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RAPOSO, Teodorico

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Autor: António

RAPOSO, Teodorico (José Maria Eça de Queirós, A Relíquia)

Protagonista do romance A Relíquia (1887) de Eça de Queirós. Inicialmente publicado em folhetins na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, entre abril e junho, o romance aparece em formato de livro antes ainda da conclusão da publicação seriada pelo jornal brasileiro.
Teodorico Raposo é uma personagem que, cumulativamente, exerce funções de narrador autodiegético, contando, em processo de narração ulterior, a sua vida até ao momento presente em que é comendador, casado e chefe de família, proprietário da Quinta do Mosteiro, perto de Viana do Castelo, como é explicitado no prólogo do romance subscrito pelo próprio. Este texto preambular é relevante para a compreensão quer da narrativa que se lhe segue, quer da personagem principal, que aqui se instaura simultaneamente como o centro da história e como protagonista do discurso: assume-se como alguém que vai escrever as suas memórias, “com sobriedade e sinceridade”, submetendo-as ao duplo foco da História e da Fantasia (Reis, 1999: 116-118). “Tão francamente, como eu revelo aos meus concidadãos nestas páginas de repouso e de férias, onde a Realidade sempre vive, ora embaraçada e tropeçando nas pesadas roupagens da História, ora mais livre e saltando sob a carapaça vistosa da Farsa!” (Queirós, s.d.: 9), promete o narrador no final do prólogo, encetando um inequívoco diálogo intertextual com a epígrafe que o autor escolhera para o romance: “Sobre a nudez forte da verdade – o manto diáfano da fantasia”.

          No entanto, no discurso pessoal instaurado pelo narrador, são matizadas as marcas características do discurso autobiográfico e memorialista, geralmente representativo de quem lança sobre o passado um olhar distanciado. Recorrendo raramente a anacronias significativas, o narrador mantém o suspense narrativo e assume o discurso, não como voz ulterior que rememora o passado de um ângulo mais maduro e experimentado, mas como voz de Teodorico-personagem, deixando-o conduzir o leitor pelas aventuras e desventuras da sua juventude.

         De alcunha Raposão, cunhada pelos seus condiscípulos da Universidade de Coimbra, onde se formou bacharel em Direito, Teodorico Raposo é sobrinho de D. Patrocínio das Neves, solteirona, rica e beata, que o adota, depois de ele ter ficado órfão de mãe e pai aos sete anos de idade, tendo sido trazido de Viana, no Minho, para Lisboa. A infância da personagem, passada num colégio interno católico – o Colégio dos Isidoros –, e a sua juventude universitária em Coimbra são narradas no primeiro capítulo do romance, com particular atenção a duas características que serão decisivas na construção do seu caráter adulto: por um lado, o facto de ser sobrinho da “titi”, diminutivo infantil que o narrador utiliza para enfatizar o ascendente da senhora sobre o sobrinho e sobre a corte bajuladora de clérigos e de magistrados que a rodeava; por outro lado, a sua necessidade, cedo experimentada, de viver uma vida dupla.

          Teodorico é, de facto, uma personagem marcadamente dúplice – para o que contribui o simbolismo do seu apelido – e toda a narrativa se constrói com base nessa dualidade. Raposo e Raposão são nomes que remetem para o campo semântico da manha e do artifício, atributos característicos desta personagem. Esta duplicidade, simbolicamente representada pela alternância do uso do nome da personagem e da sua alcunha, adensa-se em Lisboa, onde, já adulto e bacharel, o protagonista começa a viver em função de um projeto egoísta: conquistar a confiança da tia e garantir a herança. Para tal, obriga-se a viver sob as saias negras de Patrocínio das Neves, fingindo respeitar os preceitos de uma existência imaculada e beata, submetendo-se à sua vontade, sujeitando-se a humilhações constantes. Cedo Teodorico percebe que necessita de aperfeiçoar os embustes devotos para conseguir herdar, acabando por ser contemplado com uma viagem: não à tão desejada Paris dos seus sonhos mundanos, mas à Terra Santa, onde, por incumbência da tia, se purificaria e de onde traria a desejada relíquia, garante da saúde da “titi”.

          A viagem, que ocupa praticamente um terço do romance, é uma etapa importante na construção do protagonista, pois através dela Teodorico encarna feições de um herói picaresco em aventuras por terras do Levante (Guerra da Cal, 1971). Do ponto de vista da economia narrativa, a viagem à Palestina, incentivada por Patrocínio das Neves, é fundamental quer em termos de perceção da evolução do protagonista, quer em termos de representatividade temática, quer ainda em termos de progresso da intriga. De um ponto de vista histórico-literário, esta parte significativa do romance – desencadeada por uma ilusão onírica do protagonista – corresponde a um afastamento da doutrina naturalista, introduzindo-nos num cenário de sonho e de fantasia, através da imersão de Teodorico no tempo da Paixão de Cristo. De um modo quase “miraculoso”, o protagonista e o seu companheiro de viagem, o académico alemão Topsius, são transportados no tempo e recuam ao momento da crucificação de Jesus da Nazaré, visitando templos, ruas, casas e convivendo com hábitos, protagonistas bíblicos e rotinas da época, oferecendo ao leitor um autêntico “guião para um filme sobre Jesus (...) segundo uma versão laica ao gosto da Vida de Jesus de E. Renan” (Lopes, 1984: 85).

