• Precisa de ajuda para encontrar algum conteúdo?

Mylia

Mylia (Gonçalo M. Tavares, Mylia)

Em Jerusalém (2005), terceiro livro da tetralogia O Reino, de Gonçalo M. Tavares, acompanhamos a trajetória de Mylia, ex-interna do hospício Georg Rosenberg - uma mulher jovem, mas doente, tratada desde a infância como “esquizofrênica” e que se diz capaz de ver a alma das pessoas, que “têm pelos púbicos” (Tavares, 2006: 35). Mylia encarna o desvio, as fronteiras entre a razão e a loucura; como leitores, somos convidados a recuperar sua história a partir da noite de 29 de maio.

Às quatro horas da manhã, em uma cidade sem nome (a despeito do título do romance), Mylia, uma mulher “magra, mas forte [que] não utilizava os dedos para ninharias” (8), está em busca de uma igreja para sanar sua dor física e espiritual: uma dor no ventre, originada por uma doença sem nome que poderá lhe tirar a vida a qualquer momento. Como a igreja está fechada, ela telefona para seu ex-amante, Ernst, e desmaia. Enquanto isso, uma série de acontecimentos encadeados pelas demais personagens, que envolvem o assassinato do filho de Mylia, Kaas -12 anos após o nascimento -, e de seu agressor, Hinnerk, culminam com a mãe acusada de homicídio e interna em um hospital-prisão.

A narrativa oscila entre passado e futuro, de forma desordenada, e percorremos um enredo tecido pelas memórias das diversas personagens. Mylia se delineia a partir do entrecruzamento e contrastes com as demais figuras, as quais têm em comum a dor e a loucura decorrentes de uma profunda experiência com o mal - não apenas a crueldade das relações privadas, mas um mal transficcional, não referenciado diretamente na narrativa: o Shoah, o Holocausto judeu.

Os contornos de Mylia surgem, em especial, em oposição ao de Theodor Busbeck, seu ex-marido, um renomado médico que busca, a partir de um estudo científico do Holocausto, contruir a fórmula do horror, um modo de mapear “se a intensidade da relação horror/tempo tem vindo a aumentar” (48). Theodor e Mylia se conhecem no consultório, quando os pais a levam para uma consulta. A “beleza violenta” e os insultos da jovem, de apenas 18 anos, conquistam o médico, a despeito dos dez anos de diferença entre eles. Theodor encarna o cientificismo e a psiquiatria clássica, pois acreditava já compreender a cabeça da esposa, já tê-la “normalizado”. Por seu lado, Mylia mostra-se o contrário, uma jovem que “sabia já como humilhar os homens” (32); que não tem medo de insultar ou de ser direta, e que até mesmo ironiza o médico sobre a sua capacidade de investigar e curar a loucura: “Quer dizer [...] que durante vários anos, muito antes de me conhecer, sem sequer saber da minha existência, já estudava a minha cabeça, a cabeça de Mylia? [...] Para se perceber a cabeça de uma pessoa não basta ser médico, tem de se ser santo ou profeta” (44).

As personagens estão em pólos opostos; como o narrador afirma, têm “diferenças de saúdes” (52): Theodor se imaginava em uma vida higiênica, sem marcas pessoais, obstinado apenas em deixar um grande trabalho para a História; enquanto sua mulher não conseguia manter a “higiene da notoriedade” do marido, o que a família Busbeck exigia. A incapacidade de Mylia de performar o papel de mulher esperado engendra punições. Oito anos após o casamento, Theodor a interna na “pensão de luxo” (163); lá Mylia conhece e tem relações com Ernst Spengler, também esquizofrênico, e engravida de Kaas. Mylia é punida pelo sanatório, com aval de Theodor, e fica isolada dos demais durante quatro meses; neste período, Theodor divorcia-se e assume a criança. Após o parto, o médico autoriza a esterilização da ex-mulher, a qual evolui para o tumor inominável que a atormenta, tornando a dor “uma palavra essencial” (1) da sua existência. A “dor larga, que não pertence a um ponto” (1) também representa a ausência do filho que lhe foi tirado. Essa dor marca ainda a “apetência para se aproximar de um deus qualquer” (1), indicando a relação dúbia que Mylia mantém com a fé – seu refúgio durante os dias internos e a única explicação para a sua sobrevida, apesar da doença: “Ela estava viva porque sucedera um milagre, um acontecimento espiritual e não terapêutico” (224).

Mylia está à margem da sociedade por ser louca - ela é a estranheza que incomoda e desconcerta por gostar de “mostrar” aquilo que as normas sociais dizem ser proibido. Ela encarna, portanto, a forma como a sociedade lida com a doença, pois “louco é o que age imoralmente e louco ainda é o que agindo moralmente pensa de modo imoral” (95-96), como sentencia Gomperz, médico diretor do hospício Georg Rosenberg.

Jerusalém foi adaptado ao teatro com o título Jerusalem Heaven, com encenação de Vana Pefani (estreia em setembro de 2013, na Fundação Michael Cacoyannis, Atenas). Antes disso, em 2008, João Brites encenara o mesmo romance, para o Teatro O Bando; em 2009, Gonçalo M. Tavares escreveu o livreto de uma obra de câmara, com encenação de Luís Miguel Cintra.

 

Referência

TAVARES, Gonçalo M. (2006). Jerusalém. São Paulo: Companhia das Letras.


[publicado a 6-1-2026]

 

 

Nadjara Thays Teixeira Martins