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ZÉ FERNANDES

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Autor: Adriana Vieira (11.º F1, Escola Sec. de Silves)
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Autor: Joana Gonçalves (11.º F1, Escola Sec. de Silves)

ZÉ FERNANDES (José Maria Eça de Queirós, A Cidade e as Serras)

Zé Fernandes, ou antes José Fernandes Lorena de Noronha e Sande, é o narrador homodiegético e uma das principais personagens do romance considerado semipóstumo de Eça de Queirós A Cidade e as Serras, publicado em 1901. Embora formalmente se apresente como uma espécie de cronista do seu amigo Jacinto, neto de um fidalgo miguelista — conhecido em Lisboa por D. Galeão, devido à sua corpulência — que se autoexilara em Paris, há claramente episódios do romance em que é ele o protagonista, e a técnica enunciativa adotada, que propositadamente se afasta da impersonalidade naturalista, implica que todo o discurso narrativo esteja subordinado ao ponto de vista desta personagem.


Para além de não ser impessoal, o narrador não é também imparcial. Na verdade, todo o relato está eivado de uma indisfarçável subjetividade e por vezes de autocomplacência, visível, por exemplo, no modo como Zé Fernandes justifica a sua ida para Paris, onde se tornara no único amigo português do aristocrata Jacinto. Fora, maldosamente na sua ótica, expulso da Universidade de Coimbra, apenas por “ter esborrachado, numa tarde de procissão, na Sofia, a cara sórdida do dr. Pais Pita” (Queirós, 2008: 16).

Salvo essa referência à sua passagem por Coimbra e a informação sobre a proveniência do dinheiro que lhe financia os estudos (enviado pelo seu bom tio Afonso Fernandes, um abastado proprietário de Guiães, na margem norte do Douro), as primeiras páginas do romance são fundamentalmente dedicadas a descrever a fortuna de Jacinto, as suas origens familiares e o seu modo de vida em Paris. É também percetível o distanciamento cético e irónico de Zé Fernandes, relativamente à confiança que o amigo, nesta fase da sua vida, deposita na associação entre a ciência, a civilização e a felicidade. Quando, por exemplo, este lhe explica como é que um telescópio, potenciando a qualidade da visão, pode aumentar a felicidade humana, Zé Fernandes comenta que concordou, por ser bom e não querer desalojar “um espírito do conceito onde ele encontra segurança, disciplina e motivo de energia” (Queirós, 2008: 18); mas as palavras que pronuncia, e com as quais põe fim à cogitação do seu amigo, bem poderiam ser desagradavelmente interpretadas por Jacinto, se este fosse mais intransigente na defesa das suas convicções: “— Vamos então beber, nas máximas proporções, brandy and soda, com gelo!” (Queirós, 2008: 19).

O convívio das duas personagens é, entretanto, interrompido por um período de sete anos, porque o tio de Zé Fernandes manda regressar o sobrinho a Guiães para que este o auxilie na administração das suas propriedades. Foram sete anos atarefados, confessa, ocupados nos trabalhos de lavoura, mas durante os quais pouco mais ocorreu de relevante para o relato do que a morte do seu tio. Após um breve luto, o narrador volta a Paris, retomando o contacto diário com o seu amigo, já que se instala no palacete que este possui nos Campos Elísios e que herdara do avô, Jacinto Galeão.

Nem a Paris a que Zé Fernandes regressa em 1887, nem o seu amigo Jacinto são exatamente os mesmos que deixara em 1880. O questionamento do paradigma positivista fizera emergir um ilimitado número de doutrinas filosóficas e éticas que se atropelavam e se sucediam, sem nenhuma vingar duradouramente. Quanto a Jacinto, a sua casa acumulara tecnologia e civilização, mas o retrato que dele nos faz Zé Fernandes, no dia do reencontro, denota envelhecimento e alguma degradação física (corcovava). E também são agora percetíveis no neto de D. Galeão bastantes reservas quanto à linearidade da associação do progresso científico ao grau de satisfação pessoal por ele produzido.
Chegando desprevenido da serra, nesta segunda estada em Paris, é Zé Fernandes ele que parece deixar-se inebriar pelo refinamento da Cidade. E sem as defesas de uma educação requintada como a que recebera Jacinto, chega ao ponto de se deixar ridiculamente seduzir por uma rameira magra e suja, Madame Colombe, que o explora e o abandona sem qualquer contemplação. Já se vê, por este exemplo, que a história contada no romance de Eça não é exatamente a mesma que escreve a personagem.

