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AFONSO DA MAIA

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Autor: Wladimir A. de Souza

AFONSO DA MAIA (José Maria Eça de Queirós, Os Maias)

 

Personagem d’Os Maias (1888) de Eça de Queirós, Afonso da Maia surge, no início do romance, como “mais idoso que o século”, naquela que é a primeira referência ao senhor do Ramalhete. O pai de Pedro e avô de Carlos era filho de Caetano da Maia e casara com Maria Eduarda Runa. Quando jovem, lia Rosseau, Voney, Helvécio e a Enciclopédia, o que nele incutiu o que o narrador designa, com uma certa ironia, como um “furor revolucionário”. Por tal furor revolucionário, foi exilado por seu pai em Santa Olávia. Afonso, mais tarde, teve de partir para a Inglaterra, outra vez para o exílio, com mulher e filho, justamente devido às suas ideias liberais.

Fisicamente, a personagem é descrita como de baixa estatura, cabelos e barba brancas, “maciço, de ombros quadrados e fortes: e com a sua face larga de nariz aquilino, a pele corada, quase vermelha, o cabelo branco todo cortado à escovinha, e a barba de neve aguda e longa (...) lembrava um varão esforçado das idades heroicas, um D. Duarte de Meneses ou um Afonso de Albuquerque.” (Queirós, 2001: 9).

          No decurso do romance, Afonso é caracterizado ainda como um homem rígido, culto, sério na aplicação dos seus princípios morais. E, ao mesmo tempo, risonho, sereno e generoso. Valorizada na narrativa, esta é a personagem que é descrita como exemplo de sabedoria e de experiência de vida, em contraste com a atmosfera social que o rodeava. Sendo nobre e rico, graças a heranças e ao património da família, isso possibilitou-lhe que não tivesse de trabalhar nenhum dia de sua vida. É também esse estatuto social e económico, aliado às suas qualidades morais e ao seu sentido de solidariedade social, que explica comportamentos assim descritos: “Parte do seu rendimento ia-se-lhe por entre os dedos, esparsamente, numa caridade enternecida. Cada vez amava mais o que é pobre e o que é fraco. Em Santa Olávia, as crianças corriam para ele, dos portais, sentindo-o acariciador e paciente. Tudo o que vive lhe merecia amor – e era dos que não pisam um formigueiro e se compadecem da sede de uma planta.” (Queirós, 2001: 9).

          Após a morte de seu filho Pedro, Afonso dedica a sua vida ao neto Carlos, em Santa Olávia. Depois, já velho, quando seu neto vai estudar em Coimbra e ainda quando se instala em Lisboa, passa o tempo conversando com os amigos, lendo ou acariciando o seu gato (Reverendo Bonifácio, anteriormente D. Bonifácio de Calatrava) e opinando sobre a necessidade de renovação do país.

          Com a descoberta da existência da neta que ele considerava morta, Afonso assume-se, ao mesmo tempo, como oponente e como vítima, incapaz de contrariar o destino que determina a destruição da família. Por força do choque que recebe, ao descobrir os amores incestuosos dos seus netos, morre subitamente: “Afonso da Maia lá estava, nesse recanto do quintal, sob os ramos do cedro, sentado no banco de cortiça, tombado por sobre a tosca mesa, com a face caída entre os braços. O chapéu desabado rolara para o chão; nas costas, com a gola erguida, conservava o seu velho capote azul. Em volta, nas folhas das camélias, nas áleas areadas, refulgia, cor de ouro, o Sol fino de Inverno. Por entre as conchas da cascata, o fio de água punha o seu choro lento. (...) Outra vez [Carlos] lhe palpava o coração... Mas estava morto. Estava morto, já frio, aquele corpo que, mais velho que o século, resistira tão formidavelmente, como um grande roble, aos anos e aos vendavais. Ali morrera solitariamente, já o Sol ia alto, naquela tosca mesa de pedra onde deixara pender a cabeça cansada.” (Queirós, 2001: 556)

          Depois de uma primeira e pouco conseguida adaptação televisiva, em 1979, com realização em cinco episódios por Ferrão Katzenztein,a partir da peça de José Bruno Carreiro, o romance foi adaptado em 2001, para minissérie pela Rede Globo, com texto de Maria Adelaide Amaral e direção de Luiz Fernando Carvalho. A personagem Afonso da Maia foi interpretada pelo ator brasileiro Walmor Chagas. Em 2014, João Botelho trouxe às telas do cinema a sua adaptação de Os Maias, em que Afonso foi interpretado pelo ator português João Perry.

 

Referência:
          QUEIRÓS, Eça, Os Maias: episódios da vida romântica. São Paulo: Landy, 2001.

Kyldes Batista Vicente