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ARTUR CORVELO

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Autor: António

ARTUR CORVELO (José Maria Eça de Queirós, A Capital!)

Protagonista do romance A Capital! (que o autor deixou inacabado), Artur Corvelo é configurado como um jovem burguês de “temperamento linfático e calmo” (Queirós, 1992: 102), que deseja sair da província, pois aspira ser reconhecido na sociedade através do seu talento artístico. Fica claro desde o início do romance que a personagem funciona como um tipo representativo da sociedade do último quartel do século XIX, uma vez que ela se desenvolve e se mostra envolvendo as dimensões política e sociocultural.

Com efeito, por influência do meio ambiente, da hereditariedade e do momento histórico (fatores essenciais às estratégias naturalistas de configuração das personagens), Artur faz o percurso típico do jovem burguês que, à custa da gestão apertada e económica dos pais, vai estudar para Coimbra, não conseguindo, no entanto, alcançar o objetivo pretendido: tornar-se bacharel em Direito. Este insucesso é devido não só ao seu temperamento fraco, indeciso e passivo como também ao sentimentalismo nele incutido desde a infância – características que são exacerbadas pelo contacto com a deletéria boémia coimbrã. Dispersando a sua energia em leituras românticas e em amores sonhados ou de ocasião, Artur termina o seu ano de caloiro reprovado; quando lhe morrem os pais, depressa esbanja, de forma dissoluta, o magro pecúlio da venda dos seus bens, tendo de ir procurar refúgio junto de umas tias e de uma prima em Oliveira de Azeméis.

Os anos de Coimbra configuram-se como anos de aprendizagem realizada através do convívio com os rapazes do Cenáculo responsáveis pela publicação do jornal O Pensamento. É neste contexto que Artur contacta com o ideário revolucionário republicano ou vagamente socialista e com o pensamento de autores como Comte, Proudhon, Stuart Mill e Spencer. No entanto, este ideário não é absorvido em profundidade, triunfando em Artur um idealismo enformado pela sua preferência pelos cantores do amor, da ironia e do sofrimento românticos e por autores como Vítor Hugo, Musset, Heine e Gautier.

Desterrado em Oliveira de Azeméis, considera-se um espírito desajustado e incompreendido, no comezinho e materialista meio provinciano. Passa o tempo que lhe deixa o detestado emprego, como ajudante de botica, a elaborar versos românticos reunidos sob o pouco original título Esmaltes e Joias, coletânea onde alguns poemas adquirem uma coloração mais revolucionário e democrática apenas por influência de amigos ou quando algum revés social lhe acirra temporariamente o ânimo. Transporta o seu desajuste social e a sua insatisfação para a escrita do drama Amores de Poeta, quando o robusto Rabecaz, o seu companheiro de botequim, lhe assegura ser essa a maneira mais fácil de concretizar o sonho de se tornar famoso em Lisboa. Trata-se de um drama que constitui uma mise en abyme da sua própria situação e da sua paixão platónica por uma Baronesa que entrevira na estação de comboio de Ovar, mas que, na sua perspetiva, é uma forma sofrida de expor a pretensão de ascensão social da classe média culta contrariada pela elite aristocrática e pela burguesia endinheirada e materialista. Tanto o percurso de Artur como o do seu protagonista espelham os traços principais da sociedade liberal oitocentista, resultante dos movimentos revolucionários que trouxeram uma maior mobilidade dos indivíduos e um novo humanismo, mas também uma mediania socialmente niveladora (cf. Dufour, 2013: 19). Neste sentido (e na senda do garrettiano Carlos), Artur encarna as contradições de uma burguesia que apenas é revolucionária enquanto aspira às regalias dos privilegiados económica e socialmente, oscilando entre o ódio ao burguês e a ambição de ter o seu conforto, entre a admiração idealizada da aristocracia e a rejeição democrática dos seus privilégios elitistas.

