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MAURÍCIO

MAURÍCIO (António Pedro Lopes de Mendonça, Memórias de um doido)

       Protagonista do romance Memórias de um Doido de António Pedro Lopes de Mendonça, publicado em 1849 e republicado em 1859 numa versão melhorada. É configurado como uma personagem coeva do seu autor, o qual explicita, no início da obra, o filão em que ela se enquadra: o romance contemporâneo.

      O objetivo do autor é desenhar verdadeiros caracteres representativos da sociedade liberal que, à semelhança das criações de Balzac, possam ir além da mera apresentação de tipos sociais. Maurício, porém, só em parte escapa à redução do tipo, uma vez que revela ainda as características (tão do gosto romântico) do jovem idealista, de sensibilidade exacerbada e de coração desmedido. Mas é, também, uma “imagem de muitas [existências] que nascem nas circunstâncias especiais da nossa época” (Mendonça, 1982: 103), ou seja, é um filho do seu tempo: um liberal e um self made man, pois ficara órfão pouco depois de nascer de pai realista que morrera na guerra, tendo sido, à semelhança do autor, “arremessado aos catorze anos no tumulto da capital” (p. 105), a seguir à morte da mãe, viúva inconsolável. Possui uma inteligência excecional e uma alma generosa, mas tem uma dessas “organizações nervosas e acerbas” (p. 91), oscilantes entre “loucos acessos de sensibilidade e períodos de abatimento” e de fundo desespero. É, neste sentido, o tipo de jovem pequeno-burguês, com ambições sociocultulturais porque conhecedor das suas capacidades intelectuais, mas sem meios para se impor socialmente e, por isso, idealisticamente se revolta contra a ordem instalada. Em contrapartida, sucumbe ao materialismo dessa mesma sociedade, deixando-se enredar nas suas malhas sugadoras da “vontade” individual. Com efeito, embora muito cedo se torne cético porque descrente da sociedade dominada pelo clientelismo e pela corrupção, Maurício vai procurar a exaltação das emoções (exaltação que a sua desmesura anseia) no frenesim do jogo. Em parte devido a esta oscilação caracteriológica, a personagem modifica-se e sofre alterações, tornando-se assim mais complexa e mais densa.

      O grande elemento que suscita a complexidade da personagem é a paixão. Maurício pertence rol das personagens arrebatadas pelo desejo amoroso, à semelhança de Werther, de Fausto e de Antony (referidos pela personagem ou pelo autor), embora, no seu caso, o amor sofra variações, dado que ele ama sucessivamente Paulina, a Viscondessa e Madalena, que correspondem a três tipos de personagens femininas: o de uma donzela transformada em mulher, o da demoníaca mulher fatal e o da mulher anjo (David, 2007: 53). Trata-se de um sentimento tão intenso que lhe devora a ‘vontade’ própria (p. 255), impedindo que o protagonista canalize o seu talento para a produção literária ou jornalística, como aconselham os amigos. Este excesso de sensibilidade, visto pelo protagonista como uma fatalidade, acarreta uma fissura no sujeito de que ele próprio tem consciência, afirmando “Eu tenho o espírito devorado de cruento ceticismo e o coração ainda viçoso de ilusões e esperanças” (p. 183). Outro elemento que concorre para o acréscimo de densidade da personagem é sua interação com outras personagens, nomeadamente com o seu clarividente amigo D. Afonso, apresentado como um aristocrata cético, porque conhecedor da hipocrisia social. Esta personagem secundária, adjuvante do protagonista, tenta, em vão, incutir-lhe um maior racionalismo, alertando-o para a falsidade do brilho das salas ricas e revelando-lhe o negro segredo do passado da Viscondessa que a sociedade cala: ela não se inibira de roubar o noivo da filha, que morreu de desgosto. Embora avisado sobre a capacidade de sedução da Viscondessa, Maurício acredita na sua hipócrita versão e apenas conhece o engano quando se perde de amores pela inocente e angélica Madalena. Se o contacto com amigos não impede a perdição de Maurício, a correspondência que trava (sobretudo) com D. Afonso permite revelar ao leitor a subjetividade do protagonista. Através do registo epistolar (segundo José-Augusto França (1982: 32) não muito conseguido), o leitor pode assistir a toda dilaceração mental do protagonista, a todas as suas dúvidas e a todo seu tormento. Uma alma assim atormentada só poderia acabar mal e o autor desenha uma saída dramática (à Antony) para a sua personagem: coloca-a, como por acaso fatal, na igreja onde Madalena se casa, emprestando-lhe o gesto heroico de se atirar à frente dos cavalos desenfreados aquando da partida dos noivos.

      Não se esgota neste dramatismo o significado mais amplo da personagem, pois é necessário ter em conta que Maurício recusa aceitar um lugar político, propositadamente inferior e longínquo, oferecido e maquinado pela Viscondessa, a qual, ao ver-se substituída pela jovem Madalena, consegue persuadir o amante e correligionário político de cariz conservador a atribuir-lhe esta posição. O ato de declinar e de acusar publicamente os pretensos beneméritos torna-o “um proscrito”, um “outlaw” (p. 235), sendo considerado doido porque não aceita as leis da sociedade. Neste sentido, Maurício está nos antípodas dos “espíritos mesquinhos” que, vendidos ao gozo materialista, “denominam louco ao homem que não se resigna a viver uma vida meramente positiva” (p. 271). Assim, em certa medida, ele é um resistente, funcionando, para o autor, como um exemplo de que apenas doidos como ele podem regenerar e “regeneram a Humanidade” (p. 271).

      Embora inicialmente Maurício quisesse afastar-se da “poesia do infortúnio, que Chateaubriand pôs em moda” (p. 105), ele não conseguirá ater-se à sua almejada ação política que seria a de “erguer do nada um povo abatido, regenerar uma sociedade pela ideia” (p.109), acabando por projetar mais a agonia e o mal du siècle experienciado do que a rebeldia revolucionária ou regeneradora. Prisioneiro da sua sensibilidade exacerbada, ele não consegue ultrapassar a incompreensão da sociedade, nem o abismo das diferenças sociais, tornando-se uma vítima dessa sociedade. A novidade, no caso de Maurício, é que se trata de uma vítima consciente da sua situação – sobretudo quando utiliza do registo da autoironia –, capaz de beber o fel dessa sociedade e de o expor, inserindo-se assim no filão do romantismo social teorizado por Roger Picard (cf. Simões, 2003: 328). Se a preocupação social do herói (e, por detrás desta, a do autor), a amostragem de sórdidas condições de vida e o escancarar dos espaços de pobreza anunciam já os procedimentos realistas, o sentido agónico de Maurício é ainda romântico. Esta duplicidade faz dele a figura de ficção mais emblemática entre nós desse romantismo imbuído de preocupações socializantes e justiceiras.

 

Referências bibliográficas

David, Sérgio Nazar (2007). “Paixão e revolução na obra de A. P. Lopes de Mendonça”, in O século de Silvestre da Silva. Lisboa: Prefácio.

Mendonça, António Pedro Lopes de (1982). Memórias de um doido (edição crítica e comparativa de José-Augusto França). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

Picard, Roger (1944). Le romantisme social. New York: Brentano's.

Simões, Maria João (2003). “António Pedro Lopes de Mendonça”, História da Literatura. O Romantismo. Lisboa: Alfa, vol. 4.

Maria João Simões