          Porém, a falta de lógica temporal e os paradoxos anacrónicos que ditam um aparente desequilíbrio estrutural na narrativa, sobejamente criticados por todos quantos, equivocadamente, avaliaram A Relíquia pela bitola do realismo, são compensados afinal pelo significado autêntico desta história burlesca: a consumação da construção do perfil de anti-herói de Raposo, através do adensar da ironia e do alargamento da crítica ao comportamento humano. Teodorico revela-se, durante esta viagem, uma figura desajustada, avaliando à luz da visão pequeno-burguesa oitocentista as cenas a que ia assistindo. Confrontado com um choque entre a imagem que lhe havia sido incutida pela educação beata de um espaço e de um tempo míticos e a realidade de uma Terra Santa em que se refletem os mesmos defeitos humanos e os mesmo vícios da contemporaneidade oitocentista – hipocrisia, falsidade, injustiça, prostituição, ambição, falsidade, cobiça –, Teodorico não se corrige. Persiste na prossecução do seu plano, pouco sensível a detalhes históricos ou a pormenores espirituais, procurando a relíquia que seria a chave da cobiçada herança. Este desajustamento da personagem manifesta-se quer pela utilização de um vocabulário mundano e trivial que, por via do contraste anacrónico, produz um efeito cómico, quer pela faceta burlesca de alguns dos seus comportamentos.

          Após a viagem – que pode ser julgada, na sua variedade semântica, em três dimensões distintas, geográfica, temporal e psicológica – Teodorico Raposo apresenta mudanças. Não se trata de alterações substanciais de caráter ou personalidade, mas a personagem muda e essa transformação é assinalada pelo narrador, ao sublinhar como é sobretudo na relação com os outros que se afirma o novo Raposo.

           A busca persistente da relíquia maior, que garantiria o seu futuro de herdeiro, revela-se, simultaneamente, o motivo da sua queda, quando a troca de embrulhos mostra a D. Patrocínio, não a coroa de espinhos de Jesus da Nazaré, mas a camisa de noite de Mary. Contudo, o perfil burlesco da personagem permite-lhe erguer-se de novo e, mesmo na adversidade – deserdado e sem meio de subsistência –, consegue sobreviver à conta da venda das relíquias trazidas da sua viagem e, por fim, recuperar o padrão de vida ambicionado, através de um casamento de conveniência com a irmã do seu condiscípulo coimbrão Crispim. Para o protagonista, os dilemas de consciência – de que o diálogo final com a litografia de Cristo é um exemplo – não são problemáticos, prova de que a viagem e a experiência de vida não o mudam em profundidade: nem a religião o corrigiu, nem a consciência o corrigirá.

         Quando, no epílogo do romance, Teodorico-personagem se reencontra com Teodorico-narrador, apresenta-se a moral desta longa rememoração: não um rebate de consciência mas o arrependimento de não ter sido capaz de “afirmar”, ou seja, de inverter o seu destino de deserdado, contando outra das suas imaginosas mentiras a D. Patrocínio.

A Relíquia é uma das obras de Eça que tem sido sujeita a mais transmediações, facto que se explica, quer pela sua substância humorística, quer por uma certa universalidade da temática, quer pelo teor cenográfico das suas pormenorizadas descrições: várias são as adaptações teatrais da obra das quais se destacam a representação de 1971, no Maria Matos e a de 1987 da responsabilidade de Luís Sttau Monteiro e Artur Ramos, produzida para a RTP em três episódios. Em 2001, a Rede Globo produz a minissérie Os Maias, importando, contudo, algumas personagens de outros romances queirosianos, nomeadamente Teodorico Raposo que ganha, assim, uma dupla sobrevida: por um lado, refigura-se num formato novo e num medium diferente e, por outro lado, passa a interagir num outro universo diegético outro. Já recentemente a figura de Teodorico Raposo é sujeita a dois tipos de remediação: pelo desenhador brasileiro Francisco Marcatti Júnior que em 2007 publica um romance gráfico baseado em A Relíquia; outra da autoria de Rui Campos Matos, numa versão ilustrada do romance (Matos, 2013).

          Personagem dúplice em essência, Teodorico representa a “crise ética do sujeito, irredutível a uma linha de convicções e comportamentos coerentes”, o que, como é sabido, teve grandes repercussões na obra derradeira de Eça de Queirós (Reis, 1999: 123). Contudo, os sentidos para os quais aponta a construção do seu caráter são afetados por uma intemporalidade que pode explicar a recorrente revisitação à Relíquia por dramaturgos, encenadores e argumentistas. Raposo é uma construção quase caricatural de um tipo humano que transcende as idiossincrasias sociais de época. Vive na duplicidade, em função de um projeto ambicioso e egocentrado, é totalmente desprovido de valores e nem a religião, nem a consciência moral corrigem nele o oportunismo, a manha e a tendência quase compulsiva para a mentira. Embora seja uma construção fortemente negativa, como muitas outras personagens queirosianas, aparece temperada com um revestimento risível que suscita no leitor, de então e de hoje, o mesmo juízo ambíguo entre a complacência e a reprovação.

 

Referências

GUERRA DA CAL, E. (1971). A Relíquia. Romance picaresco e Cervantesco. Lisboa: Edição Grémio Literário.

LOPES, O. (1984). “A Relíquia”. In: Álbum de Família. Lisboa: Caminho, pp. 82-96.

MARCATTI JÚNIOR, F. (2007). A Relíquia de Eça de Queiroz. S. Paulo: Conrad.

MATOS, R. C. (2013). A Relíquia – uma Antologia Ilustrada. Fortaleza: Fundação Waldemar Alcântara.

QUEIRÓS, E. de (s.d.). A Relíquia. Lisboa: Livros do Brasil.

QUEIRÓS, E. de (2009). Cartas Públicas. Edição Crítica de Ana Teresa Peixinho. Lisboa: IN-CM.

REIS, C. (1999). “Estratégia narrativa e representação ideológica n’A Relíquia”. Estudos Queirosianos. Lisboa: Editorial Presença, pp. 116-123.

Ana Teresa Peixinho