O precipitado regresso de Zé Fernandes a Portugal é motivado pela decisão de Jacinto de assistir à trasladação dos ossos dos seus antepassados, arrastados e dispersos por uma chuva diluviana que destruíra a velha igreja em que repousavam, para a capela nova do vale da Carriça. Na hora da despedida, que deveria ser apenas temporária, tanto Jacinto como Zé Fernandes sentem tristeza pelo afastamento da Civilização. Surpreendentemente, Jacinto irá integrar-se com perfeição no mundo rural, revigorando o corpo, renunciando ao Pessimismo filosófico que dominara os seus últimos tempos de Paris e empreendendo reformas para melhorar a vida dos seus caseiros. No seu relato, Zé Fernandes põe em evidência a bondade e a generosidade de Jacinto, mas também, apoiando-se nos conhecimentos agrícolas do procurador Silvério, a impossibilidade de concretização dos planos de expansão das atividades de lavoura e ganadaria que aquele pretendia levar a cabo na sua serrana quinta de Tormes.

Para além de, enquanto narrador, depender dele a imagem que temos de Jacinto (frequentemente menos positiva do que indicia o discurso laudatório que o envolve), Zé Fernandes disputa claramente com o neto de D. Galeão o estatuto de personagem principal do romance. É um narrador que se conta a si próprio, não só quando revela a sua perceção dos atos pessoais e dos comportamentos sociais de Jacinto, mas também através da narração de acontecimentos da sua própria vida como personagem, incluindo alguns que o descredibilizam como moralista. O seu relacionamento com o universo feminino, por exemplo, está longe de ser exemplar: à aventura soez com a prostituta parisiense, seguem-se os amores fortuitos com a camponesa Ana Vaqueira (mencionada no romance primeiro como casada e mais tarde como viúva, como se não tivesse existido a primeira referência).

Longe de ser o narrador transparente almejado pela estética naturalista, Zé Fernandes é portador de uma tese que a crítica confundiu ao longo de grande parte do século XX com a tese de Eça de Queirós, como reconheceu António José Saraiva (1990: 157). Para Paulo Franchetti, este romance queirosiano é “a história de Jacinto contada por um narrador complexo, que tem uma tese pela qual se esforça desde a primeira linha do romance” (Franchetti, 2008: 31). Ou seja, é de Zé Fernandes e não de Eça a convicção da superioridade do campo sobre a cidade, que o narrador verdadeiramente só explana no capítulo final, na sequência do seu desapontamento com Paris durante a sua última visita. Também como consequência da perspetiva narrativa adotada, se optarmos por analisar A Cidade e as Serras como uma concreção do modelo do romance de formação ou aprendizagem, é Zé Fernandes e não Jacinto a personagem que verdadeiramente altera o seu modo de pensar, em virtude da experiência acumulada.

 

Referências:

FRANCHETTI, Paulo (2008). “Apresentação”. In: Eça de Queirós, A Cidade e as Serras. Cotia (SP): Ateliê Editorial, pp. 9-54.

QUEIRÓS, Eça de (2008). A Cidade As Serras. Lisboa: Livros do Brasil.

SARAIVA, António José (1990). A Tertúlia Ocidental. Estudos sobre Antero de Quental, Oliveira Martins, Eça de Queiroz e Outros. Lisboa: Gradiva.

 

 

António Apolinário Lourenço