Leonardo e João Miguel são as personagens centrais de O pequeno mundo (1988), romance epistolar de Luísa Costa Gomes. Distantes um do outro, os amigos iniciam a troca de cartas em setembro de 1986, e a última em 9 de dezembro de 1987. João Miguel é quem inicia e quem termina a correspondência entre os dois.
João Miguel é cardiologista num hospital de província, entediado por estar em um lugar ermo, como ele mesmo diz, “de uma rua só, três cafés a eito e um excedente de comércios (...)” (Gomes, 1988: 11); resolve escrever a Leonardo, amigo de juventude, para escapar de entrar na rotina monótona do lugar. Leonardo vive recluso com a esposa, Camila, na paz e no silêncio das Bétulas, dedicando-se a pensar em questões de ordem moral, reflexões filosóficas, sentimentos e percepções sobre o mundo.
No romance, o total de 176 cartas transitam por um lapso temporal no qual a correspondência entre os amigos se dá de forma equilibrada; no entanto, logo João Miguel percebe que o amigo está mentindo sobre muitos assuntos e em diversos aspectos, em especial, a morte de sua esposa, e o caso de corrupção envolvendo António de Azevedo, seu sogro, membro menor do Governo, que acabou por se suicidar. Em suas cartas, Leonardo tece várias versões para os acontecimentos, e o médico decide ouvir outros pontos de vista sobre os fatos, como Manuela, Madalena, Esmeralda, Eleutério Fernandes. As cartas de Leonardo são mais longas. Nelas, ele se debruça sobre suas reflexões filosóficas. João Miguel escreve de forma mais direta, adotando um discurso mais prático, conciso e objetivo, tentando entender de maneira racional as decisões e posicionamentos de Leonardo.
Manuela, professora e amiga de ambos, é a interlocutora de quem mais João Miguel se aproximará, inclusive de forma romântica; será ela quem o irá alertar de que Leonardo mente para ele há muito tempo: “Leonardo mentiu-lhe do princípio ao fim. Camila suicidou-se em junho, depois de uma separação infeliz e violenta que a tornou, se não o era já, incapaz para toda a vida” (50). E mais, que Camila não estava grávida, como Leonardo dissera, e que talvez Esmeralda, amante dele, era quem estaria.
Ao longo das correspondências trocadas com os outros interlocutores, João Miguel vai conhecendo um Leonardo diferente, ao juntar as peças de todas as impressões que tem dele. Se a princípio o amigo assemelhava-se ao protótipo de um homem de caráter indubitável, pelos olhos de Manuela mostra-se, agora, de forma negativa, como alguém “desequilibrado, timorato, indeciso, apático, dependente dos outros e furioso consigo próprio” (75), beirando a loucura e imbuído de princípios utópicos. Assim como também lhe relata Esmeralda: “Se pudesse ver o Leonardo! O imbecil não tem nenhum sentido do ridículo! Passeia-se pela quinta convencido de que Deus o nomeou Noé e planta uma horta, um pomar e uma casa como se rezasse a mais orgulhosa das orações” (153).
A situação vai se complicando, quando outras pessoas vão sendo envolvidas nos delírios e informações dúbias de Leonardo. Um exemplo é Eleutério Fernandes, jornalista, amigo de João Miguel que, passando por perseguições no Porto, aceita ser integrado à comunidade rural fundada por Leonardo, a fim de investigá-lo. Porém, não consegue se adaptar e, antes de ser encontrado morto nas Bétulas, escreve ao amigo: “Aproximei-me primeiro para ver o abismo, depois o abismo pregou os olhos em mim, e isto parece que foi um filósofo que disse que era de fatalidade” (250). Sobre a morte de Eleutério, Leonardo sai-se de forma evasiva como sempre: “Talvez se tenha suicidado o Eleutério por temer as agonias finais da doença e assim encurtar o suplício” (254). João Miguel fica ainda mais desconfiado do amigo quando Manuela lhe escreve dizendo sua impressão sobre Leonardo, e que sempre o achara “frio e convicto, e com a luzerna da loucura leviana a brilhar no fundo” (255).
A natureza racional e pragmática de João Miguel destoa da introspecção idealista de Leonardo. Enquanto Leonardo apresenta forte tendência para teorizar e racionalizar os acontecimentos, João Miguel tem uma postura mais prática, e lida com questões cotidianas de forma mais objetiva e concreta. A princípio, com seu espírito analítico, João Miguel tenta compreender os delírios do amigo, procurando uma explicação lógica para sua opção pelo isolamento. Ele demonstra preocupação com Leonardo, ao mesmo tempo em que investiga o caso de corrupção denunciado anos atrás. Contudo, a troca de cartas com Leonardo leva João Miguel a questionar as próprias certezas, levando-o a considerar que a verdade não é única e irrefutável. Ao colocar em xeque suas próprias percepções dos acontecimentos, sua amizade por Leonardo vai se alterando e, quanto mais as convicções de cada um são reforçadas, a relação entre eles fica mais difícil e insustentável.
Leonardo está empenhado na busca por um “Acordo Universal de Todas as Razões”, procurando explicar a desordem do mundo; João Miguel é pragmático e está habituado a olhar para a realidade de forma objetiva, e tenta uma forma de trazê-lo de volta à razão. Os dois amigos vão ampliando a distância física e ideológica entre eles, conforme o passar do tempo. A visão limitada da realidade de cada um ergue um muro que os separa de maneira intransponível. Ao viver dentro dos próprios limites de sua visão de mundo, tanto Leonardo quanto João Miguel isolam-se em seu “pequeno mundo”, restringindo suas experiências e vivências às suas crenças.
A rede de dúvidas deixada pelas incongruências das histórias de Leonardo afasta definitivamente os dois amigos. Ao final da narrativa, João Miguel desiste de tentar compreendê-lo, e reconhece que “foi um erro meu, desde o princípio, escrever-te” (262), encerrando, assim, a troca de cartas e a amizade entre eles.
Referência:
GOMES, Luísa Costa (1988). O Pequeno Mundo. Lisboa: Quetzal Editores.
[publicado a 13-12-2025]