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Carlos Fradique Mendes

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Autor: António

Carlos Fradique Mendes (José Maria Eça de Queirós, A CORRESPONDÊNCIA DE FRADIQUE MENDES)

Figura composta por Eça de Queirós a partir de 1885, Carlos Fradique Mendes não constitui uma convencional personagem de romance, mas uma entidade de conformação pré-heteronímica (cf. Reis, 1999). Designado n’A correspondência de Fradique Mendes (1900) como Fradique Mendes ou, mais familiarmente, Fradique, a sua personalidade ajusta-se, com alguns traços de caricatura, à imagem do dândi finissecular e viajante compulsivo, de cultura eclética e dispersa; além disso, Fradique Mendes é um escritor em projeto, destinado ao silêncio literário, com exceção de alguns poemas de juventude. Tal não impede que se vá desenvolvendo, à luz daquela dispersão, um pensamento a que se tem chamado fradiquismo.

São as composições poéticas mencionadas no início d’A correspondência de Fradique Mendes que ligam a figura dos anos 80 ao “primeiro Fradique Mendes” (cf. Serrão, 1985; Silveira, 1973). Enquanto invenção coletiva de Eça, Antero de Quental e Jaime Batalha Reis, o Carlos Fradique Mendes de 1869 era um poeta satânico, baudelairiano e antiburguês, cujos versos são apresentados por breves informações biográficas, na Revolução de Setembro e n’O Primeiro de Janeiro; em 1870, Carlos Fradique Mendes assoma fugazmente num episódio d’O mistério da estrada de Sintra, de Eça e Ramalho Ortigão, de novo com nítidos contornos satânicos.

O Fradique de que aqui se trata é aquele que ressurge em 1885. Em junho desse ano, Eça propõe a Oliveira Martins a publicação de “uma série de cartas sobre toda a sorte de assuntos, desde a imortalidade da alma até ao preço do carvão, escrita por um certo grande homem que viveu aqui há tempos, depois do cerco de Troia e antes do de Paris” (Queirós, 2008, I: 368). Em meados de 1888, o projeto reaparece, de novo endereçado a Oliveira Martins, então diretor d’O Repórter; nas cartas ao amigo, Eça explica a ambivalente construção ficcional deste novo Fradique e sublinha a necessidade de o epistolário ser precedido por uma apresentação narrativa (cf. Queirós, 2008, I).

O narrador anónimo das “Memórias e notas” d’A correspondência de Fradique Mendes, amigo e admirador do protagonista (e como tal, um narrador não confiável), procede a uma figuração no duplo registo da biografia e do panegírico. Para a biografia, conta com a ajuda de Marcos Vidigal que ajuda a traçar um trajeto que, na adolescência açoriana, fazia adivinhar, nalguns aspetos, o Fradique adulto. A educação “singularmente emaranhada” (87), prenúncio, talvez, de uma personalidade dispersiva, é completada pela passagem por Coimbra, pelas viagens exóticas e pela vivência da Paris cosmopolita e "civilizada".

Na configuração de Fradique Mendes abundam referências culturais e traços de veridicção, neste caso concretizados pela alusão a figuras destacadas da vida pública portuguesa, com quem o protagonista dialoga (p. ex., Ramalho Ortigão, Oliveira Martins e J. Teixeira de Azevedo, ou seja, Jaime Batalha Reis). Assim se acentua uma ambivalência que ajuda a conferir a Fradique Mendes uma condição ontológica oscilante, entre a figura real e a personagem literária.

A figuração de Fradique Mendes culmina num retrato aprofundado com notações e referências culturais indiciadoras de uma síndrome do excesso, no limiar da irrisão. A pessoa física de Fradique impressiona pela “esplêndida solidez” e pela “sã e viril proporção dos membros rijos”, num corpo revestido pela indumentária do dândi; a isto junta-se uma face “pura e fina como a dum Lucrécio moço, em plena glória, todo nos sonhos da Virtude e da Arte” (97), uns “lábios que, pela vermelhidão húmida e pela sinuosidade subtil, pareciam igual e superiormente talhados para a Ironia e para o Amor” (97) e uns “olhos pequenos e negros, brilhantes como contas de ónix, duma penetração aguda, talvez insistente de mais, que perfurava, se enterrava sem esforço, como uma verruma de aço em madeira mole” (97). Por fim: “Só quando sorria ou quando olhava, se surpreendiam imediatamente nele vinte séculos de literatura” (97).

A figura de Fradique Mendes é elaborada também por outras vias. A fim de consolidar o retrato, o narrador recorre a testemunhos que completam (nalguns aspetos, em tom de paradoxo e de tensão pluridiscursiva) a construção de Fradique Mendes.

Para Oliveira Martins, ele é “o português mais interessante do século XIX” (134). Em dissonância com esta posição, Ramalho Ortigão indigna-se (“Você é um monstro, Fradique!”; 161) e verbera a sedução fradiquista pelo “velho Portugal fidalgo e fradesco do tempo do sr. D. João V” (161). Por sua vez, Carlos Mayer dá um contributo importante para aproximar Fradique de figuras queirosianas que se distinguem pela pose e pelo vazio intelectual: “O cérebro de Fradique está admiravelmente construído e mobilado. Só lhe falta uma ideia que o alugue, para viver e governar lá dentro” (135).

