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Judite

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Autor: Cabeça por Almada Negreiros

Judite (José de Almada Negreiros, Nome de Guerra)

Judite é uma das personagens centrais do romance Nome de Guerra, escrito por Almada Negreiros em 1925. Inversamente proporcional ao nascimento precoce dos primeiros contornos gráficos dessa figura mundana será a publicação integral da narrativa modernista, apenas dada à estampa no ano de 1938, na coleção «Autores Modernos Portugueses» dirigida por J. Gaspar Simões. Na verdade, percorrendo as obras exibidas na sua primeira exposição individual ocorrida em 1913, na Escola Internacional, deparamos com um desenho a carvão intitulado ‘Cabeça’, que provavelmente foi transposto, anos mais tarde, do mundo pictórico almadiano para a desconcertante trama romanesca, cujo pano de fundo vem a ser a boémia lisboeta, mimetizada no cosmopolitismo das grandes capitais europeias, mas fatalmente presa a atavismos passadistas.

Quer a contemplação da personagem pictórica feminina, quer a das mulheres que posam para o “Autorretrato num grupo” (1925) criado para o café A Brasileira, ambas confirmam o fascínio de Almada Negreiros pela exploração do valor icónico da prostituta, projetando-se verbalmente na descrição literária encontrada no capítulo XXXVIII de Nome de Guerra: “Uma boca ingénua, sem a sua maldade, e um jeito pândego ao canto da direita. Autêntica boca de rua. (…) Os olhos míopes não davam o encanto que prometiam. O nariz pequeno e perfeito.” (Negreiros, 2004: 100) Reconhecem-se, aliás, muitos pontos de contacto entre Judite e Vampa, protagonista da peça de teatro Deseja-se Mulher (1928), cuja lubricidade e atitude dominadora já latejam em algumas mulheres retratadas por Cesário Verde.

O verdadeiro enigma de Judite parece ser, no entanto, o hábito de usar um nome-máscara, através do qual preserva a sua verdadeira identidade e rasura as duas hipóteses aventadas pelo narrador no início da obra: “Ou as pessoas se fazem ao nome que lhes puseram no batismo, ou ele tem de seu o bastante para marcar a cada um” (9). Com efeito, ela não se afeiçoa ao nome atribuído à nascença nem tão pouco extrai dele força de caráter suficiente para se tornar numa personagem de contornos ontológicos bem definidos. E o primeiro esclarecimento que o leitor recebe a esse respeito encontra-se na dissociação da Judite almadiana em face da Judite bíblica, que, à força de seduzir o guerreiro Holofernes, o faz cair em desgraça. Não se podendo apurar se Almada Negreiros viu o filme Judith of Bethulia de David W. Griffith (1914), que glorifica a heroína veterotestamentária, talvez seja, pelo menos, lícito afirmar que Antunes preenche actancialmente o lugar do chefe assírio decapitado, vindo a encontrar em Judite os meios de amadurecer e de dominar o seu destino e, em certa medida, de ganhar consciência de si e do que o rodeia. Daí que Nome de Guerra seja entendido pela crítica como um Bildungsroman, por meio do qual a ingénua personagem masculina, vinda da província com fins educativos, enfrenta a desestabilização social e moral causada pela rapariga leviana, pouco polida e inexoravelmente deformada por um meio fútil e degenerado: “Havia nela precocidades de velhice, rugas, cansaços, estragos, fadigas, cicatrizes, nódoas e outras coisas eram puras, intactas, pueris, cruas. Era a vida de um fruto arrancado verde da árvore e amadurecido à força” (121).

Judite representa – para o herói em formação – a força de viver que suplanta o modelo de virilidade incutido pelo tio e pelo Portugal oitocentista: “Aquela mulher nua (…) pegou-lhe a vida, como uma coisa contagiosa. E o Antunes saía de facto do seu letargo, da sua hibernação” (135). A persona de Judite, que na noite fulgura como ícone do prazer fútil e um desconcertante espírito de independência, ensina ao neófito Antunes que urge tornar-se pessoa e arriscar.

Sem continuidade nem discípulos, Nome de Guerra e Judite, em particular, assinalam a efémera experiência do modernismo português pelos caminhos da prosa, numa emancipação da personagem feminina que, indomável, sobressai e não depende diegeticamente de ninguém para se impor num cenário povoado de figurantes dignos de uma tela clownesca assinada por James Ensor.

 

Referência

NEGREIROS, José de Almada (2004). Nome de Guerra. Lisboa: Assírio & Alvim.

 

 

Marisa das Neves Henriques