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Manuel da Bouça

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Autor: Capa da adaptação de Emigrantes, Chiado Editora

Manuel da Bouça (José Maria Ferreira de Castro, Emigrantes)

Manuel Joaquim dos Santos é o protagonista do romance Emigrantes (1928), de Ferreira de Castro. Nascida e criada em Oliveira de Azeméis e mais conhecida pela alcunha de Manuel da Bouça, a personagem é um homem do campo que traz na alma o fascínio por tornar-se “brasileiro”, isto é, o abrasador desejo de ser ele também um português que pudesse passar uma temporada de trabalho no Brasil, enriquecer e voltar à sua terra natal, comprando as propriedades de seus vizinhos.

Após a personagem comunicar à família a sua partida e mantendo-se firme diante dos seus 41 anos de idade e das dolorosas lágrimas da esposa e da filha, a narrativa entra num processo de intensidade temporal: Manuel da Bouça tramita os papéis para a viagem e, nesse ínterim, não percebe que a data da viagem já estava diante de si. A viagem, feita no navio Darro, é certamente um dos pontos altos da narrativa. O nome “darro”, em espanhol, teve uma dupla significação ao longo dos séculos: na Idade Média, era um tipo de vala construída para conduzir detritos humanos e, entre os séculos XVII e XX, passou a denotar qualquer curso de água em que pudesse haver ouro (cf. Bermúdez de Pedraza, 2000). De fato, o navio em que Manuel seguiu rumo ao Brasil era a imagem dessa dupla e paradoxal representação: ao mesmo tempo que, num intenso cenário naturalista, abarcava a miséria humana dos migrantes europeus assustadoramente pobres, o navio equivalia também à figura simbólica de um curso de água em que poderia haver ouro, tendo em vista que todos os emigrantes ali presentes sonhavam encontrar no Brasil a prosperidade e a segurança de um futuro financeiramente abundante.

Ao chegar a Santos, Manuel da Bouça é convidado para trabalhar em uma lavoura, mas, ainda movido pelo seu ímpeto heróico e pelas esperanças de camponês orgulhoso e iludido, não aceita as precárias condições de trabalho e resolve buscar Cipriano, um conhecido que, na verdade, recebeu muito mal o recém-emigrado. E aqui a personagem começa a sofrer uma profunda mutação de personalidade, que o levará da resistência à resignação, do luto à luta, da esperança à desilusão.

Cipriano ajuda Manuel a voltar ao porto de Santos. É, a seguir, enviado à fazenda de Santa Efigênia (não por acaso, a padroeira da casa própria), onde exerce trabalho análogo à escravidão. Ali mesmo conhece Benvinda, uma “mulata de olhos meigos, lábios grossos e sensuais, corpo forte exalando volúpia por todos os poros” (Castro, 2013: 145), com quem mantém uma relação apaixonada, interrompida pela transferência de Benvinda para outra fazenda. Desiludido tanto com a transferência de Benvinda quanto com a notícia de que a filha fugira para casar com Afonso (matrimônio que Manuel da Bouça reprovava), o protagonista resolve, ele também, mudar-se, decidindo viver em São Paulo e ali trabalhar num armazém com o companheiro Fernandes, ainda ganhando pouco e vivendo mal.

Entre uma carta e outra que troca com Amélia e as quais são lidas/escritas por Fernandes, Manuel da Bouça vai sentindo a distância da mulher, da filha e da vida em Portugal, cogitando, após nove anos no Brasil, não mais voltar à sua terra. Esse desejo de não regressar a Portugal agrava-se com o falecimento de Amélia, evento que é comunicado ao protagonista por meio de uma carta enviada por sua filha.

Nessa mesma época, Manuel da Bouça toma contato com as ideias marxistas e com o movimento sindical; ouve as leituras dos jornais de militância da época, reflete sobre as lutas de classe e sobre a posição desprivilegiada em que se encontra, bem como compreende, por fim, as “ideias que explicavam a derrocada da sua ambição” (184). Frequentando associações proletárias e envolvendo-se com movimentos sindicais, Manuel da Bouça vê explodir a segunda revolução tenentista brasileira, conhecida como Revolução Paulista de 1924.

Compreendendo a que camada social pertencia, Manuel da Bouça passa a enxergar-se não apenas como pobre, mas também como estrangeiro, revelando, assim, o doloroso percurso de uma construção identitária que, magnificamente exposta pelo narrador, não é de todo captada pelo protagonista: o pouco que consegue apreender de sua débil circunstância econômica e social e o profundo pavor de ser detido pela polícia já são elementos suficientes para que Manuel da Bouça entre na guerrilha apenas uma vez, mais por amor aos seus amigos que por ímpeto nacionalista, abandonando o movimento armado após roubar as joias de um combatente morto que encontra pela rua, mas justificando-se pelo facto de ser ele português e, por isto, não ter nada que ver com um movimento brasileiro.

