Sendo esta uma das mais elaboradas personagens queirosianas, cabe, desde já, perguntar: como figurar uma personagem emblemática, funcional, estereotipada, subordinada à ilustração de uma tese, mas ao mesmo tempo mutável, complexa, enigmática, singular? Como desenvolver essa tensão caracterológica no espaço condensado do conto, mantendo sua tradicional unidade de efeito?

Tal proeza se realiza em José Matias, “talvez muito mais que um homem – ou talvez ainda menos que um homem...” (Queirós, 2009: 384). Anti-herói heroico, “escandalosamente banal” (365) mas “moço interessante” (364), central no conto a que dá nome, ele constitui um paradoxo de base: a consistente solidez amorosa agitada pela paixão turbulenta.

Sua história é contada no tempo exato de seu enterro por um antigo colega de faculdade, agora Professor de Filosofia, a um amigo que encontra por acaso e que convida ao cemitério. Colado a essas duas personagens inominadas, viaja por sua vez o leitor em um enredo bem articulado e sedutor – no sentido etimológico de se-ducere: “chamar à parte”, “fazer desviar de seu caminho”.

Assumindo a oximórica posição de onisciência relativa, isto é, apoiado na observação externa, mas intrometido em detalhes para ele inacessíveis, esse narrador fecha lacunas do caso recorrendo à lembrança do testemunho dos que não mais existem. Suspeito é o lugar que assume, suspeita é a intimidade que gera na tríade que forma com o amigo sem voz diegética e o leitor. Moderníssimo, ironizado por uma instância discursiva além dele, tal narrador contraria o significado etimológico de sua função, relativo à palavra latina gnarus (“conhecedor”), e produz um retrato de viés de alguém que admite permanecer “inexplicado” (384), mas que diagnostica como “doente, atacado de hiperespiritualismo” (375).

O caso, em resumo, é o seguinte: José Matias, ao lhe morrerem os pais, vai morar com um tio cuja casa fica ao pé daquela onde vive a “divina Elisa” com o marido diabético, trinta anos mais velho. Ao vê-la, sente um “forte, profundo, absoluto amor” (367) que por dez anos nutre-se apenas de olhares, alguma correspondência e várias conversas entretidas na casa de sua tia-avó, amiga do casal. Quando esse marido vem a falecer, José Matias, “tomado de inquietação, ansiedade, quase terror” (371), instala-se no Porto a pretexto de não provocar boatos. Mas, passado o período de luto, não retorna. Elisa procura-o sem ser recebida e, “’Despeitada, fortemente cercada pelo Torres, cansada da viuvez, com aqueles trinta anos em botão, que diabo! coitada, casou!’” (373). E foi morar com o vigoroso Torres na mesma casa. José Matias então retorna para voltar a observá-la – de início, furtivamente; depois, explicitamente, sendo correspondido. Transtornado com o fato de que “um homem, um macho, um bruto, se tivesse apoderado daquela mulher que era sua!” (374-375), põe-se a beber, jogar e desperdiçar dinheiro durante sete anos. Até que também esse marido de Elisa falece e ela se retira para o interior, onde conhece um apontador de obras públicas abandonado pela esposa e une-se a ele em concubinato. José Matias, arruinado pelos vícios, posta-se então todas as noites num portal diante da casa dela para retomar o jogo dos olhares. Seus dias, dedica-os a seguir o apontador para verificar se é fiel à amada. Até ser encontrado, uma madrugada, morto de frio. O conto se fecha com chave de ouro – o comparecimento do apontador ao enterro, com um ramo de violetas, provavelmente enviado por ela.

Embora o início já anuncie a metamorfose do rapaz educado, abastado e aprumado no mendigo bêbado, desgrenhado e estropiado que morre de frio num portal escuro, e embora seu caso seja exposto em minúcia realista, essa personagem se mantém em uma zona de indeterminação e mistério pelo uso brilhante do ponto de vista: o narrador-filósofo especula seus motivos e sentimentos, cataloga-o, põe-se a esfuracar-lhe os atos “com a ponta duma Psicologia” e acaba declarando sua impotência diante do que considera uma “Causa Primária, portanto impenetrável” (373).

Mais que a “ponta duma Psicologia”, o que ele utiliza é um poderoso arsenal retórico adjuntivo para dissecar o “enredado caso” (375) que desafia seu entendimento: insistentes repetições (principalmente de epítetos), enumerações até quádruplas de adjetivos, abundantes advérbios de modo, intensificadores, hipérboles, superlativos, substantivos abstratos com valor qualificativo (“idealismo”, “nobreza moral”); tudo isso, aliado à “força moderadora da Filosofia” (370), só resulta em hesitações, aporias e dúvidas expressas em reticências, exclamações perplexas e perguntas retóricas para as quais não há resposta.

Em sua “espantosa tortuosidade espiritual” (375), José Matias é excessivo (como é excessiva a retórica que o configura), apaixonado (como é apaixonado por seu caso o narrador que o enfoca), desconhecedor de si como é desconhecedor das forças paradoxais que o agitam, o homem do século XIX – especificamente, o português, arraigado a tradições amorosas e literárias medievais, mas instigado a participar da Modernidade que o atropela com rápidas mudanças e novos padrões éticos e estéticos.

Símbolo do sofrimento tornado gozo, José Matias resulta de: uma visão menos doutrinária de Eça, caracterizada por evocações simbolistas e toques de ironia ao materialismo positivista que marcou o Realismo; uma abordagem metafísica e hegeliana em sua busca de uma síntese (metaforizada no terceiro homem de Elisa e nela própria, que bem concilia as necessidades do espírito e as do corpo); uma maturidade discursiva que extrai, da linguagem literária e da fôrma “conto”, todo o seu potencial para gerar efeito. Ele representa o homem de sua época em conflito consigo e com o mundo, o herói problemático inadaptado às circunstâncias e valores que o rodeiam, o sujeito dilemático que defronta a impossibilidade de realizar seu desejo (não de possuir Elisa, mas de que ela não se degrade desfrutando de prazeres carnais com um materialão).

José Matias é fictício e verdadeiro. Porém sua verdade, como a de Capitu de Machado, permanece encerrada em seu coração. O que não a impede de ressoar neste nosso século XXI que desconhece ultrarromânticos afeitos ao amor idealizado sem consumação, mas que, a exemplo de nosso amigo narrador, os admira – principalmente quando bem figurados.

 

Referência:

Queirós, Eça de (2009), Contos I, ed. crítica de Marie-Hélène Piwnik sob a coordenação de Carlos Reis: Lisboa: IN-CM.

Eliane Fittipaldi Pereira