Nos seus inícios, o dispersivo pensamento fradiquista foi um ideário estético descrito pelo biógrafo. O Fradique de 1867 e das Lapidárias seguia a lição do “Mestre sem igual da Légende des Siècles” e de uma poesia consagrada a “motivos emocionais fora das limitadas palpitações do coração” (78); a par disso, afirmava-se “um outro filão poético (…) – o da Modernidade, a notação fina e sóbria das graças e dos horrores da Vida, da Vida ambiente e costumada” (78). Baudelaire e Leconte de Lisle eram as referências modelares de uma poesia exuberante na sua “forma soberba de plasticidade e de vida” (79). Rapidamente Fradique Mendes supera o influxo de Baudelaire, o “maganão das Flores do Mal” (103); anos depois, reaparece no Egito, na companhia de Théophile Gautier, “o derradeiro Pagão, conservando, nestes tempos de abstrata e cinzenta intelectualidade, a religião verdadeira da Linha e da Cor!” (117).

Bem mais tarde, Fradique Mendes fixa-se numa crença que vale como testamento literário, correspondendo a uma estética do silêncio que refuta as ilusões do realismo e do romance como sua forma narrativa. Como se apontasse ao chamado último Eça e às suas dúvidas, Fradique recusa relatar a experiência de uma viagem a África: “O verbo humano, tal como o falamos, é ainda impotente para encarnar a menor impressão intelectual ou reproduzir a simples forma dum arbusto…” (186-7).

Do conjunto das cartas de Fradique Mendes emergem sentidos extensionalmente relacionados com a atmosfera cultural do fim-de-século.

Algumas linhas de força do pensamento fradiquista: a apologia da autenticidade, contra a descaracterização da sociedade portuguesa produto do liberalismo de importação francesa; a crítica da civilização e dos seus excessos, em particular quando ela invade cenários naturais, míticos e bíblicos; a notação das rotinas da vida portuguesa e dos seus tipos (o político do constitucionalismo, o brasileiro de torna-viagem, o sacerdote-amanuense); a menorização dos estadistas contemporâneos e das suas contingentes fragilidades; a visão anti-idealista das práticas religiosas, reduzidas a um “conjunto de Ritos através dos quais cada povo procura estabelecer uma comunicação íntima com o seu Deus e obter dele favores” (217).

Como epistológrafo singular e pensador com laivos de provocação, Fradique autonomiza-se, nos planos ideológico, cultural e estético. Essa autonomização processa-se em movimentos de aproximação e de afastamento em relação a Eça, como fica evidenciado pelo facto de o escritor ter transformado algumas crónicas que assinou em cartas de Fradique Mendes. Por isso e ainda porque a estilística fradiquista é muito semelhante à de Eça (mas com acentuação do regime da ironia e do paradoxo), Fradique Mendes já não é uma personagem, como algumas que dele estão próximas (Carlos da Maia ou Jacinto); mas ainda não é, em plena afirmação heteronímica, um autor literário com identidade e com estilo totalmente outros em relação a quem o concebeu.

A autonomia de Fradique Mendes tem favorecido derivas transficcionais que transmutam em personagem ficcional a figura construída por Eça. Incluem-se nessas derivas novas incursões epistolográficas, bem como descendentes e herdeiros de Fradique Mendes. Mencionem-se, como cultores deste legado, Frederico Perry Vidal (O único filho de Fradique Mendes, 1950), José António Marcos (O enigma das cartas inéditas de Eça de Queirós, 1996), José Eduardo Agualusa (Nação crioula, 1997), Fernando Venâncio (Os esquemas de Fradique, 1999) e José Pedro Fernandes (Autobiografia de Carlos Fradique Mendes, 2002) (cf. Oliveira, 2004; Neto, 2007-9). Noutro registo, o médico e jornalista carioca José Madeira de Freitas adotou o pseudónimo Mendes Fradique, com o qual assinou várias obras, dentre elas uma História do Brasil pelo método confuso (1922) (cf. Lustosa, 2004). Podemos também verificar a transcedencia dessa personagem no documentário "O manuscrito perdido" realizado por José Barona, em 2010. Recentemente, surgiram várias cartas apócrifas de Fradique Mendes.

 

Referências 

LUSTOSA, Isabel (2004). “Introdução” a Mendes Fradique, História do Brasil pelo método confuso. São Paulo: Companhia das Letras, pp. 9-25.

NETO, F. Sousa (2007-9). “Recriações contemporâneas do Fradique eciano: diálgos intertextuais”, in Queirosiana. Estudos sobre Eça de Queirós e a sua Geração, nºs 18, 19, 20, 2007-2009, pp. 91-101.

OLIVEIRA, Paulo M. (2004). “Entre continentes e culturas: as travessias de Fradique Mendes”, in Benjamin Abadala Junior e Marli F. Scarpelli (orgs.), Portos flutuantes. Trânsitos ibero-afro-americanos. Cotia, SP: Ateliê Editorial, pp. 91-104.

QUEIRÓS, Eça de (2008). Correspondência. Organização e anotações de A. Campos Matos. Lisboa: Caminho.

QUEIRÓS, Eça de (2014). A correspondência de Fradique Mendes. Edição de Carlos Reis, Irene Fialho e Maria João Simões. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

REIS, Carlos (1999). “Fradique Mendes: origem e modernidade de um projeto heteronímico”, in Estudos queirosianos. Lisboa: Presença, pp. 137-155.

SERRÃO, Joel (1985). O primeiro Fradique Mendes. Lisboa: Livros Horizonte.

SILVEIRA, Pedro da (1973). “Prefácio” a Carlos Fradique Mendes, Versos. Lisboa: Edições 70, pp. 9-23.

Carlos Reis