Esta contradição, perspetivada criticamente por um narrador omnisciente, conduzirá Artur ao fracasso e à “queda” moral e social, de acordo com a lógica determinista dominante no Realismo. Com efeito, repentinamente na posse de uma avultada herança, Artur desdenha a solução prática da compra da farmácia na província e parte para a capital – a idealizada Lisboa – com o intuito de se tornar conhecido através da publicação das suas obras e, por esta via, garantir reconhecimento social.

Volúvel e influenciável, Artur procura em Lisboa ora um meio fácil de subir através da influência do mundo do jornalismo e dos literatos, ora a companhia dos revolucionários republicanos, sobretudo nos momentos de desagrado social. Artur é incapaz de perceber as suas contradições, apesar dos avisos e explicações dados pelo seu amigo republicano Damião e, não conseguindo mudar de rumo, acomoda-se numa vida de luxo e deboche. A sua situação expõe o leque de vícios e males sociais da grande cidade e permite ao leitor construir uma visão crítica da sociedade do final da década de 70, com incidência na corrupção política, na superficialidade ou no clientelismo do jornalismo e na imoralidade dos costumes. A ingenuidade provinciana de Artur torna-o vítima da exploração e espoliação por parte de jornalistas e de gente pouco escrupulosa, conduzindo-o de desilusão em desilusão. Por seu turno, os modismos retóricos dos republicanos, acentuados por um marcado sectarismo e por uma grande falta de elevação e de razoabilidade prática, originam um progressivo desencanto em Artur. A alternativa de se tornar conhecido como oposicionista também acaba por lhe ser barrada devido às suas atitudes incoerentes, que o levam a ser rechaçado pelos republicanos por não confiarem nele. Assim, a personagem Artur é desenhada de forma a evidenciar as consequências de um idealismo superficial e antiquado que é desencadeado por uma criatividade literária ilusória e acrítica e que se alicerça num ignorante desdém pela ciência, pelo saber técnico e positivo (sugerido como uma alternativa desperdiçada pela personagem).

Como Eça de Queirós não terminou este romance, as edições póstumas atribuíram-lhe um final (não avalizado pelo autor) construído através de cortes e remodelações, chegando ao cúmulo de suprimir a personagem Cristininha, prima de Artur, conforme explica pormenorizadamente Luiz Fagundes Duarte na introdução à edição crítica deste romance (cf. Queirós, 1992). Fica, pois, por esclarecer se, depois do regresso ao ponto de partida provinciano, Artur iria finalmente mudar o rumo da sua vida, dando assim uma resolução cabal ao sentido exemplar (ou mesmo de tese) de que foi investido pelo autor.

Em 1971, Artur Portela Filho e Artur Ramos realizaram uma adaptação teatral em 2 atos e 25 quadros, levada à cena no "Teatro Villaret”, tendo como decorador e figurinista João Abel Manta (cf. Guerra da Cal, 1980: 25). A publicação desta adaptação na coleção Obras de Eça de Queirós da editora Livros do Brasil causou acesa polémica. Recentemente, em 2001, a personagem apareceu na versão d’Os Maias, por Maria Adelaide Amaral (realização de Luiz Fernando Carvalho), integrando o leque de personagens secundárias; na versão remontada para DVD, a personagem foi suprimida.

Referências bibliográficas

GUERRA DA CAL, Ernesto (1980). Lengua y estilo de Eça de Queiroz. Apéndice. Bibliografía queirociana sistemática y anotada e iconografía artística del hombre y la obra. Coimbra: Por Ordem da Universidade, tomo 3º.

DUFOUR, Philippe (2013). “Le réalisme pense la démocratie”, in António Apolinário Lourenço; Maria Helena Santana; Maria João Simões. O Século do Romance. Realismo e Naturalismo na Ficção Oitocentista. Coimbra, Centro de Literatura Portuguesa.

QUEIRÓS, Eça (1992). A Capital! Começos duma carreira. Edição por Luiz Fagundes Duarte. Lisboa, INCM.

Maria João Simões