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Corto Maltese

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Autor: Hugo Pratt

Corto Maltese (Mário Cláudio, Memórias Secretas)

Corto Maltese é o protagonista de uma das três narrativas que constituem Memórias Secretas (2018). Contado em jeito autobiográfico, o texto – intitulado “Corto” – chega às mãos de Mário Cláudio por intermédio de Obregon Carrenza (Cláudio, 2018: 13), anos depois da publicação de A Balada do Mar Salgado (1967), de Hugo Pratt, criador do famoso marinheiro. Deste modo, Mário Cláudio recorre à estratégia do manuscrito perdido, legado ou encontrado (cf. Abreu, 1997: 301-302), tornando-se mero editor e tradutor do texto que lhe chegou às mãos: “Traduzido do inglês original o manuscrito inacabado, rectifiquei alguns detalhes no tocante à cronologia, e abracei um estilo que, revelando-se porventura não muito diferente do meu, se me afigurava menos bárbaro, corsário, e afagado pela brisa marítima” (14).

Partindo dessas memórias secretas, Mário Cláudio revela-nos um outro Corto Maltese, numa (re)configuração feita sobrevida, jamais desrespeitando o proto-mundo canónico criado por Pratt, dando azo, por sua vez, à exploração de nebulosas narrativas, espaços em branco ou terra incognita, o que levaria o criador do protagonista a aceitar de “bom grado a sobrevida que Mário Cláudio” (Arnaut, 2023: 23) lhe concede. É por esses fiapos ou brechas narrativas – silenciadas, ocultadas ou esquecidas –, que ficamos a saber da ascendência portuguesa de Corto Maltese, neto, pelo lado materno, de Frei Manuel Pinto da Fonseca, “nascido em Lamego, e Grão-Mestre da Soberana Ordem de Malta” (16).

A personagem parece fadada, desde o nascimento, às viagens e aos episódios mais aventurosos e fantásticos, imbuídos de singularidade, a começar pelo nome que sua mãe havia pensado primeiramente, Napoleão Bonaparte (16), passando por uma marca de nascença, um “negro sinal em meu quadril esquerdo. (…). Era a silhueta de um corvo, visto de perfil” atribuído à fada Morgana, até à orfandade, refletida num pai ausente, levando-o a contemplar, já aos cinco anos, “cismadamente a extensão do mar” (27). A juntar-se ao sinal no quadril, realçam-se ainda duas manias que ultrapassam o que é descrito por Pratt na banda desenhada: o “chuchar pensativamente no polegar da mão direita, vergonhoso hábito que conservaria até à idade adulta” (28); o roer as unhas, “vício secreto” que “escaparia a quantos desenhos executara o que me inventou” (78).

Escapando assim e de forma oblíqua ao traço primeiro de Hugo Pratt, em termos psicológicos e emocionais – que refletem contudo certos aspetos físicos como os vícios anteriores –, Corto Maltese permanece, no que diz respeito aos mecanismos retórico-discursivos da sua descrição, a figura por todos conhecida e reconhecida, após a primeira viagem à cidade dos Doges: “E foi então que me talhei a inalterável figura de Corto Maltese, isto como se me inventasse um qualquer artista de génio, oriundo de Veneza, e também ele corredor do mundo. Deixei crescer as suíças, enfiei umas calças de sarja branca, meti-me num casacão de fazenda azul-marinho, cobri a cabeça com o boné de pala e passamanarias, de todos os comandantes de todas as embarcações que sulcam os mares, e ajustei ao colarinho um laço em borboleta fina” (41-42).

A partir desse momento, Corto tornar-se-á no famoso marinheiro das sete partidas do mundo, travando conhecimento com diversas figuras reais – convocando, deste modo, o “recurso da veridicção” (Arnaut, 2020: 33) – como Rasputin, Butch Cassidy e Sundance Kid, em viagem pela América do Sul (55); James Joyce, em Trieste (60); Frederik William Rolfe, mais conhecido como o Barão Corvo, em Veneza (65); também na Sereníssima viria a encontrar Ernest Hemingway, “yankee moço, e condutor de uma ambulância da Cruz Vermelha” (72); e Antonio Machado, em Salamanca (95). A ligação a Portugal, e em especial ao Porto, a “Cidade chuvisquenta” (87), leva Corto Maltese a apaixonar-se por Margarida e a ter com ela uma filha, “Esperança Maltesa” (103), resultando num dilatar da vida conhecida e oficial da personagem, que revela, portanto, nas suas memórias, aspetos desconhecidos e curiosos, não com o intuito de dirimir o traço inicial de Pratt, mas sim de complementá-lo e expandi-lo, Dolezel dixit. A narrativa é interrompida em Burano, sugestivamente a 5 de novembro de 1941, um dia antes do nascimento de Mário Cláudio.

No que diz respeito à transposição intermediática, Corto Maltese é uma figura amplamente (re)visitada. A saber: Bécassine et Corto Maltese (1995), de Chantal Tomas; Querido Corto Maltese (1998), de Susana Fortes, ambas na narrativa literária; no domínio da perfumaria, Corto figurou na publicidade do perfume “Eau sauvage”, da Dior, em 2001; acrescem a estes exemplos os da relojoaria – Swatch, a presença em estampagens várias de t-shirts, na filatelia, na música e na moda.

 

Referências

ABREU, M. F. de (1997). “Manuscrito Encontrado (Motivo do)”, in: Buescu, Helena Carvalhão (coord.). Dicionário do Romantismo Literário Português. Lisboa: Caminho, pp. 301-302.

ARNAUT, Ana Paula (2023). “A escrita poliédrica de Mário Cláudio”, in: Gori, Barbara e Vieira, José (orgs.). Estudos para Mário Cláudio. Pádua: Cleup, 2023, pp. 13-27.

______ (2020). “A inevitabilidade da (auto)biografia: As memórias secretas de Corto Maltese”, in: Natário, Maria Celeste e Vieira, José (orgs). A Trilogia do Belo. Nos 50 anos de vida literária de Mário Cláudio. Lisboa: D. Quixote, pp. 29-44.

CLÁUDIO, Mário (2018). Memórias Secretas. Lisboa: D. Quixote.

[publicado a 8-1-2026]

José Vieira