Regressando a Portugal, Manuel da Bouça é recebido com carinho e curiosidade pelos seus parentes e vizinhos. Depara-se com uma grande casa em frente à sua – justamente a casa que ele sonhava comprar quando voltasse como “brasileiro”, mas que havia sido comprada pelo Nunes, o agente de viagens que enganou um grande número de migrantes – e é acolhido pela filha Deolinda, já casada com Afonso e mãe de um filho, também batizado como Manuel. Depois de visitar alguns conhecidos e fingir que havia voltado do Brasil com largas riquezas, Manuel da Bouça não consegue lidar com a frustração do seu projeto e, após visitar o túmulo da mulher para uma última despedida, resolve viver em Lisboa.

Enunciado pela voz de um narrador tedencialmente onisciente, Emigrantes conta uma história cujos dispositivos de figuração são balizados pelos sentimentos, como ocorre com Manuel da Bouça: poucas vezes descrito, toda a sua configuração humana vem a propósito dos sentimentos que ele sofre e das sensações que capta, como se, nesta obra, os afetos – mais que as ações – fossem a substância diegética responsável por preencher as feições humanas. Nesse sentido, ao evocar os sentimentos que tomam Manuel da Bouça quando este imagina a prosperidade que o espera no Brasil, o narrador usa a descrição facial da personagem para dar-lhe maior gravidade sentimental: “Ao tecer o êxito futuro, a sua expressão tornara-se sombria: os olhos castanhos, pequeninos e movediços em outros azares, paravam agora em fundo querer; as faces secas desciam, sem contrações, sobre o negro e longo bigode e a boca, de lábios delgados, dentes sujos de tabaco, aquietava-se também em cima do queixo agudo, rude, plebeu” (16). E, para reforçar essa descrição ao mesmo tempo empobrecida e afetiva de Manuel da Bouça, a obra traz uma figuração metonímica entre o "homem" (enquanto ser vivente) e a "terra" (como local de trabalho): o narrador coloca em cena traços telúricos da decrepitude do protagonista, como os “dedos nodosos”, a “mão enegrecida e calejada” e a “pele dura e gretada”, dando a entender que o corpo de Manuel da Bouça era, de facto, uma extensão da terra seca e desgastada em que ele trabalhou durante toda a sua vida.

Apesar de seguir um fluxo migratório natural para a altura, Manuel da Bouça será o paradigma do fim de uma lenda, representação antirromântica de uma ambição que levou muitos homens às aventuras nas Américas. E, neste ponto, vale ressaltar o caráter autobiográfico do romance: Ferreira de Castro, como Manuel da Bouça, nasceu na freguesia de Ossela (Oliveira de Azeméis) e viveu no Brasil, mais especificamente no estado do Amazonas, onde sentiu a dureza e a frustração da vida no estrangeiro. Ambos, autor e protagonista, foram pobres no Brasil, viveram as condições precárias da migração e, por isso, pode-se dizer que Emigrantes é, parcialmente, um romance de cariz autobiográfico.

Em seu viés naturalista, o romance de Ferreira de Castro insere Manuel da Bouça no corpo de personagens coletivas, como o "rebanho" – ou "manada", expressões animalizadoras, recorrentemente utilizadas para reforçar o estado de miséria das pessoas que, com o protagonista, seguiam no navio Darro, rumo ao Brasil. Entretanto, o protagonista, dias antes da Revolução Paulista de 1924, depara-se com o discurso marxista, as ideias comunistas e de esquerda, a consciência de classe e o sentido de revolta anti-institucional. E aqui também Manuel da Bouça será um paradigma de falência da ideologia marxista, porquanto, voltando para Portugal, vê-se incapaz de assumir a derrota e de transmitir as experiências advindas da consciência de classe – ao contrário, o protagonista opta por manter a hipocrisia burguesa e fingir um estatuto social que jamais conseguirá alcançar, tendo em vista a sua idade e a dor que nasce da frustração. Por fim, Manuel da Bouça é o arquétipo de quem, ainda hoje, vive a dura dialética de construir a vida material e, ao mesmo tempo, a vida simbólica subjacente à consciência de classe de pessoas empobrecidas pelo capitalismo.

Relativamente esquecido, o romance Emigrantes ganhou uma adaptação para a literatura infantil, produzida por crianças do 4º ano da Escola Básica de Areosa, localizada na mesma cidade em que nasceu Ferreira de Castro. Tão exitoso foi o projeto que a Editora Chiado resolveu publicar essa versão no ano de 2017, em livro físico e e-book.

 

Referências

BERMÚDEZ DE PEDRAZA, Francisco ([1608] 2000). Antigüedad y excelencias de Granada. Edición facsímil. Feria del Libro: Granada.

CASTRO, Ferreira de (2013). Emigrantes. 29.ª ed., Lisboa: Cavalo de Ferro.

Paulo Geovane e Silva