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Marreta

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Autor: Molina Sánchez

Marreta (José Maria Ferreira de Castro, A Lã e a Neve)

José Nogueira, conhecido por Marreta entre os operários, e carinhosamente apelidado de Tio Marreta, é uma personagem secundária em A Lã e a Neve (1947). No entanto, exerce um papel fundamental e estruturante na linha evolutiva do protagonista. Marreta é a voz da consciência, cujo sentimento paternal cuida e orienta Horácio na vida pessoal, laboral e sindical. Horácio irá criar por ele uma amizade feita de ternura e respeito, porquanto pressente nele uma generosidade e uma compreensão que ainda não havia encontrado.

Marreta surge apenas na segunda parte do romance, depois de Horácio ter concretizado a aspiração de trabalhar numa fábrica de tecelagem da Covilhã. Nesta aparição, são-nos imediatamente sugeridos dois traços fundamentais da personagem, aquando de um diálogo sobre o despedimento de um operário devido à velhice: a lucidez e a moderação.

Marreta, de cabelo ralo e embranquecido, olhos encovados e apenas dois dentes, é já também um velho operário, ainda ágil e útil ao patrão. De uma integridade à prova de bala, é culto, inteligente, esperantista, vegetariano. É viúvo e tem um filho na América com quem pouco comunica, por isso vive sozinho na Aldeia do Carvalho (aldeia com vida pastoril, agrícola e fabril), e é um dos tecelões mais antigos da fábrica de lanifícios onde trabalha. Vive uma vida sóbria e estima o dinheiro somente em relação ao preço dos selos do correio com a finalidade de trocar correspondência, por exemplo, com esperantistas espalhados pelo mundo (Charleroi, Praga, Atenas, Buenos Aires, etc.). Marreta é um operário muito diferente dos outros: um autêntico internacionalista (cf. Rosa, 2017: 92 e 93) e um velho anarquista (Lopes, 1996:108).

O ideário anarcossindicalista de Marreta é idêntico ao de Ferreira de Castro (cf. Alves, 2016: 7). Marreta é líder, mediador, bom ouvinte e conselheiro; e um doutrinador. A sua confiança no futuro, o ardor crescente e contínuo por um mundo melhor conforta a todos, e o seu espírito sindicalista inspira a comunidade operária, em especial Horácio. A luta incansável por palavras de justiça, de bem-estar comum e de igualdade entre os homens é levada até às últimas consequências, com greves prolongadas e violentas. Marreta continua a ser sindicalista e um grevista assumido. Confessa a Horácio já ter sido agredido quase de morte à espada por um guarda-republicano, e preso em condições desumanas, quando ele e outros delegados da Casa do Povo dirigiam as greves e reivindicações nos primeiros anos da República.

A casa de Marreta é um lugar seguro, aberto ao diálogo e ao convívio, e frequentado por operários quase todas as noites. É uma casa humilde, uma quadrazita ou um casinhoto, no entanto é um espaço de socialização amplificado pela intervenção e pelo lazer. Marreta tinha muitos livros, entre os quais obras proibidas. Com eles, não só ensinava os operários a ler como lhos emprestava frequentemente num intuito de doutrinação e de tomada de consciência social. É precisamente em sua casa que se pensa, se discute e se organiza a greve que, apesar de tudo, não terá o imediato efeito desejado devido aos fura-greves.

O declínio da condição de saúde de Marreta acentua-se vertiginosamente a partir da terceira parte do romance. Além do cansaço de cinquenta anos de trabalho, afloram sinais próprios da velhice que dificultam o labor no tear. E por isso haverá de ser despedido, como já antes vaticinara. Nesta fase de transição da vida ativa para o Albergue dos Inválidos do Trabalho, Marreta enfrenta as várias dificuldades de adaptação (uso de óculos, baixo subsídio de invalidez, lar, doença) sem nenhum lamento. Prepara a saída da fábrica com recato, explicando paternalmente a Horácio como tudo funciona, pois sabe que será ele o seu substituto. Na reta final da vida, Marreta revela alguma amargura, mais até pelos outros que por si: “O que me dá raiva é pensar que nenhum destes gajos fez o que quis na vida!” (Castro, 1990: 333). Porém, a esperança, apesar de nublada no olhar, permanece viva até ao último momento. Esta disposição mental, “com a perfeita serenidade do crente sem deus”, é a mesma em Marreta, Castro e Sartre: “esperança ontológica” (Emery, 1996: 77).

Marreta é, com efeito, uma personalidade completa (cf. Lopes, 1996: 108) e uma das personagens mais carismáticas do universo romanesco castriano pois que, sintetizando o elevado pensamento humanista do escritor (nomeadamente da ética da compreensão), se assume não só como uma das personagens que mais contribui para o avanço da ação – através do ativismo e da integridade/incorruptibilidade do seu caráter – como também desafia os outros a questionarem-se perante os graves dilemas da vida individual e coletiva.

 

Referências

ALVES, R. A. (2016). “A Lã e a Neve, de Ferreira de Castro: a História escreve-se no presente”, in C@striana: Estudos sobre Ferreira de Castro e a sua Geração, 1-8. Centro de Estudos Ferreira de Castro. Disponível em https://www.ceferreiradecastro.org/p1.php. (acesso a 7.1.2026).

CASTRO, Ferreira de. (1990). A Lã e a Neve. 15ª ed. Lisboa: Guimarães Editores.

EMERY, Bernard (1996). “Ferreira de Castro, além-fronteiras”, in Vária Escrita, nº 3, pp. 33-84.

LOPES, Óscar (1996). “A contemporaneidade histórico-literária portuguesa”, in Vária Escrita, nº 3, pp. 101-114.

ROSA, José Maria S. (2017). “Nigredo, Albedo, Rubedo. Matizes e metamorfoses cromáticas em A Lã e a Neve”, in José Maria S. Rosa e Ricardo A. Alves, A Lã e a Neve de Ferreira de Castro. Releituras. Travessias. Metamorfoses. Covilhã: Univ. da Beira Interior, pp. 83-96.

[publicado a 7-1-2026]

Cristiana Oliveira